Com humor, pré-candidatos ao governo tentam converter likes em votos

ACM Neto (União Brasil), Jerônimo Rodrigues (PT) e João Roma (PL) buscam engajamento nas redes sociais para impulsionar as pré-candidaturas

Publicado quarta-feira, 20 de julho de 2022 às 05:00 h | Atualizado em 20/07/2022, 11:49 | Autor: Dante Nascimento

Eles se arriscam em cantar, dançar e tocar instrumentos musicais em vídeos publicados na internet. Vale tudo no quase show de humor protagonizado pela maioria dos pré-candidatos ao governo do estado, menos pedir voto, pelo menos de forma explícita. Neste momento de pré-campanha, a disputa é por likes.

Enquanto aguardam o início da propaganda eleitoral, no dia 16 de agosto, ACM Neto (União Brasil), Jerônimo Rodrigues (PT) e João Roma (PL) se apresentam de forma descontraída nas redes sociais para alcançar um público mais amplo e, assim, alavancar as candidaturas no ambiente digital. 

Nas publicações, as propostas e projetos para o futuro da Bahia dividem espaço com cenas inusitadas vivenciadas pelos postulantes ao Palácio de Ondina.

“Não que proposta não seja relevante, mas é como se esse primeiro contato, essa primeira ponte, facilitasse o fluxo de comunicação. Faz com que a pessoa se sinta mais propícia a receber essa proposta depois”, alerta Sabrina Oliveira, doutora em Ciência Política e pesquisadora da FGV Dapp.

Com 105 mil seguidores no Instagram, João Roma tem priorizado a publicação de conteúdo irreverente para construir a ponte com o eleitor. Se numa montagem ele aparece dançando funk, em outra publicação se aventura no saxofone para obter 5 mil curtidas em apenas um dia. 

Recentemente, Roma voltou a atualizar o perfil criado ano passado no Tik Tok, plataforma que se tornou febre no mundo por viralizar conteúdos curiosos e engraçados. 

O jornalista Gustavo Mello, responsável pelas estratégias digitais da campanha do pré-candidato do PL, confirma que o uso do humor é fundamental para conquistar um público mais amplo. 

“As pessoas acessam as redes sociais para ter informações e entretenimento, se não adotarmos uma linguagem mais leve e bem-humorada, será difícil furar a bolha e dialogar com o maior número de pessoas. Publicações mais descontraídas engajam melhor pois aproximam os eleitores do candidato”, justifica.

Um vídeo postado por sua equipe no Tik Tok ironiza o fato de Roma ser desconhecido de parte da população. Por meio da internet, a campanha busca desenvolver táticas para reverter esse quadro e aproximá-lo do eleitor.

“Roma tem boa repercussão nacional, sua imagem já está consolidada junto aos apoiadores do presidente Jair Messias Bolsonaro. Nossa missão é ampliar a imagem como pré-candidato ao governo da Bahia, reforçando suas conquistas à frente do Ministério da Cidadania e buscar apresentá-lo aos baianos”, diz Mello.

A campanha de Jerônimo Rodrigues também tenta torná-lo mais conhecido por meio das redes sociais, sempre vinculando sua imagem ao governador Rui Costa e ao ex-presidente Lula. O pré-candidato do PT ao governo da Bahia aproveitou o São João para publicar diversos vídeos dançando forró no Instagram, onde tem 58 mil seguidores. Em outro momento, usando chapéu de couro e com um acordeom nas mãos, ele caminha ao lado de sanfoneiros numa cidade do interior. 

A campanha do petista acredita que “o humor é um elemento fundamental para promover entretenimento e gerar conexão com o público” e que a “abordagem humorística deve estar presente, sempre que possível, para entregar conteúdo de valor aliado a formatos mais irreverentes”.

Assim como muitos políticos, Jerônimo também se rendeu ao Tik Tok. Na plataforma, ele investe em vídeos onde dança e toca instrumentos musicais. Numa das publicações, arrisca algumas batidas de percussão. Em outra, que teve mais de 12 mil curtidas, ele percorre um mercado, ao lado de uma consumidora, para retratar o aumento da inflação dos produtos.    

“Todas as métricas das nossas mídias digitais estão numa crescente desde o lançamento da pré-candidatura. Além do crescente número de seguidores, o monitoramento nos aponta diariamente uma performance extremamente positiva nas métricas de engajamento, o que nos indica uma grande conexão e interação com o público”, explica a campanha de Jerônimo.

Por conta da trajetória como deputado federal, prefeito de Salvador, e herdeiro da tradição política do avô, ACM Neto acumula mais seguidores do que os seus adversários nas redes sociais. 

No Instagram, onde reúne quase um milhão de pessoas, ele também publica conteúdo de forte apelo popular. O momento da self com apoiadores, por exemplo, se transforma numa espécie de celebração coletiva. O contato “corpo a corpo” com eleitores é retratado com descontração, em busca de aumentar a popularidade nas redes. 

A dança não escapa do repertório de ACM Neto. O vídeo em que ele se intitula “Rei do Piseiro”, e aparece dançando com uma mulher ao som do ritmo de enorme sucesso popular, teve mais de 10 mil curtidas.

A reportagem de A TARDE buscou ouvir a campanha de ACM Neto sobre as estratégias adotadas na internet, mas não obteve resposta. 

Engajamento

Diante do forte impacto audiovisual provocado pelas plataformas digitais, as estratégias das campanhas são pensadas, segundo a pesquisadora Sabrina Oliveira, para dar visibilidade e garantir a circulação de conteúdo e engajamento. 

“A própria lógica do humor da plataforma possibilita que esses conteúdos sejam circulados mais vezes. Então, quem domina melhor essa linguagem acaba sendo privilegiado pela própria lógica da plataforma de distribuição dos conteúdos”, explica Sabrina.

Ela entende que os vídeos mais descolados do modelo tradicional podem construir com maior facilidade uma ligação entre o político e o público.  

“Essas novas plataformas e linguagens têm um papel muito importante para não só atingir públicos mais amplos, mas muitas vezes estabelecer relações, laços mais fortes com essas audiências. A todo um trabalho de não só estabelecer diálogo, mas de fortalecer esses laços, essa identidade”, explica.

Embora a massa digital que consome informação na internet seja cada vez mais ampla, os jovens ainda são alvo primordial das postagens. Para Sabrina, esse público é essencial por causa da facilidade que tem em se apropriar rapidamente da linguagem das plataformas. 

“Os jovens dominam as linguagens e conhecem as figuras centrais desse ambiente. Esse público jovem, que tem que ser disputado, é uma parcela relevante, cerca de 15% entre 16 e 24 anos. É uma parcela significativa numa eleição que a gente sabe que vai ser acirrada, e é importante que se dispute esse público”, destaca.

Orçamento x Realidade

Para tornar a comunicação na internet eficiente, as campanhas políticas investem em profissionais do mercado digital e na formação de equipes que buscam traçar estratégias para seduzir o público e converter as curtidas em votos. Um trabalho que envolve acompanhamento em tempo real e muitos custos.

Diferentemente dos adversários, cujas coligações detêm forte poder financeiro, a campanha do pré-candidato Giovani Damico (PCB) enfrenta dificuldade para desenvolver a comunicação com eficiência nas redes sociais por causa dos recursos escassos. 

“Infelizmente, nossas estratégias tanto online como offline esbarram em limitações principalmente financeiras, já que nosso partido não recebe dinheiro de empresas e, portanto, não tem recursos para pagar uma equipe de comunicação dedicada à campanha, o que significa que o trabalho é dividido entre trabalhadoras e trabalhadores que conciliam o trabalho de militância com suas jornadas de trabalho e estudos”, explica João Abreu, que integra a equipe da campanha de Damico.

Apresentado do ponto de vista mais tradicional, longe dos holofotes do humor, Damico ainda não tem conta no Tik Tok, mas usa o Instagram, Twitter e Facebook para formular propostas e discutir problemas sociais.

A pré-candidatura de Kleber Rosa (PSOL) também dispõe de recursos limitados para a comunicação. Na sua conta no Instagram, ele aborda a luta contra o racismo e a defesa da democracia. Não há espaço, nem dinheiro, para muitas inovações.  

“Mesmo sendo um ambiente mais barato e aparentemente mais acessível, não há dúvidas que as candidaturas que dispõem de mais recursos econômicos podem trabalhar de forma mais intensa nos impulsionamentos – muitas vezes usando até artifícios que não estão totalmente de acordo com a Lei Eleitoral.  Mas isso não impede que nós desenvolvamos nosso trabalho dentro das possibilidades que temos e dos limites da lei”, explica a assessoria de Comunicação do pré-candidato.

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