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"Falta política pública para pescadores e marisqueiras"

Deputado também defende criação de centros para autistas

Publicado quinta-feira, 13 de janeiro de 2022 às 06:04 h | Atualizado em 12/01/2022, 23:43 | Autor: Jefferson Beltrão
Josafá Marinho, deputado estadual (Patriota)
Josafá Marinho, deputado estadual (Patriota) -
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Os pescadores e marisqueiras da Bahia precisam ser priorizados pelo governo. O recado é do deputado estadual Josafá Marinho (Patriota), que também defende a criação de centros de referência para pessoas com autismo. “É uma luta que vamos travar na Casa”, diz. Em seu primeiro mandato – foi eleito suplente e empossado em novembro de 2020 no lugar do deputado cassado Tom é meu Amigo (PSL) –, Marinho também é advogado e cantor evangélico. Nesta entrevista, também transmitida pela TV Alba (canal aberto 12.2 e 16 na Net), ele garante: “Deus me deu um propósito aqui”.

O senhor, em pouco mais de um ano de mandato, tem tido uma atuação voltada especialmente aos interesses das comunidades pesqueiras da Bahia. Quais são as principais demandas dessas comunidades e as conquistas que já teve em defesa do setor?

Foi uma classe que nos apoiou nas eleições, fomos votados quase que exclusivamente por eles. A Casa não tinha uma defesa específica em prol dessa categoria, que hoje vive à beira da vulnerabilidade. Então, essa foi uma luta travada. Em pouco mais de um ano, conseguimos, por exemplo, consultórios odontológicos pra algumas comunidades pesqueiras. Uma solicitação nossa foi atendida pelo Ministério da Cidadania nesse período de pandemia, que foram as cestas básicas. Também estamos liberando alguns kits de unidades básicas de saúde para comunidades pesqueiras. É pouco tempo, mas temos desenvolvido esse trabalho e estamos com novos projetos para frente.

O que, por exemplo?

Uma casa de apoio para o pescador em Salvador. Muitos que vêm fazer um tratamento não têm onde ficar. É o mínimo que a gente pode oferecer. Claro que vai ser uma discussão, um convênio, tudo dentro de uma regularidade, para que eles possam ser atendidos. E também já solicitamos ao governo do Estado que priorize na sua política pública o pescador, porque o pescador e a marisqueira não têm hoje uma política pública voltada pra eles. Isso não pode mais acontecer. Afinal, eles têm um representante aqui pra isso.

De todas as lutas em busca de conquistas para os trabalhadores desse setor, qual considera mais relevante?

Todas são relevantes. Partindo do princípio de que não tinham uma defesa exclusiva de políticas públicas, se hoje eles têm, por exemplo, o seguro defeso, é relevante. Essa situação das cestas básicas é relevante. Tratamento da saúde bucal do pescador é relevante. Estamos também desenvolvendo um trabalho de articulação com o governo para atender as comunidades pesqueiras em relação à saúde da pele. São comunidades que enfrentam câncer de pele, problemas de coluna, porque ficam sempre em situação de postura inadequada. E nós estamos trabalhando isso. Inclusive, já temos alguns atendimentos. Claro, é como se fosse projeto piloto, porque isso quero desenvolver ao longo do nosso mandato.

O senhor também é autor de um projeto de lei que autoriza a criação de centros de referência para pessoas com autismo no interior do estado. Por que apresentou esse projeto e quais as chances de ser aprovado?

O que me chamou a atenção foi uma reunião em Vitória da Conquista onde uma mãe com um filho autista me falou das dificuldades e eu vi a situação que ela estava passando. Dias depois, um sobrinho meu também passou por esse processo de ser diagnosticado com autismo. Isso me comoveu pelo sofrimento da família. E depois alguns pescadores também vieram dizendo quando eu apresentei [o projeto de lei] – por isso que é importante você jogar isso pra o conhecimento do público – que também tinham filhos nessa situação. Isso me chamou a atenção. Então, vamos defender a criação dos centros de referência. É uma luta que a gente vai ter que travar aqui dentro da Casa, porque é uma questão de consciência. E que eles passem a nos apoiar também nesse projeto para as pessoas que precisam desse tratamento.

Na Assembleia existe uma barreira constitucional para a tramitação de projetos de lei de iniciativa do Legislativo que representem despesa para o governo. Não é o caso desse?

Essa é uma situação que nós estudamos pela questão da constitucionalidade. Nós não estamos pedindo a criação como iniciativa. A iniciativa é nossa, porém a gente cria a autorização. O projeto apenas vai autorizar. Autorizando, o governo, por si só, cria a sua situação com as suas secretarias, para, aí sim, através da nossa autorização, criar os centros. O nosso projeto é autorizativo.

O senhor é natural de Presidente Jânio Quadros, no Sudoeste, e, imagino, representa também os interesses do município. Quais são as principais demandas da região que ainda precisam de uma atenção maior do governo e da sua atuação na Assembleia?

Temos uma situação naquela região, especialmente na minha cidade, Presidente Jânio Quadros, que é a falta de água. Pra se ter ideia, até hoje a água ligada lá é de poços artesianos. A gente chega lá e toma banho de água salgada. Eu reivindiquei ao governador, é uma indicação nossa pra que seja construída uma adutora entre a Barragem de Anagé e Maitinga, porque de Maitinga pra Jânio Quadros já existe. A despesa não é tão alta. Em recente reunião que fiz com o governador, ele nos garantiu que iria dar ordem de serviço, porque o projeto já estava praticamente pronto. Essa é uma luta que estamos travando. Aliás, não é uma obra do deputado não. É uma reivindicação da comunidade. Ninguém merece viver de água salgada. Tudo isso estou cobrando do governo pra que chegue com rapidez e dê dignidade a essas pessoas, principalmente de Presidente Jânio Quadros.

O senhor, inclusive, tem experiência própria nessa área, uma vez que já foi coordenador estadual do DNOCS, Departamento Nacional de Obras Contra Secas. Como avalia a efetividade das políticas públicas para combater os efeitos da seca na Bahia?

Quando assumi o DNOCS, em 2012, nós passávamos pela pior seca dos últimos 80 anos. Foi um grande desafio. Quando cheguei no DNOCS, não tinha uma máquina perfuratriz. Mas Deus nos abençoou e conseguimos ali, através de trabalhos sérios, fazer convênios e perfurar vários poços. Exemplo disso na minha região, porque nasci na roça, sou de uma região seca. Eu tinha oito, nove anos de idade e ia pra uma fila de carro pipa. Era o caçula, meu pai não tinha outra pessoa pra mandar, mandava a mim. Eu acordava cedo com aquele frio, mas dou valor a isso que eu passei, porque foi ali que, quando cheguei no DNOCS, pude ajudar muita gente naquela região. Perfuramos muitos poços na zona rural e muitos têm água nas casas hoje porque nós conseguimos colocar. Porque Deus prepara, Deus tem propósito. Assim como Deus fez com José quando o tirou de Canaã para o Egito, ele sabia que José iria ser governador pra salvar uma nação. Eu tenho isso na minha vida. Quando ele me tirou de Jânio Quadros em 94, eu jamais imaginava que ia ser coordenador do DNOCS e poderia ajudar milhares e milhares de pessoas com água nas suas casas. Depois, futuramente, ser coordenador da pesca e hoje deputado. Eu não imaginava estar aqui. Mas Deus tem um propósito nas nossas vidas. Estou aqui com um propósito.

O senhor, além de advogado e deputado estadual, é cantor evangélico. Como conciliar o parlamento com o Evangelho?

Sempre sigo o ensinamento bíblico que diz “primeiro buscai as coisas dos céus e a sua justiça e as demais serão acrescentadas”. Está dando certo. Consigo conciliar. Às vezes, tem final de semana que tenho quatro agendas de cantor. E consigo conciliar. Não é fácil. Teve um final de semana, por exemplo, que eu cantei sexta, sábado e domingo. Tive que sair de Vitória da Conquista, vim pra Salvador num voo do domingo pra ainda pegar o nosso culto da noite. A gente vai conciliando. E vai entrar num período muito complicado que é de campanha, mas eu vou tentar conciliar ao máximo. Inclusive, tenho agendas pra agora em janeiro e fevereiro. Eu canto nas igrejas, em alguns eventos de público. Como estava em pandemia, não estava liberado, mas cantava nas igrejas com aquela situação de segurança. Eu busco as coisas do reino de Deus pra que as demais sejam acrescentadas. Acho que isso está dando certo na minha vida.

Atuar como cantor evangélico é uma forma de pregar o Evangelho?

É, porque é uma forma de adoração, de levar uma palavra. Às vezes, um cântico que a gente entoa em uma igreja pode salvar alguém da depressão, de uma situação que você passa. Já aconteceu muitos testemunhos dessa forma. Pessoas que chegavam com uma situação muito difícil e depois diziam “olha, aquela mensagem sua, aquele louvor me tocou”. Isso é gratificante espiritualmente na nossa vida.

Como avalia a influência religiosa na esfera do poder, como se observa, por exemplo, no governo Bolsonaro, que permite pautas de comportamento ditadas pelo Palácio do Planalto até a indicação de cargos com base em critérios religiosos?

A questão do Evangelho é uma vertente que temos que discutir muito. A questão do presidente Bolsonaro, ele não é evangélico. A esposa dele é. Ele tem sim uma grande simpatia pela questão evangélica, mas também a questão cristã. Não é só o evangélico. Eu, particularmente, sou contra pedir voto em um púlpito. Sou contra. Púlpito é lugar de santidade. Eu aprendi isso com meu pai. Meu pai era pastor e eu tenho esse princípio comigo. Isso é meu. Até porque existe em determinados momentos até um abuso. Eu, como advogado e com base no conceito de justiça, vejo essa situação. Só que nós temos que ter representantes evangélicos. Por quê? Nós defendemos ideias do Evangelho, não o evangélico, mas o cristão. E a gente tem essa discussão. As igrejas hoje têm um grande papel social. Elas tiram muitos das drogas, do alcoolismo, muitas pessoas são libertadas e são tratadas dentro de uma igreja. Tudo é uma questão espiritual.

Mas a ponto de defender regras de comportamento ou definir cargos públicos com base em ensinamentos religiosos? Não deveria haver uma independência da administração pública em relação a qualquer instituição religiosa ou credo?

Mas se perceber, o presidente Bolsonaro indicou dois ministros e um não é evangélico. Repare o ministro André Mendonça que foi pro STF. Apesar de terem falado que foi o primeiro ministro evangélico, na verdade, o primeiro ministro evangélico – há um estudo que eu fiz, sou muito curioso em relação a isso – foi indicado no governo JK. O evangélico tem que ter o seu espaço também. André Mendonça é um excelente advogado, jurista, estudioso. Não é porque ele é pastor evangélico que não poderia ser indicado. Ele é superpreparado pra isso.


DIRETO DO LEGISLATIVO

Transmissão nesta quinta-feira, 13, às 13h pela TV Alba (canal aberto 12.2 e 16 na Net). Reprises: sexta às 16h30, sábado às 20h, segunda às 13h45 e terça às 18h.

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