POLÍTICA
"O legado de Marielle é um projeto coletivo", diz viúva da vereadora
Por Ashley Malia
Já se somam 688 dias desde que a vida da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) foi interrompida com o disparo de quatro tiros, na noite do dia 14 de março de 2018. Com o desdobramento do caso, a pergunta deixa de ser "quem matou Marielle Franco?" e torna-se "quem mandou matar Marielle?", pois uma das questões que predominam na história da morte da vereadora é a de que foi um crime político. Isso por ela ser, estatisticamente, um alvo da violência no Brasil e trazer em seu corpo diversos marcadores de exclusão social: mulher, negra, lésbica e favelada, unindo tudo isso ao fato de ser defensora dos direitos humanos e denunciar abertamente a violência policial dentro das periferias do Rio de Janeiro.
De acordo com informações do Atlas da Violência 2019, cerca de 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. Visualizando o índice a partir da ótica de gênero, as estatísticas mostram números próximos: 66% de todas as mulheres assassinadas no país são negras. Assim, o assassinato de Marielle Franco torna-se um reflexo do quão vulneráveis estão as vidas de mulheres negras na sociedade brasileira.
"Esse processo da manutenção da memória de Marielle é um processo construído coletivamente, sobretudo pelas pessoas que se sensibilizaram e se viram reconhecidas na história, naquele corpo que tombou", afirmou a ativista Mônica Benício, viúva de Marielle, em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE. Segundo ela, o fortalecimento vem a partir do pedido de justiça, não só pelo corpo que foi "tombado", mas dando continuidade às ideias e sonhos que não eram só da companheira. "É ver que as pessoas se recusam a aceitar que diante desse corpo que tomba existe uma coisa muito maior, que é esse espírito de coletividade e de luta, seja por uma sociedade antirracista, que seja contra a LGBTfobia, que não seja transfóbica", completou.
Mônica Benício esteve em Salvador para discutir sobre a representatividade LGBT na política, para ela, essa representatividade ainda é muito ruim, pois é pouca diante do necessário. Durante o bate-papo com o Portal A TARDE, a ativista citou nomes como o deputado federal David Miranda (PSOL) e o ex-deputado federal Jean Wyllys, e comentou sobre o quanto é frágil a vida da população LGBT no Brasil, mencionando a renúncia do ex-parlamentar após Jair Bolsonaro ser eleito Presidente da República.
"E a gente está falando do Jean Wyllys não ter tomado posse depois de ser reeleito, porque precisou se exilar diante de um cenário de muita violência que colocava a vida dele em risco. Quando a gente fala do assassinato da Marielle, que era uma representante LGBT dentro da Câmara dos Vereadores, ser executada da maneira como foi e não se responde a isso a gente está falando do quanto é frágil a vida LGBT no Brasil", declarou, pontuando que é preciso ter representação LGBT dentro da política para visibilizar pautas como essa, sobre o direito a vida, liberdade e segurança. Quando questionada se pretende se candidatar a um cargo político, Mônica diz que não está disputando neste momento, mas que não é uma possibilidade descartada e também não é uma possibilidade colocada.
Balas perdidas e violência nas favelas
O Rio de Janeiro chamou a atenção do país pelo menos seis vezes no ano de 2019, com as histórias de Jenifer, Kauan, Kauê, Ágatha e Kethellen, crianças com idades entre 5 e 12 anos que foram mortas vítimas de bala perdida. Em comum, todos os casos têm o fato de serem vítimas negras, que moravam em comunidade, eram filhos de mães solteiras e foram atingidas na presença da Polícia Militar.
Nascida e criada na Favela da Maré, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, Marielle Franco tinha como uma das pautas principais de sua carreira política a denúncia da violência na periferia. Mônica, que também nasceu e viveu na Favela da Maré, contou que na adolescência perdeu vários amigos vítimas das balas perdidas.
"Na verdade a bala não está perdida, ela tem um direcionamento. E esse direcionamento está no corpo periférico, favelado, negro. Ver a violência do Estado hoje dentro das favelas do Rio de Janeiro, quando o governador diz que vai dar tiro na 'cabecinha', não é qualquer cabecinha. Não é a cabeça que está no Leblon, nos bairros mais ricos do Rio de Janeiro", ressaltou.
A gente está falando de violência na favela, porque a gente está falando de uma ordem vigente, do Estado fazendo manutenção de quem é que pode viver e quem é que deve morrer
Segundo Mônica Benicio, falar sobre as vidas, enquanto defensora dos direitos humanos, é dizer que todas as vidas importam. Entretanto, ao analisar qual é a vida mais frágil dentro da sociedade, se começa a falar que esses corpos frágeis são negros. Ela afirmou que, em um somatório de coisas, Marielle Franco tem uma representatividade emblemática no Brasil, justamente porque era um corpo feminino, negro, LGBT, que era pobre e periférica e estava protegendo a favela.
"Por isso, inclusive, quem planeja a execução de uma vereadora, planeja a execução de uma vereadora que é esse corpo, que é o corpo visto como descartável no Brasil, que morre todo dia e não tem esse apelo de justiça como teve no caso de Marielle", expôs. Para ela, é por isso que é tão significativo o pedido de justiça pela companheira, por ser uma defesa da democracia no Brasil.
Relação da milícia com o assassinato de Marielle
Com os desdobramentos das investigações sobre o caso Marielle, diversos nomes que têm relação com a milícia no Rio de Janeiro foram mencionados. O tema, na visão de Mônica, deve ser olhado com muita seriedade, entretanto não é uma pauta discutida pela população, como deveria ser. Para ela, não é razoável a legitimação desse tipo de grupo. Além disso, o nome do presidente Jair Bolsonaro também chegou a ser citado no caso, o que gerou algumas discussões entre a população.
"Quando o caso da Marielle tem menção à relação com a família do presidente isso coloca a situação da investigação em um outro lugar, que tem que ser visto com muito mais cuidado. É inquestionável que existe a participação da milícia no assassinato da Marielle e do Anderson. O cuidado que a gente tem que ter para ser responsável é na busca pelo nome correto. Porque a gente precisa saber quem foi o mandante, qual foi a motivação desse crime", constatou a viúva de Marielle. Para ela, não importa "se foi o Papa ou o chefe da milícia do RJ", o importante é o nome surgir, para garantir que casos como esse não voltem a acontecer.
Legado de Marielle
Falando ainda com muito sentimento sobre quem foi Marielle Franco e o que representava, a companheira Mônica Benicio afirmou que o legado de Marielle é construído agora pelas pessoas que se sensibilizaram. "É um projeto coletivo", disse.
De acordo com a ativista, Marielle sempre entendeu a política como uma construção horizontal, que é construída com afeto e que tem escuta. "É construída com resistência, mas com empatia e solidariedade".
"O mais bonito é ver a reação das pessoas diante dessa tragédia, porque podia ser um episódio que colocasse os LGBTs de volta no armário, o negro de volta na senzala, que fizesse o pobre entender que não pode disputar nenhum espaço de sociedade que não seja o espaço da periferia, o espaço da violência. A resposta disso é dizer 'nenhum LGBT volta para o armário, nenhum negro volta para a senzala, a mulher só volta para a cozinha se quiser', a resposta é coletiva".
Emocionada, Mônica assegurou que 14 de março de 2018 não foi só uma noite de barbárie, mas também uma noite de "ressignificação da esperança", em que Marielle passa a ser a inspiração para as pessoas dizerem com força: "Nós não vamos mais aceitar barbáries como essa".
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