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POLÍTICA

Pai e filho são incinerados vivos

Estadão Conteúdo

Por Estadão Conteúdo

10/07/2016 - 9:13 h | Atualizada em 19/11/2021 - 7:38

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Dagner Lemes Pereira, de 17 anos, se aprontou para ir com o pai até a Fazenda Vilhena. Há meses o adolescente procurava emprego. Ajudar o pai, João Pereira Sobrinho, que era vaqueiro, seria uma oportunidade de ganhar algum dinheiro e fazer o que mais gostava: cuidar do gado e andar a cavalo. Em 14 de outubro de 2015, pai e filho partiram pela Linha Farinheira, um estirão de chão batido e areia fofa que serpenteia plantações de soja e milho e avança pela área plana de Vilhena, Rondônia, nas beiras com Mato Grosso.

O adolescente era o caçula de quatro filhos. Nascido em Cerejeiras, município vizinho de Vilhena, tinha um jeito pacato, mas era popular nas redes sociais. O gosto por viver enfiado no meio do mato, trabalhando em currais e pastos, não atrapalhava o cultivo de 1,6 mil amigos na internet. Três dias após chegar à fazenda, Dagner entraria para a lista de crimes hediondos no campo.

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A chacina da Fazenda Vilhena foi a mais trágica da zona rural de Rondônia nos últimos 20 anos. Em 14 de outubro, três dias antes do massacre, a propriedade havia passado por reintegração de posse. As cerca de 70 famílias que ocupavam a área desde junho, todas ligadas à Associação dos Produtores Rurais de Nova Canaã, tinham sido informadas semanas antes sobre a ordem judicial para deixarem o local. A Justiça havia decidido que a fazenda era produtiva, possuía plano de manejo florestal e tinha os papéis em ordem.

Quando a polícia foi fazer a reintegração, viu que as famílias já tinham deixado a fazenda sem resistência. Barracos erguidos na beira da estrada haviam sido derrubados. No mesmo dia, a família Fontes Beltran, que alega ser dona da fazenda desde 1995, enviou quatro trabalhadores para cuidar do lugar e reconstruir cercas. Entre eles, Dagner e seu pai, João.

Tiros e fogo

Na tarde daquele sábado, por volta das 17h30, pai e filho estavam sentados sob um limoeiro, na sede do Lote 95 da Vilhena. Conversavam com outros dois empregados da fazenda, Ariovaldo Nunes da Silva, de 57 anos, e Arivaldo Bezerra dos Santos, de 55 anos, e dois vizinhos, Daniel Aciari, de 67 anos, e João Fernandes da Silva, de 52 anos. Foi quando veio o primeiro disparo. Daniel foi atingido por um tiro fatal na nuca. O caseiro Ariovaldo, que estava ao lado de Daniel, correu para o mato e conseguiu escapar. No desespero, Dagner, o pai e os outros dois, Arivaldo e João Fernandes, se refugiaram dentro da casa. Veio a saraivada de balas que durou cerca de meia hora.

Assassinos entraram e balearam as quatro pessoas. Arivaldo levou um tiro nas costas e se fingiu de morto. Antes de deixarem o local, os executores encharcaram um colchão com gasolina e jogaram sobre seu corpo. Quando o fogo começou a engolir a madeira seca da casa, eles montaram em suas motos e foram embora.

Baleado, Arivaldo conseguiu se livrar do colchão incendiado e se arrastou para fora da casa. Foi socorrido horas depois e sobreviveu. À Polícia Civil, contou que viu a casa ruir em chamas e ouviu os últimos gritos de Dagner, que morreu carbonizado ao lado do pai.

Por segurança, Arivaldo deixou Rondônia após receber alta. Não teve a mesma sorte, porém, seu irmão José Bezerra dos Santos, de 64 anos, que naquele dia trabalhava a 2 km da Vilhena e também foi morto.

O Estado visitou a região três semanas após a chacina. A sede da fazenda resumia-se a um amontoado de cinzas. A cena perturbadora estava praticamente intacta. Do local, foram retirados apenas os corpos carbonizados. Um cachorro magricela passeava por cima do que restou de um serrote, uma cavadeira e duas foices. "Nunca lidei com um caso tão brutal", resumiu o delegado da cidade, Fábio Campos.

Ameaça

Poucos dias depois da chacina, um tio de Dagner, Altamiro Lemes Castanho, recebeu uma ligação de um orelhão. "Altamiro, você tá fudido. Eu vou acabar com você", diz ter ouvido. A conversa teria durado pouco, mas o bastante para Altamiro identificar a voz de Ilário Danelli, o Índio Branco, um antigo colega de futebol. Índio Branco, homem de confiança na Associação Nova Canaã, havia sabido há pouco que o garoto que ele havia assassinado, Dagner, era sobrinho de seu amigo Altamiro.

A mãe e os irmãos de Dagner Lemes Pereira ainda moram em Vilhena. Abalados e com medo de represálias, não quiseram gravar entrevista. Um irmão de Dagner também recebeu telefonas com ameaças e deixou a cidade.

Além de Índio Branco, a polícia investiga a participação de outras cinco pessoas, todas foragidas. A chacina ocorreu em meio à pressão dos assentados sobre a entidade. A Nova Canaã cobrava R$ 180 de cada pessoa para inscrição no grupo e mensalidade de R$ 15. Quem foi para o acampamento desembolsou outros R$ 300 para mantimentos. Havia promessa de entrega de um pedaço de terra. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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