"Salvador está preparada para eleger sua primeira drag queen", diz pré-co-candidata a vereadora Petra Perón

Publicado terça-feira, 16 de junho de 2020 às 06:00 h | Atualizado em 15/06/2020, 23:36 | Autor: Ashley Malia

Articuladora das artes, drag queen e colaboradora do Mídia Ninja, Petra Perón é pré-co-candidata a vereadora de Salvador pela Bancada de Todas as Lutas, do Partido dos Trabalhadores (PT). Em entrevista ao Portal A TARDE, a artista discutiu o formato inovador da candidatura coletiva e pontuou a importância da presença ativa de pessoas LGBTQIA+ no espaço da política.

“A gente não está falando de representatividade somente e sim de pessoas que, por serem quem são e por sofrerem as violências que sofrem, querem estar dentro deste espaço para resolver esses problemas”, declarou.

De acordo com a co-candidata, o mandato coletivo é uma novidade e trazendo uma drag queen é ainda mais inovador. Petra explicou que a bancada está pensando em articular diversas lutas, fazendo uma co-condução. O sistema eleitoral brasileiro ainda não reconhece essas novas dinâmicas, então Petra Perón será registrada na bancada e o mandato será co-conduzido, com a divisão de salário, a tomada de decisões... Todos os co-candidatos terão o mesmo peso político. “Na prática as pessoas vão votar na metade do gabinete”, explicou ela, pontuando que é uma forma dessas pessoas se enxergarem neste espaço.

O movimento da bancada coletiva é um novo formato que, segundo Petra, é relativamente recente no Brasil e se iniciou em 2016, em Belo Horizonte. A artista ressaltou que em Salvador a pretensão é trazer esse novo formado, que conforme ela, é uma outra cidade e outro contexto, além do momento atual de crise.

“Estamos em construção. Até julho estaremos colocando na rua ou nas redes. É articular essas diversas lutas e pautas que não se enxergam ou estão subrepresentadas na câmara de vereadores de Salvador. E a gente quer juntar o movimento LGBTQIA+, a cultura, o movimento negro e outras linguagens, pensando nessa diversidade”, disse a drag, lembrando que historicamente a cidade só elegeu uma mulher trans, que foi LeoKret. “A grande contribuição que estamos trazendo é a possibilidade de articulação de lutas e colocar isso no centro do debate soteropolitano, com finalmente o debate de raça e gênero sendo colocados no cenário de Salvador”.

Quando questionada sobre Salvador ser ou não preparada para a eleição de uma drag queen, Petra Péron afirmou que sim, já que a capital baiana é tão diversa. Segundo ela, historicamente, os espaços políticos não são pensados para esses corpos e lutas, já que a política sempre foi representada pela “elite branca, heteronormativa, latifundiária... Essa é a dinâmica soteropolitana, baiana e brasileira”.

É preciso pensar nesse novo ciclo de redemocratização do país. A cidade de Salvador está esperando isso, e está preparada para eleger sua primeira drag queen co-vereadora.

A drag, que já foi Miss Brasil Gay em 2017, enfatizou que o melhor desempenho da história de LGBTQIA+ a nível de vereança foi no ano de 2016, quando em um universo de 57 mil vereadores e vereadores, entre todos, apenas 16 pessoas LGBTQIA+ foram eleitas. Sem falar que as pessoas transexuais não puderam ser eleitas com seus nomes sociais.

Atrelar o debate da sexualidade, na visão de Petra, é entender que se o racismo, machismo e classismo são dimensões estruturantes dos processos de desigualdade do Brasil, é preciso discutir também a questão da sexualidade. Trazendo a questão racial também para o centro da discussão, Petra também afirmou que as pautas raciais são importantes pelo contexto e pelo território, afinal, “não tem como pensar em nenhum processo estruturante da nossa sociedade sem racializar o debate”, disse, entendendo o próprio lugar de privilégio enquanto pessoa branca e declarando que é um problema que precisa ser falada.

Racializando o debate, a drag acrescenta que LGBTQIA+, principalmente transexuais, pretas não se sentem representadas pelo movimento negro e nem pelo LGBTQIA+, pois são movimentos que reproduzem o racismo e a LGBTQIA+fobia.

“Essa dimensão da luta antirracista é fundamental. É uma articulação de lutas”, concluiu.

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