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Milícia armada invade fazenda e expulsa trabalhadores

Donos da terra aguardam há mais de três meses decisão da justiça para reintegração de posse

Publicado domingo, 24 de março de 2024 às 06:00 h | Autor: Da Redação
Invasores ocuparam fazenda e expulsaram trabalhadores em Cocos, no oeste baiano.
Invasores ocuparam fazenda e expulsaram trabalhadores em Cocos, no oeste baiano. -

Numa ação ousada e bem planejada, homens armados invadiram e tomaram posse de uma fazenda de 8 mil hectares no município de Cocos, no Oeste baiano, próximo à divisa com Minas Gerais. A ocorrência foi registrada em dezembro do ano passado e mesmo após três pedidos de reintegração de posse a justiça baiana ainda não se pronunciou sobre o caso.

Um inquérito policial foi aberto para apurar a invasão. A delegada Luzmaia Cecilia de Souza e Silva determinou busca e apreensão na fazenda e realizou a oitiva dos trabalhadores expulsos e dos responsáveis pela invasão. Ninguém foi preso e a fazenda continua sob domínio dos invasores.

A propriedade, onde se encontram 700 cabeças de gado, foi invadida quando o gerente e parceiro do proprietário, José Eurico da Silva, não se encontrava na sede. A esposa dele, Deise Rose Silva, conta como se seu a ação dos invasores.

“Na hora que chegaram proibiram filmar, desligaram as câmeras de segurança e o roteador”, conta Deise, que mesmo assim conseguiu filmar a presença dos homens na propriedade. Ela conta que os homens arrebentaram duas cancelas para chegar até a sede da fazenda.

“Quando vi 5 carros chegando com gente armada já fiquei nervosa. Arrebentaram portas, levaram o trator, atravessaram na pista. Disseram não se preocupe que é reintegração de posse, mas não apresentaram nenhum documento. Era arma longa, pistola, faca”, recorda a ex-vereadora do município, que deixou o lugar atendendo as ordens dos invasores. “Levei o remédio e o cachorro que eu não largo por nada”, relata.

Gente treinada

José Eurico da Silva, marido de Deise e também ex-vereador por três mandatos em Cocos, tem uma parceria com o proprietário da fazenda São Silvestre, Maely Botelho Coelho e há mais de 20 anos administra a propriedade. Ele teve que se mudar para uma localidade mais afastada com receio de represálias.

“Tenho muita amizade, tudo o povo quer saber”, diz José Eurico, para justificar o afastamento. Ele conta que, além das 700 cabeças de gado, cria 18 cavalos, 60 porcos, galinhas, e que a fazenda possui um reservatório de um milhão de litros de água e 50 km de cerca de eucalipto, além de um curral de 2 mil m2.

Quando lembra do ocorrido e dos momentos vividos por sua companheira, ele não esconde a indignação. “isso não existe, não. Expulsar você da sua casa”, desabafa José Eurico, que no momento da invasão estava no campo. “Quanco cheguei eles já tinham uma hora e meia (na propriedade). Posicionaram carros pra fechar o acesso, é gente treinada” acredita o fazendeiro.

O advogado Joel Mendes, que representa o proprietário da fazenda, compartilha dessa suspeita. Segundo ele, o inquérito policial apurou que entre os invasores há pelo menos dois ex-integrantes de corporações militares, ambos do Rio de Janeiro. Um com passagem pela Marinha e outro pela Polícia Militar, o que reforça a suspeita de que se trata de uma milícia, talvez contratada para extorquir os donos da terra.

Lentidão

Joel já deu entrada em três pedidos de reintegração de posse, com base no inquérito policial. O primeiro deles foi três dias após a invasão, em 22 de dezembro do ano passado, o segundo em 24 de janeiro e o último em 17 de março, mas até o momento o juiz Victor Bruno Ribeiro Fainz Trapaga não apreciou nenhum dos pedidos.

O empresário Maely Botelho Coelho, que vive no Espírito Santo, onde é empresário do ramo de saúde, manifesta sua indignação. “A justiça é muito lenta, não sei por que. A gente com todas as provas, fazenda produtiva, com gente lá, sei lá se tem alguma coisa estranha”, diz Maely, que tem tido problemas de saúde desde a ocupação da fazenda.

“Dói demais, já me levou para o hospital algumas vezes”, relata o empresário, que comprou as terras há 22 anos e montou uma grande estrutura produtiva. “Era cerrado puro, hoje tem casa, curral, cercas, campo de pouso homologado”, elenca o proprietário, que aguarda o despacho judicial para reaver seu patrimônio.

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