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PÓS-GRADUAÇÃO

"Eu era o monstro da mediocridade"

Carine Aprile Iervese, do A TARDE
Por Carine Aprile Iervese, do A TARDE
| Atualizada em

O cara da foto parece um homem durão, sério, sem humor? Esqueça. As aparências realmente enganam. Este é James C. Hunter, autor do best-seller "O Monge e o Executivo", que já vendeu mais de dois milhões de cópias em todo o mundo, e que insiste em sair com cara de mau nas fotos, mas na verdade é um homem que fala de amor, paciência, humildade e que tem muito senso de humor. Inclusive, ele aponta todas essas virtudes como a receita básica para quem quer ser um grande líder.



Quando jovem, Hunter se achava um cara bacana, mas que na realidade era inteligente o suficiente para fazer o mínimo, segundo ele próprio afirma. "Eu era o monstro da mediocridade, meio tirado a hippie", declarou ele, no início da sua palestra, na última quarta-feira, no Hotel Fiesta, em Salvador. Esta é a terceira vez que o consultor organizacional vem à cidade e a 50ª vez que ele se apresenta no Brasil.



"Meu primeiro chefe, Phill Hoffman, foi quem me mostrou que eu não era suficiente para ele. E ele me 'batia forte'", continua Hunter, lembrando do tempo em que não entendia ainda qual era a sua missão neste mundo. Quem se incumbiu disso foi o seu ex-chefe. "Ele me mostrava que existia uma lacuna entre o que ele esperava de mim e o que eu era. Ele disse que se eu não reduzisse essa lacuna, teria que me matar, porque senão ele teria falhado como líder", brinca Hunter, afirmando que naquela época ele detestava seu chefe, mas hoje ele o ama.



Depois de tantas "surras", o jovem James Hunter decidiu entrar no jogo para ganhar. Hoje ele faz, mais ou menos, o que seu antigo chefe fazia, só que em proporções muito maiores, através dos seu livros e das suas palestras. A boa notícia, segundo Hunter, é que a habilidade de liderar pessoas pode ser desenvolvida, basta estar disposto a mudar seu comportamento, dia a dia, com muita persistência.



"A meta não é a perfeição, a meta é a melhoria contínua. As idéias que estão no livro não são minhas, são conceitos que existem há mais de dois mil anos. Eu admito, eu sou um ladrão. Eu só vim aqui relembrar essas idéias para vocês, não vim ensinar ninguém a ser um líder. Todos vocês já sabem, basta praticar. Você acha que precisa ler mais livros sobre liderança para se tornar um bom líder? Não. Você precisa colocar em prática o que já sabe", faz questão de frisar.



MARCA – O consultor explica que liderança é a marca que você deixa nas pessoas. Esta habilidade não está diretamente relacionada com o poder, mas sim com a autoridade. Ele exemplifica: "Minha mãe não tem poder nenhum em suas mãos, mas ela exerce uma autoridade incrível sobre mim. Por que? Porque ela me serviu durante toda a sua vida. Se você quer ser um líder, comece a servir, a se sacrificar pelos outros. Tenha paciência, escute o outro, respeite, reconheça suas qualidades", aconselha.



Uma estratégia que Hunter resolveu fazer em casa foi pedir para sua filha apontar duas coisas que ele poderia melhorar como pessoa. Depois de uma semana, Rachel lhe deu o feedback. Ele pensou e reconheceu que realmente poderia ser melhor naquilo. "A nossa relação melhorou muito depois disso e a minha autoridade sobre ela foi construída, porque respeitei sua opinião, ouvi o que tinha para dizer. Tive humildade em aceitar os meu defeitos e melhorá-los".

Confira entrevista:

A TARDE | Quais são os princípios que permeiam um grande líder?




James Hunter | O mais importante é o caráter. Sem isto o líder não terá a lealdade da sua equipe. Outra característica fundamental, reforçada pela minha experiência de 30 anos, é a humildade. Líderes que realmente conseguem administrar o ego e são humildes conseguem resultados expressivos a longo prazo. O novo e verdadeiro líder é aquele que conquista os corações e mentes dos seus seguidores. Jamais se utiliza do poder ou do cargo. É aquele que consegue extrair o máximo das pessoas, fazendo com que eles trabalhem com vontade.



AT | A liderança é um instinto? As pessoas já nascem com "espírito de líder"? Ou é uma habilidade que pode ser desenvolvida?

JH |
Sem dúvida pode e deve ser desenvolvida. Se o indivíduo gostar de pessoas, tiver força de vontade e disciplina. Algumas pessoas tem talento, o que facilita, mas todos tem a oportunidade de se desenvolverem neste campo. O importante é gostar de lidar com pessoas. Sem isto, é impossível. Você quer ser um líder? Comece a servir. Essa é a linguagem. Jesus Cristo era um homem que não tinha poder algum. Mas ele serviu e se sacrificou, construindo uma grande influência. Ele virou o mundo de cabeça para baixo. Liderança servidora não é fazer o que as pessoas desejam, mas o que elas precisam. As pessoas precisam ser ouvidas, precisam de respeito.



AT | Como os recrutadores fazem para identificar os líderes?

JH |
Considerando que os líderes não nascem prontos e são desenvolvidos, a questão não é como recrutar e sim como formar. Se acultura da organização for propícia, os líderes surgirão de uma forma natural. Os princípios são importantes. E quem não deseja ser líder não está fadado ao fracasso. Existem carreiras técnicas que não exigem liderança. Alguns dos grandes líderes servidores que conheço, estão limpando leitos de hospitais ou educando crianças. Estão fazendo um mundo melhor.



AT | Você pode citar alguns líderes brasileiros que conseguiram grandes feitos conquistando pessoas? E por que eles são grandes líderes para você?

JH |
Conheço poucos, mas tenho dois grandes líderes que muito admiro. O primeiro é o ex-ministro e ex- presidente da Petrobras Ozires Silva. Sem dúvida é um homem de grandes valores, humilde e carismático. Outro que eu admiro é que é um líder servidor é o Ulisses Tapajós, que conseguiu transformar uma empresa quase quebrada (a Masa da Amazônia) em uma das melhores empresas para se trabalhar.



AT | Qual a melhor forma de se descobrir a própria vocação? Como você descobriu a sua?

JH |
As coisas acontecem naturalmente. O meu conselho é que você não se preocupe muito com isto.



AT | Qual o seu "segredo do sucesso"? Por quê o sucesso de James Hunter e por quê, na sua opinião, "O Monge e o Executivo" se tornou um best-seller?

JH |
Primeiro porque o mundo mudou e os jovens não aceitam o uso do poder. Eles questionam tudo, até porque são bem informados. Isto trouxe um impacto muito grande na questão da liderança e quem quer ter efetividade está procurando aperfeiçoar-se. Além disso o livro é uma parábola, tornando-o de fácil leitura.



AT | O livro "O Monge e o Executivo", inicialmente, foi um manuscrito que você fez para deixar uma mensagem para sua filha, porque você gostaria que ela tivesse acesso aos seus conhecimentos. Que mensagem foi essa?

JH |
Uma mensagem sobre a minha visão do mundo com relação as pessoas. No fundo tudo se resume a relações pessoais e muitos ainda não perceberam isto. Quis deixar um legado sobre os princípios e valores que permeiam a minha consciência. Quando escrevi o livro, em 1998, ela tinha apenas 2 anos. Hoje tem 12 anos e acho que agora é que está começando a compreender os valores descritos no livro.



AT | Você tem projetos para publicação de novos livros?

JH |
Estou finalizando dois novos livros. O primeiro é a continuação do O Monge e o Executivo, onde os personagens retornam ao mosteiro para discutir o progresso após o primeiro retiro. O segundo livro trabalhará mais a consciência do indivíduo, através da espiritualidade. A meta é lançar pelo menos um dos livros até o final deste ano.



AT | Você já afirmou que não é o melhor exemplo no que diz respeito a equilibrar o lado profissional com o pessoal, mas que tem consciência de que um grande líder precisa saber encontrar esse equilíbrio. Você tem exemplos de pessoas que são boas nisso? O que elas fazem? E por que este equilíbrio é tão importante?

JH |
Esta questão do equilíbrio é muito pessoal. O que eu acho importante é não deixar de fazer as coisas que você gostaria de fazer. Por exemplo, estar com a sua família e ver os seus filhos crescerem. Não adianta ter sucesso profissional e ser infeliz.



AT | Em "O Monge e o Executivo", um dos conceitos que fica claro é que a liderança não é o poder e sim a autoridade. Qual seria, nesse caso, a diferenciação entre esses dois conceitos, que muita gente considera tão semelhantes?

JH |
Há uma confusão, mas quando mostramos que autoridade é igual a influência, aí fica fácil compreender. O poder é coercitivo, eu mando e você faz. Já a autoridade é um processo de convencimento, através da influencia. Eu te conquisto, te convenço e você faz de bom grado, porque quer fazer. É muito diferente.



AT | Qual a importância, dentro de uma organização, de estabelecer relacionamento com os funcionários? A produtividade aumenta quando os funcionários mantêm uma relação mais próxima dos chefes? Como dosar e como saber até aonde ir na busca pelo relacionamento?

JH |
O importante é ter uma comunicação aberta, franca e verdadeira. Elogiar quando a pessoa merece e saber criticar construtivamente quando houver necessidade. Isto gera confiança. Madre Tereza, por exemplo, dizia que as pessoas pediammais reconhecimentodo do que pediam pão. E olha que ela via muita gente passar fome.



AT | O desafio é uma boa forma de assegurar melhores resultados? E as recompensas (bônus, promoções, sorteios..), quando devem ser aplicadas?

JH |
As pessoas de forma geral gostam de desafios. Isto é fundamental para o desenvolvimento e a satisfação. O importante é fazer isto de uma maneira onde o individualismo não prevaleça sobre a cooperação da equipe.



AT | Qual o filme referência para o senhor (ligado ou não à questão profissional) ? E por quê?

JH |
Gosto muito do Patch Adams. É uma lição de liderança.



AT | É melhor ouvir ou falar?

JH |
O bom líder ouve mais do que fala.



AT | Gerenciar ou liderar?

JH |
Você gerencia coisas e lidera pessoas.



AT | Em três tempos, diga o que uma pessoa precisa apresentar para ter sucesso na vida.

JH |
Na minha visão: Gostar do que faz, ser leal aos seus princípios e fazer o sacrifício necessário para atingir o seu objetivo.



AT | Também em três tempos, cite as características que levam qualquer pessoa ao fracasso.

JH |
Falta de caráter, arrogância e incoerência com os seus valores.

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