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PÓS-GRADUAÇÃO

"Se quer fazer uma dissertação, deve dedicar todo o tempo disponível a ela"

Fábio Bittencourt, do A Tarde
Por Fábio Bittencourt, do A Tarde

A verdade é que não há estudante que nunca tenha quebrado a cabeça com os escritos acadêmicos. Com a aproximação do final do período letivo e o encerramento das atividades escolares, então, é muito comum o corre-corre para a entrega do trabalho final, seja ele uma monografia, dissertação de mestrado, ou mesmo tese de doutorado.


Foi com o objetivo de servir como roteiro prático e ajudar os mais aflitos, que a escritora Simone Pessoa publicou “Dissertação Não É Bicho-Papão” (Editora Rocco). De acordo com ela, o que mais atrapalha os estudantes nessas horas é o medo do desconhecido, aliado à mística de que fazer uma dissertação é sempre um processo doloroso, traumático ou coisa de outro mundo. “Na realidade, a dissertação está mais para um coelhinho, ou um gatinho inofensivo”, disse ela na apresentação do livro.

Administradora de empresas com especialização em Educação Biocêntrica e mestrado em Administração, atualmente atuando como executiva de um banco de desenvolvimento, ela concedeu a seguinte entrevista ao repórter Fábio Bittencourt.

A Tarde: Para começar, o que vem a ser dissertação?

Simone Pessoa: Monografia é o termo utilizado para os trabalhos científicos de conclusão dos cursos acadêmicos em geral, escritos por uma única pessoa. Aplica-se monografia para cursos de graduação e pós-graduação lato sensu. Dissertação é a monografia específica para os cursos de mestrado, ou seja, pós-graduação stricto sensu. Já a tese é a monografia elaborada nos cursos de doutorado, que exige resultados acadêmicos inéditos. Ambas devem ser elaboradas a partir de pesquisas teóricas e/ou empíricas e ser apresentadas de forma lógica e que facilite o desenvolvimento das idéias apresentadas.

AT: Como surgiu a idéia para escrever o livro?

A idéia surgiu quando concluí meu mestrado em administração de empresas. Fui a única da turma que concluiu no tempo regulamentar. Por isso, colei grau sozinha e recebi meu diploma longe de meus colegas de turma. Aquele instante foi crítico. Estava feliz pela minha conquista, mas intrigada porque estava sozinha. Comecei a refletir sobre o que levou a esse desfecho. Assim, passei a relembrar os semblantes de meus colegas, a aflição de muitos, a desistência de outros e o sofrimento de todos. Em contraponto, recordei o meu processo pessoal, vivenciado com esforço, mas recheado de satisfação e, por que não, prazer? Esse foi o mote para me debruçar e escrever “Dissertação não é bicho-papão”. Queria contar minha história de forma a desmitificar muito desconhecimento que se tem em torno da elaboração do trabalho monográfico acadêmico. O meu propósito, portanto, era ajudar a todos os que sofrem nesse momento importante de suas vidas.

AT: Quando, como e sobre o que foi a sua primeira dissertação?


Defendi minha dissertação em outubro de 2003. Foi uma ocasião muito especial em que pude desfrutar da conquista de apresentar minha dissertação intitulada “Gênero e Liderança: discussão do estilo de liderança da mulher executiva”, aprovada com a nota dez com louvor. Para esse momento, preparei-me bastante e utilizei técnicas e procedimentos que percebi serem bastante efetivos.

AT: E de lá para cá, já defendeu muitas outras teses?

Não. Interessante é que, por conta da boa repercussão do livro, acabei descobrindo que minha forma de escrita atrai e toca as pessoas. Recebi tantas respostas positivamente contundentes que resolvi investir nesse dom. Hoje sou cronista do principal jornal de Fortaleza, O Povo, e tenho uma coluna fixa aos domingos. Minha pretensão é desenvolver novos títulos e poder oferecer textos leves e com reflexões significativas para os leitores de todo o Brasil.

AT: Trabalha hoje com orientação acadêmica?

Sim. Também em decorrência do “Dissertação não é bicho-papão”, sou sempre sondada para orientar monografias. Contudo, considerando que, hoje, minha prioridade é a literatura, tenho aceito poucas ofertas para atuar como orientadora.

AT: O que é preciso para uma boa dissertação?

Como tudo na vida, uma boa dissertação é construída a partir de boas escolhas durante todo o processo: desde a escolha do tema até a defesa. Nesse caminho, a todo instante precisamos fazer pequenas ou grandes escolhas. Elas é que irão dar o tom do resultado final. E é com esse princípio que “Dissertação não é bicho-papão” foi escrito. Com a intenção de ajudar os estudantes a fazer as melhores escolhas para a elaboração de seu trabalho. Finalmente, gostaria de ressaltar que, o mito da monografia, se desfaz para quem decide se debruçar por inteiro no trabalho. É uma decisão que certamente vai exigir dedicação, esforço, renúncia. Mas a experiência dessa entrega é ímpar, engrandecedora, surpreendente e até apaixonante.

AT: Por fim, que dicas você daria a quem está desenvolvendo hoje um trabalho acadêmico?

Sobre a organização do tempo e o volume de informações, defendo que o estudante precisa criar um "cantinho da monografia", onde disporá dos livros, artigos, textos e anotações. Se possível, próximo ao computador. O tempo é uma questão de prioridade (tem um capítulo no livro com esse título). Se você quer fazer uma monografia, deve dedicar todo o tempo disponível a ela, seja na sala de espera do médico, seja no ônibus quando vai para a faculdade. Nessa etapa, sugiro abandonar a TV e evitar acatar todos os convites sociais que apareçam pela frente. Compareça somente aos imprescindíveis. E mais, não termine um dia sem ter avançado uma página escrita ou lida ou mesmo uma idéia refletida . Quanto ao volume de informações, com a apropriação do tema, naturalmente você vai saber classificar o que é útil ou "lixo" que merece ser descartado, priorizando o clássico, o consistente, o que incorpora valor à pesquisa.

Abaixo, algumas dicas úteis da autora:

- Consiga, em arquivo eletrônico, a formatação das páginas, informações, leiaute das folhas pré e pós-textuais;

- Tenha à mão um elenco de expressões de ligação;

- Quando uma idéia lhe surgir, anote-a no primeiro papel que encontrar pela frente, e depois a transfira para o seu banco de idéias;

- Faça os registros da bibliografia à medida que se apropria do texto;

- Backup: não deixe para fazer mais tarde;

- Escolha uma bela epígrafe para o seu trabalho;

- Faça agradecimentos e oferecimentos legítimos;

- Peça para alguém ler o que você vai escrevendo;

- Adote um tema musical que o mobilize;

- Releia o que escreveu para ensejar a escrita;

- Caminhe e caminhe;

- Conte com a fidelidade canina.


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