INSPIRADOR
Uma das empresas mais sustentáveis do mundo está no bairro do Uruguai
Diversas práticas ecológicas e sociais foram implementadas no local


Considerado um dos pontos mais populares da Península de Itapagipe, na Cidade Baixa, em Salvador, o bairro do Uruguai tem relação com um título internacional que vai muito além do fato de ter nome de país.
A região, que antigamente era marcada pelas palafitas, passou por um grande desenvolvimento nas últimas décadas e atualmente abriga uma das 100 empresas mais sustentáveis do mundo.
A empresa Polo Salvador, localizada no Condomínio Bahia Têxtil, foi criada pelo casal Hari Hartmann e Imelda Hartmann em 2012. Ela recebeu o certificado do G-20 em setembro de 2023, devido à implementação de práticas empresariais que promovem a sustentabilidade, a responsabilidade social e a transparência dentro do negócio.
A nomeação é um dos grandes títulos e prêmios conquistados pelos empresários ao longo dos 14 anos de história.
O principal fator considerado pelos avaliadores para eleger a Polo Salvador como uma das empresas mais sustentáveis do planeta foi a capacidade de produzir mais energia do que consome.
Equipada com sistema de captação de energia solar, ela gasta muito menos do que armazena ao longo do ano. A partir disso também veio o Selo Zero Energy.
“Desde 2018 temos autossuficiência de energia solar aqui na empresa e também no apartamento onde eu moro. Temos 170 placas solares no telhado, fizemos todo esse investimento aqui e não era para ganhar o selo, eu nem sabia que existia. Nós queríamos estar voltados ao meio ambiente. Nós éramos a única empresa da Bahia e do Nordeste com autossuficiência de energia”, declarou Hari Hartmann em entrevista ao MASSA!.

De uma empresa quebrada à referência no mercado
Quando Hari Hartmann abriu a Polo Salvador, ele havia quebrado um negócio pouco antes e precisou recomeçar com a sua nova empresa quase do zero. Durante o processo para montar a fábrica, ele decidiu que uniria o propósito de ajudar o planeta e as pessoas com a própria economia que teria a partir dessas ações.
O empresário, que também é geólogo, especialista em Meio Ambiente e Conselheiro de Sustentabilidade da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), promoveu a implementação de ações sustentáveis na empresa desde a fundação e continua com essa visão até hoje.
Uma das primeiras atitudes, ainda em 2012, foi utilizar lâmpadas fluorescentes. Porém, a empresa começou a enfrentar problemas com os reatores e ele decidiu dar uma chance para as lâmpadas LED.
Após isso, com a redução pela metade do consumo de energia elétrica, o geólogo trocou os motores mecânicos para econômicos, os ares-condicionados por modelos com a tecnologia inverter e então vieram as placas solares.
Para além dessas mudanças, foram instalados ventiladores com material de hélice de helicóptero na fábrica, que permitem a circulação de ar de forma adequada com um consumo muito menor. O que pareciam ser atitudes simples causaram um grande impacto positivo a longo prazo.

Outras ações sustentáveis
A sustentabilidade é realmente levada a sério no local. Até a fachada da fábrica da Polo Salvador é uma parede verde, técnica conhecida como jardim vertical, onde a vegetação cresce junto ao muro. As plantas presentes na entrada da empresa foram plantadas com compostagem, transformando resíduos orgânicos em adubo.

Até mesmo a água da chuva é armazenada em tanques e reaproveitada para algumas funções, como regar plantas e encher a descarga dos banheiros, e passa por dupla filtragem para ser utilizada de outras maneiras pelas pessoas que frequentam o local.
“Diminuímos em 90% o custo da água. Uma pessoa gasta em média 70 litros de água por dia, temos 68 pessoas. Fazendo a conta vai até R$ 3 mil a R$ 4 mil. Eu gasto menos de R$ 500 por mês de água, então isso é uma economia boa”, revelou o empresário.

Já uma das principais linhas da Polo Salvador é a Ecoline, que une tecnologias inovadoras para produzir camisas com poliéster feito de garrafas PET e com algodão sustentável.
A etiqueta e a sacola também são sustentáveis, e um produto antimicrobiano é adicionado no momento da tintura do tecido para que as peças sejam reutilizadas mais vezes sem necessidade de lavá-las, pois não apresentam odor com facilidade.
“O tecido é composto por 50% algodão e 50% poliéster, onde o fio do poliéster dela é de tecido reciclado de garrafa PET e o algodão é algodão BCI, que é um algodão sustentável e muito confortável, trazendo durabilidade e conforto para os nossos clientes”, disse a vendedora Rebeca Vidal.
“Os botões dela são botões de garrafa PET, a etiqueta também é uma etiqueta ecologicamente correta e nessa linha aqui a gente tem um produto, um antimicrobiano, onde a pessoa pode estar utilizando essa camisa em até cinco vezes sem lavar”, pontuou.

Benefícios para a região e a comunidade
A Polo Salvador é uma das mais de 20 empresas localizadas no Condomínio Bahia Têxtil, que é um Arranjo Produtivo Local (APL), pois as fábricas fazem parte do mesmo setor.
O local, que desde o ano de 2024 possui um centro de lojas para que aquilo que foi produzido possa ser comercializado de maneira estratégica, trouxe diversos impactos positivos para o bairro do Uruguai.

Um exemplo das oportunidades que o Condomínio Bahia Têxtil trouxe para a comunidade foi a valorização da região, favorecendo a chegada do SAC do Uruguai, a construção de unidades de grandes redes de farmácia e outros empreendimentos naquela região.
Para Hari, a próxima expectativa é para a inauguração do Veículo Leve sob Trilhos (VLT), que deve aumentar o fluxo de pessoas na localidade e, consequentemente, trazer novos investimentos.
Outro ponto a ser destacado é a geração de empregos. “A gente beneficia a comunidade como um todo. 95% dos funcionários daqui são pessoas da região, então isso facilita que a gente tenha uma comunicação muito próxima da comunidade e também tenha problema zero com segurança”, explicou Hartmann.
Além do Uruguai, bairros próximos também acabam sendo contemplados, como Massaranduba, a partir do trabalho da Cooperativa de Coleta Seletiva Processo de Plástico e Proteção Ambiental – CAMAPET, que recebe resíduos que seriam descartados pelas fábricas e promove a reciclagem com o material recebido.
“Temos um espaço lá na frente que a CAMAPET passa uma vez por semana e recolhe o material. Eles recolhiam gratuitamente, mas hoje a gente tá pagando pelo menos o deslocamento, de R$ 50 ou R$ 100 por semana para pegarem e funciona bem”, destacou Hari.

Já os retalhos de tecido da empresa Polo Salvador são doados para a Creche Escola Comunitária Fonte de Luz, localizada no Parque São Cristóvão, onde são transformados em estopa, são comercializados e ajudam no funcionamento da própria instituição social e no pagamento de alguns funcionários.
Eles fazem diversas ações sociais com base em gincanas internas com os funcionários e também ajudam a Organização Não Governamental (ONG) Castrampinhas, que arrecada materiais recicláveis e vende para usar o dinheiro na castração de animais abandonados.
"A gente é a única empresa vinculada à Castrampinhas, que é uma ONG que realiza a castração de animais em situação de rua. E nós somos o único ponto de coleta aqui da Cidade Baixa. Então clientes, funcionários, passantes, todo mundo que faz a coleta e não tem destinação, nós somos responsáveis por fazer essa separação e esse encaminhamento”, falou Matheus Campos, analista de marketing da empresa.

De portas abertas para a população
Ao longo do ano, oficinas e cursos gratuitos são oferecidos para a comunidade a partir da parceria entre o Condomínio Bahia Têxtil e empresas, órgãos e secretarias governamentais e até mesmo sob o apoio de emendas parlamentares de deputados federais baianos.
Ainda é possível que profissionais, microempreendedores, estudantes ou professores de moda utilizem os equipamentos disponibilizados no Espaço Fazer APL de Modas para fabricar ou finalizar suas peças.
Máquinas tecnológicas que facilitam os processos de costura, que normalmente são caras e de difícil acesso, podem ser utilizadas por esse grupo de pessoas. Em breve, com previsão de início ainda neste ano, a população em geral interessada no espaço também poderá trabalhar no local.