PESQUISA
1 em cada 5 universitários brasileiros relata pensamentos de morte
IA mapeia padrões de sofrimento invisíveis na universidade

A imagem do universitário deprimido deixou de ser um recorte isolado para se tornar parte da paisagem acadêmica. Um estudo recente acende um alerta: a ideação suicida atinge quase 20% da comunidade acadêmica no Brasil.
Realizada por pesquisadores da UFF, UFRJ e Uerj, a investigação, publicada no periódico The Lancet Regional Health – Americas, revela que o problema é um mosaico complexo, onde a depressão é apenas uma das peças.
O retrato de uma crise invisível
A pesquisa analisou 3.828 pessoas, predominantemente mulheres (67,6%) e jovens adultos (18 a 39 anos). O dado mais impactante é a prevalência: 18,86% dos participantes relataram ideação suicida nas duas semanas anteriores à entrevista.
"Essa abordagem mais integrada permite compreender a ideação suicida não como uma manifestação isolada, mas como resultado de múltiplas influências que se entrelaçam ao longo da vida."
O uso de inteligência artificial (Multiple Kernel Learning) permitiu aos cientistas identificar padrões que escapam ao olhar clínico tradicional, integrando variáveis psicológicas, sociais e demográficas em um único modelo preditivo.
Fatores que pesam mais que o diagnóstico
Embora os sintomas depressivos sejam preditores fortes, o estudo provou que eles não explicam tudo. Fatores psicossociais e biográficos respondem por cerca de metade do peso na classificação de risco.
- Maus-tratos na infância: Experiências de abuso ou negligência emocional representam 22% do peso no modelo de risco.
- Solidão: A sensação subjetiva de falta de companhia, mais do que o isolamento físico, foi um indicador crucial.
- Otimismo: Atuou como o principal "amortecedor" contra a desesperança.
"Vivências adversárias na infância podem deixar marcas de tristeza na saúde mental. (...) Sentimentos como 'ter sido uma criança indesejada' ou 'ter sofrido abuso emocional' foram fortemente associados à ideação suicida."
O otimismo como escudo protetor
Um dos achados mais promissores é o papel do otimismo. No modelo estatístico, ele apareceu com peso negativo, indicando que quanto mais o indivíduo espera coisas boas do futuro, menor a probabilidade de pensamentos suicidas.
"O otimismo funciona como um importante fator de proteção. Pessoas que tendem a enxergar o futuro de forma mais positiva parecem estar mais protegidas contra pensamentos suicidas, mesmo diante de dificuldades."
Esse dado reforça a Teoria dos Três Passos do Suicídio, onde a dor (causada pela solidão ou trauma) só se torna ideação quando combinada com a desesperança. O otimismo, portanto, quebra esse ciclo.
Políticas públicas e caminhos para a prevenção
Os resultados sugerem que as universidades precisam ir além do atendimento psiquiátrico básico. É necessário criar estratégias que fortaleçam o pertencimento e identifiquem precocemente marcas de traumas passados.
"Não é suficiente olhar apenas para a depressão ao avaliar o risco de ideação suicida. É preciso adotar uma abordagem mais ampla, que considere múltiplos fatores emocionais, sociais e biográficos."
Apesar das limitações, a pesquisa é um passo fundamental para entender a realidade brasileira, historicamente negligenciada em estudos de alta renda.
Onde buscar acolhimento
Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, existem redes de apoio especializadas:
- Pode Falar (Unicef): Atendimento para jovens de 13 a 24 anos (seg-sáb, 8h às 22h) em podefalar.org.br.
- CVV (Centro de Valorização da Vida): Atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188 ou pelo chat no site.
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