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Estudo em gestantes quer reduzir risco de HTLV-1 em recém-nascidos

Vírus da família do HIV infecta as células T do corpo humano; Brasil é área endêmica

Priscila Dórea
Por Priscila Dórea
| Atualizada em
O HTLV é transmitido através de relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de agulhas e seringas, e de mãe para o filho
O HTLV é transmitido através de relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de agulhas e seringas, e de mãe para o filho - Foto: Uendel Galter/Ag. A TARDE

Um estudo inédito da Fiocruz Bahia vai investigar o uso do medicamento Dolutegravir (DTG) - usado no tratamento do HIV - na prevenção da transmissão vertical do HTLV-1, um vírus da família do HIV que infecta as células T do corpo humano.

Conduzido pela Fiocruz Bahia em parceria com o Ministério da Saúde (MS), o estudo clínico PrevINIr HTLV-TV representa um marco na luta contra um retrovírus silencioso e negligenciado, que pode ser transmitido da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação. Na Bahia, a contaminação pelo vírus é uma endemia.

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O HTLV é transmitido através de relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de agulhas e seringas, e de mãe para o filho - principalmente pela amamentação. O Brasil é uma das maiores áreas endêmicas de HTLV do mundo, especialmente na região Nordeste.

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Na Bahia, 1 em cada 100 gestantes tem HTLV-1 e por isso, desde 2011 a testagem para HTLV é feita nas gestantes baianas. Em 2025, o MS incorporou a realização da sorologia em todo o território nacional e, junto com a OMS, estabeleceu a meta de eliminar a transmissão vertical do vírus até 2030.

"Isso motivou nosso estudo e é uma oportunidade ímpar para que possamos contribuir com essa meta. A nossa escolha pelo DTG surgiu por ele ser um medicamento seguro e eficaz para barrar a transmissão vertical do HIV, então vamos avaliar sua segurança e eficácia em gestantes vivendo com o HTLV e descobrir se podemos usar ele como mais uma forma de controlar a transmissão vertical, evitando que os bebês cresçam com a doença", explica a coordenadora do estudo, a infectologista e pesquisadora da Fiocruz Bahia, Fernanda Grassi.

Drª. Fernanda Grassi, cientista da Fiocruz Bahia
Drª. Fernanda Grassi, cientista da Fiocruz Bahia - Foto: Uendel Galter/Ag. A TARDE

Uma gestante com diagnóstico de HTLV têm 25% a 30% de chance de transmitir o vírus para o seu bebê.

A recomendação então é que seja feito o clampeamento (corte) precoce do cordão umbilical e que o aleitamento materno seja suspenso, reduzindo as chances para 5%, "o que ainda é um número considerado alto", afirma Fernanda Grassi, que tem como uma de suas motivações pessoais a história de famílias que possuem gerações de contaminados pelo vírus.

"Queremos criar alternativas para fazer com que as pessoas vivam bem e livres desse vírus, o importante é isso", afirma.

Impactos e esperanças Carregando o vírus do HTLV desde o nascimento, a psicóloga e mestranda em psicologia e intervenções em saúde, Adijeane Oliveira de Jesus só foi ter sintomas associados ao vírus na juventude: bexiga neurogênica, fraqueza nas pernas e quedas frequentes.

"Hoje, consigo andar apenas um pouco, dependo da cadeira de rodas e precisei me aposentar por invalidez. Infelizmente, o HTLV atravessa minha família inteira. Somosseis pessoas vivendo com o vírus e carrego no coração a dor de ter perdido meu irmão para uma leucemia linfoma causada pelo HTLV", relata.

Adijeane é membro da Associação HTLVida (@htlvida) - que tem papel pioneiro ao quebrar o silêncio e o estigma em torno do HTLV. Ela conta que o estudo clínico representa uma enorme esperança para barrar o HTLV nas futuras gerações. “Um marco inédito e de enorme relevância científica e social. Esse estudo pode mudar a história dessa infecção negligenciada", afirma. Não há nenhuma intervenção farmacológica comprovada para impedir a transmissão vertical do vírus.

Segunda tesoureira da HTLViva, Maria das Graças convive com o vírus há 25 anos - ela foi contaminada já na fase adulta - e afirma que esse estudo é uma vitória imensurável. "O HTLV é um vírus pouco conhecido e pouco falado, então um estudo que pode fazer com que as crianças não cresçam mais com ele é muito importante para nós", afirma.

O estudo vai acompanhar 516 gestantes infectadas pelo HTLV-1 e seus recém-nascidos até os 18 meses de idade. Caso os resultados confirmem a eficácia da intervenção, a iniciativa poderá transformar protocolos de cuidado materno-infantil e influenciar diretamente as políticas públicas de saúde no Brasil e no mundo, beneficiando milhares de famílias.

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