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Homens são responsáveis por 40% dos casos de infertilidade na relação

Portal A TARDE conversou com especialista e casais que passam pela infertilidade masculina

Leilane Teixeira
Por Leilane Teixeira
A concentração de espermatozoides que os homens liberam durante a ejaculação caiu 51% nos últimos 50 anos
A concentração de espermatozoides que os homens liberam durante a ejaculação caiu 51% nos últimos 50 anos - Foto: Divulgação

O desejo de ter um filho biológico ainda é um sonho para muitos casais. O primeiro passo? Interromper o método contraceptivo, que geralmente é a mulher quem toma. Em seguida, surge a primeira tentativa. Não dá certo. Vem a segunda, terceira e o teste de gravidez continua com o resultado negativo. Começa a frustração do casal, e, automaticamente, é atribuído que a parceira tem alguma dificuldade.

A mulher quem costuma buscar uma avaliação médica primeiro. Faz uma série de exames, começa a tomar vitaminas e até promover algumas mudanças de hábitos. Afinal, é “ela quem vai engravidar”. Porém, o que muitos ainda não podem não ter conhecimento, é que nem sempre a causa da infertilidade está na mulher.

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“A princípio, eu não tinha nenhuma dificuldade. Fiz todos os exames e comigo estava tudo normal. O problema era meu esposo Lee Udson, que é vasectomizado. Então optamos primeiro por tentar reverter a vasectomia. Foi um sucesso a cirurgia, porém, quando a gente foi fazer o exame, o espermograma ainda estava zerado. Ele passou a tomar vitamina, mas nada de melhorar. Ligamos para o nosso médico, que informou que meu marido teria que refazer a reversão. Ele refez e ainda assim espermograma dava zerado. Depois de um sucessão de tentativas que não deram certo, Lee fez alguns exames e descobrimos que o canal dele estava obstruído e, mesmo com a vasectomia desfeita, ele não poderia ter filhos ”, contou ao Portal A TARDE, Ariana Barreto, técnica em segurança do trabalho.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a infertilidade é definida como a incapacidade do casal engravidar após um ano de relação sexual sem métodos contraceptivos. O problema atinge 15% da população mundial e oito milhões de pessoas no Brasil. Ainda de acordo com a OMS, 40% dos casos de infertilidade conjugal vem de problemas que estão no homem. A concentração de espermatozóides que os homens liberam durante a ejaculação, por exemplo, caiu 51% nos últimos 50 anos, segundo pesquisa feita por universidades estrangeiras.

Em entrevista ao Portal A TARDE, o urologista Felipe Pinho, membro do Núcleo de Urologia do Instituto Brasileiro de Cirurgia Robótica (IBCR), explica que a infertilidade pode ser comparada a uma pandemia silenciosa e, por isso, merece atenção especial. Ele explica que a infertilidade masculina é a incapacidade do homem em produzir espermatozóides em quantidade ou qualidade suficiente para fecundar o óvulo e resultar em uma gravidez.

O espermograma é o principal exame usado como parâmetro da fertilidade masculina e, muitas vezes, é através desse exame que é possível identificar as causas. Segundo o urologista, entre as principais causas de infertilidade masculina estão:

- a varicocele, uma dilatação das veias dos testículos que pode afetar a produção de espermatozóides;
- o uso de anabolizantes, que interfere na produção hormonal;
- vasectomia, método contraceptivo cirúrgico masculino;
- infecções não tratadas que podem causar danos aos órgãos reprodutivos;
- desordens genéticas.

"Além disso, fatores como a ausência do ducto deferente, responsável pelo transporte dos espermatozóides, também contribuem para a infertilidade masculina”.

Urologista Felipe Pinho
Urologista Felipe Pinho - Foto: Reprodução

Investigação e tratamento

Ainda de acordo com o médico urologista, a investigação da infertilidade deve envolver o casal e o fator masculino abordado e supervisionado adequadamente. Segundo Felipe, a abordagem da infertilidade sobretudo no homem, exige uma investigação abrangente e precisa envolver tanto exames clínicos quanto laboratoriais.

“O espermograma, exame que analisa a quantidade, motilidade e morfologia dos espermatozóides, é fundamental para o diagnóstico da infertilidade masculina. Em alguns casos, são necessários procedimentos invasivos para a obtenção de espermatozóides diretamente dos testículos. O tratamento varia de acordo com a causa identificada e pode incluir intervenções cirúrgicas, uso de medicamentos para estimular a produção de espermatozóides ou técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro (FIV)”, resumiu o médico, que também coordena o Núcleo de Infertilidade Masculina do Centro de Reprodução Humana do Hospital MaterDei Salvador.

Sem sucesso na tentativa de desfazer a vasectomia do marido, o casal Ariana e Lee buscou na fertilização in vitro (FIV) o caminho para realizar o sonho de ter um filho biológico. A técnica em segurança do trabalho disse que após as constantes negativas do organismo do marido e quatro anos tentando, eles resolveram partir para o procedimento. Procedimento esse que, de acordo com o urologista, é o caminho certo a se fazer nos casos em que a reversão de vasectomia não é bem sucedida.

“Ano passado, fiz todos os exames e decidimos que faríamos a FIV. Fizemos em uma clínica e não deu muito certo. Foi muito frustrante. Sofri muito, foram gastos sem retorno. Sem falar nas brigas com meu marido, que me afetou durante o período de tratamento. Eu o culpava por não termos conseguido na primeira tentativa, porque ele tinha que mudar a alimentação dele para melhorar o espermograma. Ele tinha que parar de beber e ter uma vida mais saudável para que o sémen dele reagisse. Tudo isso contribuiu para que fosse desgastante".

Especialistas explicam que a manutenção de hábitos saudáveis, como alimentação balanceada e prática regular de atividade física, também é importante porque ajuda na prevenção de doenças que levam à infertilidade.

Ariana Barreto e Lee Udson foram para Curitiba refazer o prcedimento FIV
Ariana Barreto e Lee Udson foram para Curitiba refazer o prcedimento FIV - Foto: Reprodução

Após Lee entender que precisava manter hábitos mais saudáveis, Ariana conta que foi possível dar a volta por cima. "Meu desejo de ser mãe era maior que qualquer coisa e o dele de ser pai também. Então ele decidiu melhorar a alimentação. Eu levantei minha cabeça, vendemos nosso carro e fomos procurar tratamento em Curitiba. Nessa segunda tentativa do FIV, meu marido foi parceiro, se cuidou e estivemos juntos em todos os momentos. Assim, consegui engravidar e estou gestante de 15 semanas de uma menina”, celebrou.

Casal Ariana Barreto e Lee Udson descobrindo o sexo do bebê que estão esperando após a fertilização in vitro (FIV)
Casal Ariana Barreto e Lee Udson descobrindo o sexo do bebê que estão esperando após a fertilização in vitro (FIV) - Foto: Reprodução

Preservação da fertilidade

Realizados cada vez com mais frequência, o congelamento de óvulos e espermatozóides também têm sido indicado como uma estratégia de preservação da fertilidade em diversas situações.

Diferente de Ariana, a dona de casa Patrícia Santos Barbosa, não tem como investir na fertilização in vitro. O marido dela, Daniel Costa, possui necrospermia, que é a diminuição do número de espermatozóides vivos, o que impossibilita que ele tenha filhos. Além disso, ela foi diagnosticada com mioma. Ambos não conseguem mais ter um filho de maneira natural, mas esperam fazer o congelamento tanto dos óvulos, como dos espermatozóides, para terem mais tempo para buscar ajudar e tentarem engravidar.

"Sempre foi meu sonho ser mãe. No entanto, eu e meu marido não conseguíamos ter filhos. Depois de várias tentativas, fomos em um clínica que forneceu um exame gratuito de espermograma. A gente já sabia que o problema era ele, porque no relacionamento dele anterior, ele também não conseguiu ter filho. A gente já sabia que existia um problema com ele, só não sabia qual. Quando ele fez o exame, descobriu que o espermatozoide dele é de uma espécie rara, que não tem forças para fecundar no meu útero e morre antes do processo. Além disso, descobri que tenho mioma, e também não consigo mais engravidar de forma natural", conta.

Patrícia Santos Barbosa e Daniel Costa. O casal não consegue engravidar e não tem condições e arcar com a fertilização in vitro
Patrícia Santos Barbosa e Daniel Costa. O casal não consegue engravidar e não tem condições e arcar com a fertilização in vitro - Foto: Reprodução

Apesar do sonho da gravidez ser mais difícil de realizar para o casal por questões financeiras, a dona de casa, de 35 anos, diz que tem fé que conseguirá ajuda e acredita ainda na realização do sonho do casal ter um filho biológico.

"É uma batalha diária que a gente tem, porque não temos recursos financeiros. E o médico já nos informou que por vias normais, vai ser impossível. Eu e meu marido pensamos nisso a todo momento. São mais de 10 anos buscando realizar esse sonho. Eu fico muito triste, me sinto muito só, e aí surge aquela necessidade de de ter um filho com nosso sangue. Sonhamos com isso e é muito triste não poder realizar no momento", lamentou.

Segundo o urologista, quem não tem previsão de quando fará a fertilização, o ideal é tentar realizar o congelamento para preservar tanto os óvulos [no caso de mulheres], como também os espermatozóides [no caso dos homens].

"Para mulheres, a crio-preservação de óvulos é indicada principalmente para aquelas que desejam adiar a maternidade. Já o congelamento de espermatozóides é indicado para homens que passarão por tratamentos que podem afetar a produção espermática, como quimioterapia ou radioterapia, ou que estão expostos a riscos ocupacionais. Além disso, é uma opção para aqueles que desejam preservar sua fertilidade antes de uma vasectomia. Os procedimentos oferecem uma oportunidade valiosa para planejamento reprodutivo e segurança futura", assegurou.

Tratamentos

Felipe explica que o tratamento depende do diagnóstico. São eles:

- Causas idiopáticas, genéticas, congênitas: não têm tratamento específico e são encaminhadas para reprodução assistida ( fertilização in vitro)

- Causas gonadotóxicas: afastamento da substância, agente ou ambiente que causa a alteração, sempre que possível. Caso não reverta após a retirada do agente, é encaminhado para reprodução assistida.

- Varicocele: correção cirúrgica como primeira opção, com algumas exceções.

- Vasectomia: é possível reverter a vasectomia ou partir para reprodução assistida. A escolha depende de alguns fatores que são analisados em conjunto pelo urologista, ginecologista e o casal, visando sempre o melhor resultado.

- Infecção: tratamento específico do agente causador.

- Tratamento hormonal: específico para uma doença rara, mas que responde muito bem a reposição hormonal.

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