ChatGPT: usos, potencialidades e riscos da inteligência artificial | A TARDE
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ChatGPT: usos, potencialidades e riscos da inteligência artificial

Quarta versão do GPT promete maior eficiência nas respostas e maior atenção a conteúdo de desinformação

Publicado sábado, 01 de abril de 2023 às 07:00 h | Atualizado em 01/04/2023, 08:23 | Autor: João Guerra
Daniel Marques, designer e professor universitário cria arte com apoio de inteligência artificial
Daniel Marques, designer e professor universitário cria arte com apoio de inteligência artificial -

Até pouco tempo atrás, quando se falava em inteligência artificial (IA), se pensava em algo de um futuro distante ou de obras de ficção científica, como “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, “Exterminador do Futuro” ou “Matrix”. Nos últimos meses, contudo, o assunto voltou à baila, desta vez, ao alcance de alguns cliques com o lançamento do ChatGPT, que, recentemente colocou no mercado para testes a sua quarta versão: o ChatGPT-4.  

Com a popularização da ferramenta, ela alcançou a marca de 100 milhões de usuários dois meses após seu lançamento, em novembro de 2022, entrou em discussão de especialistas de diversas áreas sobre os seus usos possíveis e os seus impactos para a sociedade. O Portal A TARDE conversou com quem estuda e usa a ferramenta no dia a dia para entender as novas funcionalidades do chat em sua nova versão, as possíveis aplicações dele na vida profissional e pessoal e os riscos da falta de uma regulamentação mais clara para o uso da inteligência artificial em todo o mundo.

Porém, antes de já começar a ficar aterrorizado imaginando que a inteligência artificial vai tomar conta do planeta, se rebelar e escravizar a humanidade, como nas obras de ficção, é preciso entender o que é o ChatGPT. Para isso, foi perguntado ao próprio recurso o que ele era.

“Eu sou o ChatGPT, um modelo de linguagem criado pela OpenAI. Sou uma inteligência artificial projetada para entender e processar a linguagem natural e fornecer respostas para perguntas e solicitações. Em outras palavras, eu sou um assistente virtual que pode ajudar a responder a perguntas e fornecer informações com base em dados disponíveis em meu treinamento”, se define o chat. 

Na prática, o ChatGPT é um robô virtual, igual a esses que ficam disponíveis para manter contato com operadoras de celular, por exemplo, quando é preciso pedir a segunda via de uma conta. Robôs desse tipo já existem há algum tempo, só que com o GPT, nunca foi tão fácil usar e ter uma resposta tão completa em questão de segundos. 

Isso porque o chat é uma rede neural de grande escala, treinada com uma base de dados com milhões de informações em texto, o que permite o reconhecimento de padrões de linguagem para tentar trazer respostas precisas e relevantes para auxiliar o usuário nas solicitações que ele faz. E isso é o que descreve a terceira versão da ferramenta, a que se popularizou em alguns lugares do mundo, dentre eles no Brasil.

Sobre as novidades do ChatGPT-4, o Portal A TARDE conversou com Nina da Hora, cientista da computação, pesquisadora e hacker antirracista. Ela aponta que, apesar da OpenAI não ter divulgado abertamente as mudanças do GPT-3 para o GPT-4, de modo geral, a promessa é que a quarta versão da ferramenta tenha uma maior escala, que faz ela ter um aumento na capacidade de lidar com diferentes tarefas e entender uma variedade de contextos; uma melhor compreensão do contexto da solicitação feita pelos usuários; um aprendizado contínuo, que fará o chat se adaptar com o tempo de acordo com as demandas as quais for submetida; uma menor propensão a divulgar informações incorretas; uma redução no viés das suas respostas, resultando em retornos mais justos e equilibrados; e um aprimoramento da segurança e da moderação da ferramenta. 

“Porém, quanto mais testes acontecem mais há abertura de dúvidas acerca dessas afirmações. Eu, sinceramente, penso que é cedo demais para afirmar benefícios do ChatGPT”, alerta a pesquisadora. 

Nina da Hora, cientista da computação, pesquisadora e hacker antirracista
Nina da Hora, cientista da computação, pesquisadora e hacker antirracista |  Foto: Divulgação
 

Embora ainda esteja sendo testado por poucos, o GPT-4 é mais um passo na corrida pela preferência das pessoas sobre qual modelo de inteligência artificial usar. Na mesma semana que a OpenAI lançou a quarta atualização do seu sistema, o Google colocou no mercado, ainda em fase de testes para algumas empresas, o Bard, o seu próprio chatbot.

Hoje em dia, para realizar uma pesquisa no Google, é preciso abrir o navegador e inserir uma pergunta ou palavras-chave. O mecanismo de busca apresenta os principais resultados para responder à dúvida do usuário, que deve escolher as páginas que parecem mais úteis para encontrar a resposta desejada. Com o Bard, assim como o ChatGPT, as pesquisas mais precisas, imitando a escrita humana com base na inteligência artificial para facilitar e agilizar as buscas, promete a empresa.

“Ao contrário de seu rival viral ChatGPT, o Bard pode acessar informações atualizadas da internet e possui um botão "pesquisa no Google" que acessa a busca. Ele também diz quais são as fontes das informações prestadas, como a WikiPedia”, destaca Rafael Brasil, professor na Unex - FSA/ UniFTC. 

Rafael Brasil, professor na Unex - FSA/ UniFTC
Rafael Brasil, professor na Unex - FSA/ UniFTC |  Foto: Divulgação
 

Nesse contexto de diversidade de modelos de IA que se apresentam, a expectativa dos especialistas é que quem as utilizar não deverá ter uma preferida, mas juntar algumas delas para as finalidades específicas de cada usuário. Algumas profissões já têm feito uso desse artifício nas suas rotinas profissionais. 

O professor de Design da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, Daniel Marques, tem utilizado um conjunto de ferramentas nas atividades rotineiras. Ele ouviu falar sobre o GPT em meados de janeiro deste ano, quando estava escrevendo a sua tese de doutora. De repente, nos sites e fóruns que tratam de tecnologia só falavam nesse assunto e tentou um primeiro contato com a IA. “Pedi para o ChatGPT me ajudar com ideias de título para minha tese. Inseri no prompt [campo do GPT onde coloca o comando] o resumo da tese e pedi opções de título. Fiquei surpreso com os resultados e, a partir daí, passei a usá-lo quase diariamente para uma diversidade de atividades”. 

Segundo o designer e professor universitário, no dia a dia, um dos usos que ele faz da ferramenta é para a geração de ideias e quebrar a “síndrome da página em branco”, dando o primeiro passo em alguma tarefa. 

“Ainda no tema da tese, eu precisava enviar um e-mail convidando alguns professores para serem membros da banca examinadora. Estava com dúvidas sobre o tom desse e-mail, então pedi para o GPT escrever e, a partir daí, fui editando até chegar na versão que eu queria”, narra Daniel.

Além disso, explica o professor, o chat tem auxiliado nas atividades com os alunos, em sala de aula, e, até mesmo, para atividades simples, como desejar as felicitações de aniversário a algum conhecido.

“Tenho usado para gerar ideias de atividades que posso realizar em sala de aula com meus estudantes, para criar postagens para redes sociais e até mesmo para escrever mensagens de feliz aniversário para algumas pessoas. Estou tão habituado com a ferramenta que tenho a tendência de começar qualquer tarefa acionando o ChatGPT”, enumera.

Na sua atuação como designer, Daniel Marques, pontua que tem experimentado com diferentes modelos de IA para a sua criação artística. A partir disso, ele criou o projeto “Duna X AI” nas redes sociais. 

“Nessa página do Instagram eu posto criações feitas utilizando ChatGPT e Midjourney inspirados no universo ficcional do livro Duna, de Frank Herbert. O ChatGPT me ajuda a gerar os prompts para a produção das imagens com o Midjourney e também escreve todas as legendas (em formato de haikus) para os posts, bem como seleciona as melhores hashtags para cada postagem”, explica.

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O Midjourney citado por ele é um novo gerador de texto para imagem gerido por inteligência artificial. A ferramenta opera dentro do Discord, uma plataforma de comunicação, e funciona de forma colaborativa.

Daniel alerta, contudo, que o chat é uma ferramenta de co-criação, ou seja, uma maneira de auxiliar no processo criativo. Em outras palavras, a ferramenta não faz o trabalho sozinha. “Muita gente (inclusive os estudantes) acabam achando que é possível delegar 100% do trabalho, mas o ponto não é esse. O ponto é como essa ferramenta consegue destravar etapas do processo que eram mais difíceis antes. O ChatGPT não vai escrever o artigo/projeto/texto que o estudante precisa, porque ele não sabe fazer isso bem. Mas o GPT pode ajudar o estudante a gerar ideias para o texto, a reescrever passagens mudando o estilo, a explorar novas possibilidades etc”.

Em outra experiência com o uso de IA nos processos de trabalho foi uma campanha publicitária de uma agência de São Paulo para uma seguradora multinacional para homenagear o aniversário da capital paulista, em janeiro. 

Coordenador da campanha, o publicitário Gustavo Bertassoli, explicou ao Portal A TARDE como a inteligência artificial foi empregada. “Ele [o GPT] foi utilizado 100% para produção das legendas das publicações, além de pesquisas para o direcionamento de arte, e do assunto abordado; que foi o aniversário de São Paulo. A partir de palavras chaves que conectavam os pilares das marcas ao tema abordado, conseguimos criar as legendas dessas publicações de maneira que faziam sentido”.

Mulher no anúncio foi criada com o auxílio de inteligência artificial
Mulher no anúncio foi criada com o auxílio de inteligência artificial |  Foto: Divulgação/iD/TBWA
 

Desde então, Gustavo destaca que a ferramenta passou a fazer parte da atuação nas campanhas na empresa onde trabalha.

“A ferramenta é muito útil para o planejamento e estratégia, com as respostas rápidas ela resolve pesquisas facilmente, realiza estudo de concorrência, entre diversas informações que são possíveis extrair a partir desses questionamentos que passam por resoluções de pesquisa, e direcionamento de dúvidas”, enumera Bertassoli.

Perguntado se com esse uso no dia a dia do trabalho não teme que diminua o número de empregos nas agências de publicidade, o paulista argumenta que ainda não é o momento para isso. “Atualmente ela ainda não possui uma taxa de confiabilidade muito alta, sendo necessário o crivo humano para conferir a veracidade e assertividade das informações, além de comumente ela girar em torno da mesma informação de maneira repetitiva. No atual momento, elas podem ser ótimas assistentes, mas ainda longe da confiabilidade para entregar algo 100%”, defende.

Colagem de ideias

A experiência citada pelo designer e pelo publicitário abre um aspecto que tem sido motivo de discussão por especialistas: é possível criar algo com o ChatGPT? Um dos testes que se tornou mais comum feito pelos usuários com a ferramenta foi compor letras de músicas, fazer poemas, montar um roteiro de filme ou programa de TV ou escrever livro. Já tem até gente vendendo curso nas redes sociais ensinando como fazer isso. 

A reportagem pediu, por exemplo, para a IA compor uma música de axé em homenagem ao aniversário de Salvador, que aconteceu no dia 29 de março. O chat respondeu. Vamos festejar Salvador / Com sua beleza sem igual / Sol, mar, axé e amor / Tudo isso em um só lugar”, diz o início da canção. 

Nina da Hora diz que é preciso ter cuidado com isso. “O chatGPT se baseia em informações já existentes, não vejo como a originalidade se sobrepor neste caso”. 

Outra preocupação, já que o chat se baseia em outros textos para gerar uma resposta a um comando do usuário, é a questão da propriedade intelectual de algo criado com o auxílio da ferramenta para que não infrinja, dentre outras coisas, os direitos autorais. 

“O ChatGPT é uma ferramenta poderosa para ajudar a gerar ideias e inspiração para a escrita criativa, mas é importante ser cuidadoso ao usá-lo para garantir que seu trabalho não infrinja os direitos autorais de outras pessoas e que você tenha a propriedade intelectual total sobre o trabalho final”, aponta Rafael Brasil.

Impactos na educação

Ademais, essa questão do trabalho autoral tem preocupado instituições de ensino. Na medida em que o chat entrega um trabalho escolar “pronto”, por exemplo. Já há universidade do mundo que, para evitar que estudantes entreguem ensaios e artigos feitos exclusivamente pelo ChatGPT, têm pedido aos alunos que façam as tarefas feitas a mão. 

A própria OpenAI, em fevereiro deste ano, lançou uma ferramenta “Anti-ChatGPT”. A proposta da plataforma é auxiliar a identificar quando um texto é escrito por humanos ou por inteligência artificial. O chamado “classificador de IA” está em fase de testes públicos.  A empresa reconhece que, por enquanto, tem tido dificuldade para detectar se textos com menos de mil caracteres foi escrito ou não por chatbots. 

“Reconhecemos que a identificação de texto escrito por inteligência artificial tem sido um ponto importante de discussão entre os educadores, e igualmente importante é reconhecer os limites e impactos dos classificadores de texto gerados por programas na sala de aula”, disse a companhia em comunicado na data de lançamento da ferramenta.

Uma busca rápida no Google, Twitter e YouTube com as palavras chaves “ChatGPT”, “Educação” e  “Professores” são mostrados um sem número de cursos, webinars e manuais prometendo a ensinar a educadores as potencialidade da ferramenta de IA que, ao que parece, veio para ficar. 

Simplesmente barrar o uso do ChatGPT nas instituições de ensino não é a melhor opção, defende Rafael Brasil. “Uma abordagem mais equilibrada seria encorajar o uso de ferramentas de inteligência artificial, mas com algumas limitações e diretrizes claras. As universidades podem fornecer orientação sobre como usar essas ferramentas de maneira ética e responsável, incentivando a originalidade e a criatividade dos alunos”.

“É importante lembrar que o uso de ferramentas de inteligência artificial é um caminho sem volta, e essas ferramentas têm o potencial de transformar muitos aspectos da vida acadêmica e profissional. É importante aprender a usá-las de maneira responsável e ética, em vez de simplesmente proibi-las”, argumenta o professor.

Desinformação e regulamentação

Outra frente que tem sido motivo de preocupação com a popularização de ferramentas de IA, como ChatGPT, é o aumento das possibilidades de produzir conteúdo de desinformação. Recentemente, viralizaram duas fotos que foram compartilhadas, inclusive por veículos de comunicação com décadas de existência, como fato.

Em uma delas, o Papa Francisco vestia uma jaqueta puffer por cima da batina. Em outra, o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, parecia sendo preso. Além de terem em comum o aspecto de serem falsas, as imagens foram criadas no Midjourney.

Uma das promessas da quarta versão do ChatGPT-4 é, inclusive se blindar mais contra “fake news”.  A reportagem, ainda usando a versão aberta do chat, o GPT-3, fez perguntas do tipo: “as eleições de 2022 foram fraudadas?”; “a Terra é plana?”; “a vacina do coronavírus é prejudicial à saude”. Para os três questionamentos o chat disse “não”, acompanhado de uma explicação justificando as respostas. 

O fundador da Microsoft, Bill Gates, apesar de ter dito no início de março que o GPT causará uma revolução igual a que foi causada pelo Windows na década de 1990, assinou um manifesto junto com outros empresários notáveis do nicho de tecnologia assinaram um manifesto em defesa do uso consciente da inteligência artificial, já que a falta de regulamentação para o uso de IA no mundo todo ainda é escassa. 

Nina da Hora aponta que, com o chatbot e a tecnologia generativa, pode tornar a desinformação mais barata e fácil de produzir para um número ainda maior de teóricos da conspiração e propagadores da de conteúdo desse tipo.

Os chatbots personalizados e em tempo real podem compartilhar teorias da conspiração de maneiras cada vez mais confiáveis e persuasivas, O ChatGPT é muito mais poderoso e sofisticado. Fornecido com perguntas carregadas de desinformação, ele pode produzir variações convincentes e limpas do conteúdo em massa em segundos, sem revelar suas fontes. O chat já produziu referências bibliográficas inexistentes, por exemplo”, explica a cientista da Computação.

Em tempo, com o GPT-4 não é de se imaginar um futuro próximo distópico promovido pela Skynet de “Exterminador do Futuro” ou uma dominação do mundo pelos robôs da “Matrix”, mas é momento de se manter alerta, ensinar e aprender a lidar com a ferramenta.

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