VESTIBULAR
Educadores qustionam o método das "aulas-show"

Por Felipe Paranhos
“Pra não ficar doido, é só entender: soma as orelhas e tira a cabeça; cabeça que faz somando o de dentro; e se eles são iguais o desvio é pequeno”. Versos como esses podem soar incompreensíveis para o leitor, mas, ao menos para o professor Marival Chaves, são a solução para o fácil aprendizado da tão temida física.
Marival é um exemplo do que pode ser chamado de professor-show: rejeita o modo tradicional de ensinar e inclui elementos artísticos [música, teatro, cinema] nas aulas. Ele mesmo não rechaça o rótulo. “Minha aula tem música e teatro. Faço o cruzamento entre lúdico e conteúdo”. Na sala de aula, Marival é cantor. Fez 22 músicas sobre os mais diferentes assuntos da física, da mecânica e termodinâmica à óptica [caso do versinho acima, sobre o efeito de refração da luz]. Para ele, as canções ajudam a fixar o assunto e diminuir o medo das fórmulas. “Quando o aluno canta, ele grava a fórmula. Depois, no vestibular, é só buscar a música na cabeça”, diz.
Efêmero – Na psicologia educacional, explica a pedagoga Márcia Fontes, o procedimento usado por Marival é chamado de motivação extrínseca. “O educador associa um conteúdo que julga complexo a algo naturalmente prazeroso, como a música”. Mas, na opinião de Fontes, o aluno dificilmente aprende assim. “A apreensão do assunto só costuma durar o tempo do prazer. Ou seja, o conhecimento só foi útil enquanto estava vinculado à musiquinha”.
A estudante Elissandra Costa, 27, gosta de assistir às aulas de Marival no cursinho Pré-Nordeste, no Nordeste de Amaralina. Ela se diverte. “Ninguém aqui perde a aula dele”, garante. Mas e aí, dá para aprender mesmo? “Tô estudando, mas, pra saber se aprendi, só no vestibular, né?”, desconversa. Uma semana depois da aula de óptica, Elissandra tinha todas as musiquinhas na memória. Já as fórmulas...
É por isso que Lorena Fernandes, 17, prefere aulas “tradicionais”. A aluna do 2º ano do Colégio Oficina acha que, antes do 3º ano, quando a ansiedade com o vestibular não é tão grande, os professores devem se voltar para o assunto e não para “amenidades“. ”Não precisa ser sisudo, mas também não pode só descontrair. Já tive um professor bem assim, que brincava o tempo todo e eu passei o ano sem aprender nada”. Marival se defende, em sala: “Não adianta cantar e dançar sem prestar atenção”.
Atuação – O professor Gerson Guimarães é outro a assumir o título de professor-show. Seu método, denominado História Cantada, mistura conteúdo, música e teatro. Nas aulas, ele interpreta personagens históricos, como soldados da Guerra do Vietnã ou fidalgos da época da Revolução Francesa. Tudo para que a aula pareça um espetáculo.
“O quadro e o giz são ferramentas do século 19. É impossível, na era da internet, prender o aluno com um método que não faz mais sentido". Gerson, porém, assume que não basta ouvir a música para estar preparado para o vestibular. “O objetivo não é que o aluno se aprofunde por meio da minha dramatização, mas que ele se interesse pelo assunto. Tudo o que faço é para que, quando ele abra o livro, saiba quem foi Michelangelo, o que é a Pietà".
Para o coordenador da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília [UnB] Paulo Bareicha, métodos desse tipo, se bem feitos, funcionam. "O professor de pré-vestibular é, muitas vezes, um performático. Assim, ele subverte os rótulos de CDF ou de bagunceiro dados ao aluno e chama a atenção para o seu papel. Essa excentricidade deixa o estudante mais atento". Bareicha sabe que nem todos os que tentam inovar o fazem com eficiência.
“Na formação de professor, quase não são ensinadas didáticas alternativas. Por isso, muitas vezes ele não está pronto para fazer bem uma abordagem desse tipo“. Ele acredita que novas metodologias de ensino podem coexistir com a didática tradicional. “O ensino pode ser performático sem ser superficial; competente sem ser sisudo“.
Física, dança e duplo sentido - Antes da chegada do professor Marival, os alunos do cursinho Pré-Nordeste conversam animadamente em suas carteiras. Em meio a opiniões positivas e negativas sobre o professor que acabara de sair, um aluno diz, empolgado: “Agora sim, chegou o professor! Não entendo nada de física, mas dou risada como o quê!“
Sem ouvir o comentário, irrompe Marival. Sorriso no rosto, cumprimentos a todos. Enquanto os alunos se acomodam nas carteiras, começa a escrever a letra da canção do dia. Assim que termina de anotar os versos no quadro, diz à turma: ”Aula boa é assim: deixa o aluno curioso logo na entrada. Tá todo mundo querendo saber o que vai entrar em vocês, né?” A platéia cai na risada.
O professor explica o que é refração, balbucia acordes e dança naquele jeitão desengonçado. Mais risadas. Cada tópico do assunto é um motivo para entreter. O prisma [na verdade, um triângulo] desenhado no quadro vira um rosto com olhos, orelhas, nariz e boca. Para calcular o desvio mínimo do raio de luz que trespassa o prisma, Marival recorre à musiquinha do começo dessa matéria e diz que teve a idéia da canção “meio-dia, quando comia um almoço barato”. A turma marca compasso com palmas e tapas nas carteiras.
Após deixar os alunos cantarem a música sozinhos, o professor escreve uma questão no quadro e pede que a resolvam. Com as fórmulas se chegava a um ângulo – 30° – de desvio mínimo. Sendo assim, perguntou que valores seriam possíveis para o desvio. Compreensível que os estudantes recorressem à música para responder a questão. Um descuido na letra acabou induzindo grande parte dos alunos ao erro. A música fala em desvio pequeno, e não mínimo. Assim, os alunos respondem os menores ângulos: 2°, 15°, 18°. Depois de sucessivas respostas erradas, Marival dá o gabarito e a aula acaba. Fica a impressão de que, ao menos nessa aula, os alunos saem da mesma forma que entraram: felizes, mas ainda confusos com a física.
Carnaval - A aula é do professor Yomar Seixas, de geografia, e dos convidados Abude [física] e Caio Moreno [biologia]. Atrás deles, um telão transmite animações sobre aquecimento global, o tema do dia. Os três interagem entre si e com a platéia com perguntas e piadas. É mais uma edição do curso Ciências Humanas, que leva cerca de 400 alunos ao Teatro Jorge Amado, na Pituba.
Além de Yomar, os professores Zé Carlos Bastos [literatura] e Ricardo Carvalho [história] comandam o evento. Os três divulgam o projeto nas escolas e cursinhos particulares onde ensinam e fazem das aulas uma confraria de vestibulandos dos maiores colégios de Salvador. Para Ricardo Carvalho, haver tantos alunos na platéia não diminui a eficácia das aulas. “Apesar do discurso e performance de comunicador, nosso foco é no conteúdo”.
Na avaliação da pedagoga Márcia Fontes é difícil dar uma boa aula a tanta gente. “No ensino médio, os agrupamentos não podem ser muito grandes, devem ter no máximo 50 alunos. Acima disso, é Carnaval”. Ricardo acredita que, para atingir um número de alunos tão grande, a tecnologia é um trunfo. “Quem não acompanha as mudanças fica para trás. Mas a modernidade tem de andar junto à didática, pois a tecnologia pura é vazia”.
Para Márcia Fontes, o modelo de telecurso é a prova de que é possível aliar estudo e tecnologia. Ela defende que as aulas-show podem ser proveitosas, mas não confia no ensino para multidões. “Eu não gostaria de ser aluna de um cursinho com 200 alunos na sala”.
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