O que era uma promessa de organização no Aeroporto de Salvador confirmou-se, na prática, como um cerco financeiro através do novo sistema Kiss & Fly. O modelo de acesso não apenas taxa o tempo de permanência, mas estabelece uma estrutura de monopólio que ameaça extinguir o táxi comum no terminal, criando uma lógica de "quem não paga, não trabalha" dentro do serviço público de transporte.
“Agora eles estão querendo obrigar que os taxistas façam parte desse processo que exige R$ 100 mil de caução (de cada cooperativa) e mais R$ 30 mil por mês. A categoria não tem condição de pagar isso”, revela Denis Paim, presidente da Associação Geral dos Taxistas (AGT), afirmando que o modelo não reorganiza o sistema, mas expulsa quem atua no local há anos.
"Tivemos uma reunião no início do ano passado com o administrador da Vinci, onde eles relataram para a gente que iriam cobrar e só iriam ficar no aeroporto quem pagasse. Quem não pagasse, não teria esse acesso", lembrou.
Enquanto a concessionária Vinci Airports fala em "fluxo", os números obtidos pela reportagem do portal A TARDE revelam a face da exclusão, com cifras que sufocam os profissionais independentes e favorecem apenas grupos de grande poder aquisitivo.
O impasse expõe uma realidade alarmante para quem depende do terminal, com a implementação prevista para operar plenamente a partir de 1º de junho.
Em resumo, os principais pilares dessa barreira financeira identificados pela nossa equipe são:
- Taxa de meio-fio: cobrança de R$ 18,00 para quem exceder 10 minutos na área de embarque e desembarque.
- Barreira de entrada: exigência de R$ 100 mil de caução das cooperativas para operar no modelo de contrato com o terminal.
- Custo mensal fixado: mensalidades que saltaram de R$ 15 mil para R$ 35 mil no caso de cooperativas, um aumento superior a 100%.
- Inviabilidade tarifária: o custo do acesso (R$ 18 a R$ 20) recai sobre o taxista, que não pode aumentar o valor do taxímetro, regulado pela prefeitura.
Concorrência desleal e privilégios
Outro ponto central da crítica é o que os taxistas classificam como desequilíbrio entre táxi comum, táxi especial e o transporte irregular. O novo sistema parece solidificar um abismo onde os "pequenos" são as maiores vítimas.
“Já existe um conflito entre o táxi comum e o táxi especial… isso gera impasse, porque os táxis especiais podem ficar ali na frente pedindo corrida, enquanto o táxi comum não pode”, revela o taxista.
A ausência de fiscalização sobre o transporte clandestino também é citada como agravante: “O transporte clandestino atua livremente e a prefeitura não fiscaliza”, denuncia.
Impacto direto no passageiro
Embora a disputa esteja concentrada entre categorias e gestão do aeroporto, os taxistas afirmam que o impacto real será sentido pela população. "Eles precisam entender que esse modelo que estão implantando no aeroporto vai prejudicar a população. O passageiro precisa de comodidade", explicou Paim.
O presidente da AGT alerta para um possível caos operacional: "Ali pode virar um colapso, dependendo dos horários. O passageiro vai sair com pressa, vai esquecer pertences, vai correr pelo aeroporto para não perder o voo ou para não ter que pagar taxas extras".
O silêncio e as contradições
Embora Julio Ribas, o CEO da Vinci Airport no Brasil, tenha afirmado que o modelo não terá finalidade arrecadatória e ainda não tem valor definido, Denis Paim reafirmou o que a matéria do A TARDE, do dia 3 de março, já havia revelado.
"Na reunião falaram R$ 20 se passar de 10 minutos, paga cheio. Mas, agora parece que caiu para R$ 18. Tudo indica que será isso".

Para os taxistas, a crise no aeroporto de Salvador ultrapassa a disputa tarifária e expõe quem realmente tem o direito de operar nos pontos de mobilidade da cidade.
“Vai haver impasse entre colegas, mas parece que é isso que os poderes públicos permitem: que os pequenos briguem entre si, enquanto os grandes não são afetados”, finaliza Paim.
O que diz o Salvador Bahia Airport
Em nota envidada ao portal A TARDE, o Salvador Bahia Airport alegou que o embarque e desembarque de passageiros é permitido a qualquer veículo, dentro das regras do projeto Kiss & Fly, sem cobrança de taxa para acesso ao meio-fio.
Além disso, a empresa diz ainda que um bolsão de apoio para motoristas de aplicativos, táxis e vans de turismo está em fase final de implantação e contará com infraestrutura adequada e dedicada ao controle de acesso, sanitários, área de apoio e serviços de conveniência, visando melhorar a organização e o fluxo das solicitações de passageiros que utilizam o terminal.
"É importante esclarecer também que o aeroporto mantém contratos com cooperativas de táxi e diálogo contínuo com diferentes operadores, garantindo uma operação segura e equilibrada. Como parte do modelo operacional, será implementado um sistema de credenciamento e acompanhamento de motoristas e operadores, com foco na qualidade do serviço, segurança e cumprimento das normas", diz outro trecho da nota.
A empresa defende também que as condições comerciais seguem critérios técnicos e proporcionais, alinhados às práticas de mercado, e os valores citados em denúncias não refletem a realidade das negociações em andamento.
"Por respeito aos parceiros, a concessionária não divulga detalhes contratuais, mas reforça que contratos podem prever garantias, devolvidas ao término conforme condições estabelecidas. O Salvador Bahia Airport reafirma seu compromisso com a transparência, o diálogo com todos os stakeholders e a melhoria contínua da experiência de passageiros e operadores", finaliza a nota.
Perguntas Frequentes (FAQ) sobre o Kiss & Fly
O que é o sistema Kiss & Fly no Aeroporto de Salvador?
O Kiss & Fly é um novo modelo de acesso à área de embarque e desembarque do terminal. Ele prevê regras de permanência rápida no meio-fio, com cobrança de taxas para veículos que ultrapassarem o tempo limite de 10 minutos.Qual o valor da taxa de permanência para taxistas?
Segundo denúncia da Associação Geral dos Taxistas (AGT) ao portal A TARDE, a previsão é que seja cobrado um valor de R$ 18,00 para quem exceder 10 minutos e R$ 20,00 por hora de permanência.Quando as cobranças começam a valer no Aeroporto?
O sistema entrou em fase de testes no último dia 7 de abril. A previsão é que a cobrança oficial e definitiva comece a partir do dia 1º de junho de 2026.Por que os taxistas falam em "monopólio" e "exclusão"?
A categoria denuncia que a Vinci Airports exige um caução de R$ 100 mil e mensalidades de até R$ 35 mil para que os profissionais operem com exclusividade em vagas delimitadas. Para os taxistas comuns, esses valores são considerados uma barreira financeira que inviabiliza o trabalho.Como o passageiro será afetado pelo novo sistema?
Além do risco de repasse de custos, os taxistas alertam para o desconforto e pressa no desembarque. Há receio de que passageiros corram para evitar taxas extras, aumentando o risco de esquecimento de pertences e confusão nos horários de pico.O taxista pode cobrar a taxa de estacionamento do passageiro?
Não. O táxi é um serviço regulamentado pela Prefeitura de Salvador e o valor da corrida é aferido estritamente pelo taxímetro. Por isso, a categoria afirma que o custo da taxa de acesso ao aeroporto acaba sendo absorvido integralmente pelo motorista, reduzindo drasticamente o lucro da corrida.Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
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