Depois de mostrar como trilhos, avenidas e grandes obras vêm redesenhando a mobilidade urbana, a série especial “Salvador 4.7.7 — A Capital do Futuro” avança agora para um território menos visível, mas igualmente estratégico: a saúde, outro pilar de Smart City. Se a infraestrutura molda a cidade por fora, é dentro de centros cirúrgicos e laboratórios que a capital baiana começa a projetar seu nome no cenário internacional.
A cidade, que já foi berço da primeira faculdade de medicina do Brasil, retoma o seu protagonismo global em iniciativas que vão da formação de cirurgiões com tecnologia robótica de ponta à participação em pesquisas que podem redefinir a prevenção de doenças infecciosas.
Este é um movimento que reposiciona a cidade não apenas como polo assistencial, mas a torna referência na produção de conhecimento, inovação médica e desenvolvimento de medicamentos.
O primeiro centro robótico com cadáveres frescos da América Latina
A cena ainda causa estranhamento para quem não está habituado: o cirurgião não está diretamente sobre o paciente, mas sentado em um console, comandando braços robóticos com precisão milimétrica. É esse cenário que começa a se consolidar em Salvador com a chegada de um centro inédito na América Latina.
Inaugurado no último dia 12 de março, o Instituto de Anatomia Robótica e Treinamento (IART), em parceria com o Instituto de Treinamento de Cadáveres (ITC), coloca a cidade na linha de frente da formação em cirurgia robótica. O diferencial está na combinação rara: tecnologia avançada e treinamento em cadáveres humanos frescos.
Trata-se de uma estrutura que integra tecnologia de ponta, prática anatômica realista e ensino estruturado para diversas especialidades, como urologia, ginecologia, cirurgia colorretal, torácica e cardíaca.

O "toque" do cadáver fresco e a tecnologia chinesa
O diferencial não é apenas a máquina, mas a fidelidade do treinamento. Ao utilizar o sistema fresh frozen (cadáver fresco congelado), o instituto oferece aos cirurgiões a textura, a resistência e a consistência reais do tecido humano, algo impossível nos modelos conservados em formol.
"A gente está acostumado a conservação em formol, isso traz muita alteração em consistência, em característica, em visual dos tecidos, e seria uma coisa que seria inviável de fazer. Então, essa maneira de congelar os cadáveres é que permite manter essa realidade e durabilidade, a consistência e a aparência vai ser muito similar a um ser humano vivo”, explica Leonardo Calazans, urologista, cirurgião robótico e coordenador científico do IART.
A plataforma escolhida, a MedBot Toumai, é uma gigante chinesa que simboliza a democratização da técnica. Com a quebra de patentes, novos players entram no mercado para baixar custos.
"O grande diferencial desta plataforma é, primeiro, entrar com competitividade quando se fala de preço, mantendo a qualidade e os benefícios. Ela tem uma grande vantagem de já ter um módulo que permite a realização de telecirurgia, ou seja, eu consigo operar um paciente aqui de Salvador, mesmo ele estando lá, em outro país, em outro estado, onde quer que seja", revela o médico.
Leia Também:
A precisão do "erro zero"
O urologista explica que o primeiro passo ainda é desfazer um mito comum entre pacientes. “Uma coisa que a gente fala para o paciente que vai ser operado por robô, primeiro tem que esclarecer que não é o robô que vai operar. O robô é só um instrumento onde o cirurgião vai controlar para que possa oferecer a precisão. Todas as plataformas robóticas são cercadas de mecanismos de segurança", explica o médico.

Embora a tecnologia chinesa utilize fibra ótica e ofereça uma visão tridimensional magnificada, o urologista faz questão de humanizar o processo. O robô não opera sozinho; ele é a extensão da sensibilidade do médico.
O robô é só um instrumento onde o cirurgião vai controlar para que possa oferecer a precisão. Então, ele não vai cometer falha. Se eu estou operando, por exemplo, espirro e faço esse movimento brusco, o robô trava. Ele vai filtrar o tremor, que é essencial e natural do ser humano. Por isso, a margem de tolerância de erro é zero.
Para Calanzas, essa precisão se traduz em dignidade: cortes menores, menos dor, alta precoce e a preservação de funções vitais, como a continência urinária e a potência sexual em cirurgias de próstata. É a tecnologia garantindo que o pós-operatório não seja um fardo, mas um retorno rápido à vida plena.
Salvador como hub de ensino global
O pioneirismo de Salvador rompe barreiras geográficas e preconceitos históricos. Ao atrair profissionais de toda a América Latina, a capital baiana inverte o fluxo do conhecimento médico no Brasil.
“Trazer isso para o Nordeste, que é um estado que geralmente é visto com outros olhos por quem é do Sul, é uma grande vitória. Vai ser um hub de ensino, com gente vindo de todo o Brasil e da América Latina. No primeiro curso, das oito vagas, três foram para estudantes de fora do Brasil. São pessoas que não viriam para Salvador e que estarão conhecendo, divulgando e atraindo mais gente”, pontua Calazans.
Os cursos são voltados não apenas para médicos experientes, mas também para residentes, estudantes e equipes multiprofissionais, incluindo enfermeiros, técnicos e instrumentadores cirúrgicos, ampliando o alcance da formação. A lógica é clara: formar toda a cadeia envolvida na cirurgia robótica, não apenas o cirurgião.
Prevenção do HIV: Salvador no mapa da vacina anti-aids
Se na formação médica Salvador já se destaca, na pesquisa científica o protagonismo também é evidente. A Bahia participou de um dos estudos mais promissores do mundo na prevenção do HIV: o desenvolvimento do Lenacapavir, um medicamento injetável de longa duração.
Atualmente, a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) exige uma pílula diária, o que muitas vezes compromete a eficácia devido ao "esquecimento" ou cansaço do paciente. O Lenacapavir muda o jogo: é uma injeção subcutânea aplicada apenas duas vezes ao ano. No organismo, ele forma um pequeno nódulo (polímero) que libera a droga gradualmente por seis meses.
O estudo Purpose 2, conduzido na Fundação Bahiana de Infectologia, contou com a participação de quase 100 voluntários e apresentou resultados que a comunidade científica classificou como "extraordinários".
“[O estudo] Foi publicado no final de 2024 pelo New England Journal of Medicine, que é uma das revistas mais importantes do mundo em publicações científicas em medicina, e foi considerada pela revista Science como o artigo do ano. Isso porque mostrava de uma maneira única que uma medicação era capaz de praticamente evitar que houvesse transmissão do HIV com uma injeção a cada seis meses", disse Carlos Brites, professor titular de Infectologia da Faculdade de Medicina da Bahia (FMB-UFBA) e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Infectologia (LAPI) do Hupes/UFBA.

O estudo multicêntrico, com participação internacional e centros brasileiros, incluindo a Bahia, apresentou resultados impressionantes:
- eficácia superior a 99% comparada com a profilaxia oral padrão (Truvada)
- redução de até 96% nas infecções
- adesão acima de 90% dos participantes
O marco do HTLV: Salvador lidera tratamento inédito no mundo
Talvez o aspecto mais humanizado desta reportagem resida na pesquisa liderada por Carlos Brites sobre o HTLV-1, um vírus endêmico que causa a paraparesia espástica (uma paralisia progressiva das pernas que gera rigidez e perda de mobilidade). Por décadas, não houve tratamento específico.
Um ensaio clínico pioneiro realizado na Fundação Bahiana de Infectologia testou o uso do Dolutegravir (já utilizado para HIV) em pacientes com HTLV-1. O estudo com 83 voluntários provou que o medicamento reduz a carga viral e melhora sintomas neurológicos cruciais, como a espasticidade, a sensibilidade e a frequência urinária (noctúria).
A análise clínica provou que a droga reduz a carga viral e melhora sintomas como a espasticidade e a sensibilidade, devolvendo autonomia a quem já não tinha esperança de tratamento específico.
“É o primeiro tratamento no mundo com um antirretroviral que se mostrou efetivo contra o HTLV. Nós utilizamos uma droga que já existe na rede pública e que não se achava que funcionasse para o HTLV. Mas eu sempre acreditei. O estudo foi julgado tão importante que mereceu um editorial específico dizendo que é uma nova era no tratamento desses pacientes, que até então não existia nenhum tratamento efetivo”, celebra Brites.
A pesquisa desafia a ideia de que o vírus persiste apenas por expansão das células; ela prova que há replicação ativa, e que combatê-la pode evitar danos neurais irreversíveis.

Democratização e incorporação da saúde pública
Para que Salvador seja, de fato, a "Capital do Futuro", a análise final recai sobre a democratização do acesso. A tecnologia robótica e os novos medicamentos injetáveis ainda enfrentam o gargalo do custo e da vontade política para integração total ao Sistema Único de Saúde (SUS).
No mercado internacional, o preço anual do Lenacapavir pode ultrapassar R$ 100 mil para uma pessoa aplicar duas injeções por ano. "Toda vez que surge um tratamento ou um medicamento novo, ele passa por uma série de etapas no governo federal que vão definir se será incorporado ou não. Nesse momento, a indústria está fazendo essas etapas", explica Carlos Brites.
Para o urologista Leonardo Calazans, a cirurgia robótica não é o futuro, é a realidade presente que precisa chegar à população geral através do SUS.
“Se eu opero com robô, gasto menos tempo de internamento, tenho menos infecção e menos sequelas. No fim das contas, você está até economizando ao investir na robótica. Mas o sistema público depende de vontade política. Espero que essas barreiras sejam quebradas para que a cirurgia robótica seja acessível a todo mundo", conclui.
Salvador completa 477 anos não apenas celebrando seu passado, mas operando o presente para garantir um amanhã onde a alta tecnologia e a empatia caminhem juntas. A ciência global, hoje, passa obrigatoriamente pelo solo e pelo talento da Bahia.
Como Smart City, o gênio inventivo se expande para outros setores. Além da saúde, ele transborda para as ladeiras, para os circuitos da folia e para o universo digital dos pixels e joysticks.
Neste sábado, 28, na sétima reportagem da série especial Salvador 4.7.7 — A Capital do Futuro, o portal A TARDE revela como a tecnologia está "hackeando" a nossa maior riqueza: a cultura. Vamos mostrar como o Carnaval de Salvador se transformou em um laboratório de experiências imersivas e dados em tempo real, e como a crescente indústria de games na Bahia está transformando a criatividade ancestral em um dos negócios mais promissores da economia digital.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes


