SALVADOR 4.7.7
Silicon Valley? Saiba como o Comércio está virando o Polo de Inovação de Salvador
Segunda reportagem da série Salvador 4.7.7 mostra planos para reativar área histórica

Dando continuidade à série especial "Salvador 4.7.7 — A Capital do Futuro", o Portal A TARDE desembarca hoje no bairro do Comércio. Após detalharmos como o novo Centro de Comando e a inteligência de dados estão redesenhando a cidade, o segundo capítulo da nossa jornada foca na transformação do território e na ocupação de espaços históricos pela tecnologia.
Por anos marcado pelo esvaziamento e pelo abandono de imóveis históricos, o bairro do Comércio, em Salvador, começa a ganhar novos contornos. A combinação entre políticas públicas de reocupação urbana e a instalação de polos de tecnologia e economia criativa tem reposicionado a região como um emergente “distrito de inovação” da capital baiana.
O movimento, que ganha força no contexto do Aniversário de Salvador, é impulsionado tanto por iniciativas públicas quanto por equipamentos como o Doca 1 – Polo de Economia Criativa e o Hub Salvador, localizados na Avenida da França, que têm atraído startups, empreendedores e profissionais ligados às novas economias.
Do abandono à reocupação
Segundo o historiador Vitor Porto, o cenário atual é resultado de um processo histórico de esvaziamento. Em entrevista ao Portal A TARDE, ele destacou que o Comércio sempre teve vocação comercial, mas perdeu protagonismo ao longo das décadas.
“Hoje, o centro da cidade está muito mais localizado na região do Iguatemi, que conecta várias áreas de Salvador. O Centro Histórico e a região do Comércio ainda preservam essa característica histórica e comercial, mas o centro da capital baiana já mudou”, explica.

A consequência foi o abandono de casarões, muitos deles sem manutenção e em avançado estado de deterioração. “Isso também acarreta a falta de manutenção dos casarões. Eles foram, de certa forma, congelados no tempo, inclusive, em seu estado de deterioração. Faltou manutenção e também uma atuação mais efetiva do poder público na preservação desses imóveis da região do Comércio”, completa.

Em busca de mudar esse cenário, a Prefeitura de Salvador publicou decretos que autorizam a encampação de imóveis abandonados no bairro. Ao todo, são 36 inscrições imobiliárias que correspondem a 17 imóveis, que podem passar para posse do município caso os proprietários não se manifestem.
A medida integra o Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), que prevê investimentos estruturantes na região.
Moradia para devolver vida ao bairro
Um dos pilares da revitalização é a reocupação habitacional. A proposta é transformar os andares superiores dos casarões em unidades residenciais, mantendo o térreo com uso comercial.
De acordo com a presidente da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), Tânia Scofield Almeida, a iniciativa busca resolver dois problemas simultaneamente: o déficit habitacional e o abandono de imóveis históricos.
“Boa parte desses casarões foram abandonados, muitos em estado de degradação. A ideia é justamente aproveitar esses imóveis degradados e desocupados, já que muitos deles hoje têm praticamente apenas a fachada, com o interior bastante arruinado. O objetivo é utilizá-los em um programa de habitação, mas devido à quantidade, essa é apenas a primeira etapa do projeto”, afirma.
De acordo com Tânia, a primeira fase do projeto prevê cerca de 25 imóveis e aproximadamente 350 unidades habitacionais, com apartamentos de um e dois quartos, além de estúdios. A expectativa é que as intervenções comecem a partir de 2027.
“A gente tem uma máxima que eu acho super importante, que é a seguinte: é gente sem casa e casa sem gente. Tem uma demanda grande para ser atendida e o número de imóveis abandonados sem uso e sem atender a função social da propriedade”, afirmou.
De acordo com o projeto, o público prioritário será de servidores municipais, já que a maior parte das secretarias funciona na região. A proposta inclui tanto venda quanto locação social, voltada a servidores de menor renda.

Para o diretor do Prodetur, Iuri Mattos, a habitação é peça-chave para devolver vitalidade ao bairro. Ele ressaltou ainda o desafio da ocupação noturna na região. “Hoje, após as 18h, o Comércio fica vazio. A gente quer trazer vida, relações sociais e sentimento de pertencimento. Não basta só requalificar espaços, é preciso ter gente morando”, afirma.
“A ideia é ter unidades habitacionais nos andares superiores, primeiro, segundo, terceiro, e, no térreo, um uso misto, com comércio, serviços e varejo. Hoje, o Comércio tem atividades que não dialogam com a moradia. Você não vê padaria, academia, lavanderia. Então, a gente também vai orientar esses usos no térreo para atender essa nova dinâmica”, explica.

Segundo Iuri, o planejamento vem sendo estruturado há anos para reposicionar o bairro. “A gente vem ao longo do tempo desenhando esse projeto para potencializar o Comércio, que é uma das regiões mais históricas e visitadas da cidade. O programa de habitação está na Secretaria de Cultura e Turismo justamente por isso: estamos usando a moradia para fortalecer o destino turístico”, diz.
“É uma série de investimentos para devolver ao Comércio a força que ele já teve no passado, como um bairro pujante que todos nós conhecemos”, concluiu.
Tecnologia e inovação
Paralelamente à política habitacional, o bairro tem se consolidado como um polo de inovação. O Hub Salvador é um dos principais catalisadores desse movimento. Coordenador executivo do espaço, Antônio Melo da Rocha Júnior explica que o equipamento funciona como um articulador de conexões entre empresas, universidades e empreendedores.
“O Hub é uma porta de acesso para quem quer trabalhar com tecnologia e inovação. Aqui, as pessoas encontram parceiros, capacitação, financiamento e oportunidades para desenvolver projetos”, afirma.

O espaço abriga iniciativas em parceria com instituições como o Instituto Federal da Bahia (IFBA) e o Banco do Nordeste, além de promover programas de aceleração, capacitação tecnológica e inclusão digital.
Entre as ações, estão projetos voltados a idosos, jovens de comunidades e grupos historicamente sub-representados, como mulheres e população LGBTQIA+.
“A ideia é democratizar o acesso à inovação e trazer mais gente para o ecossistema. A gente amplia a possibilidade e com isso a gente traz todo esse movimento de pessoas que não são só do comércio, mas também de fora para vir visitar o espaço e para participar das atividades”, diz.

Segundo Antônio, além de fomentar negócios, o Hub impacta diretamente o entorno, como na produção de grandes eventos que chegam a reunir centenas de pessoas, movimentando restaurantes, hotéis e serviços da região.
“A proposta é justamente essa: povoar e trazer movimento para o Comércio, contribuindo para a revitalização. O Hub atrai empresas de toda a Bahia e até de outras partes do Brasil. Quando realizamos eventos, há uma movimentação interna, mas também externa — as pessoas passam a consumir no entorno, frequentar restaurantes e se hospedar na região. É uma dinâmica diferente da turística tradicional; é uma movimentação gerada pela inovação e pela tecnologia”, explica.
Economia criativa em rede
Outro destaque é o Doca 1, que atua como um polo de economia criativa integrado ao chamado Distrito Criativo do Comércio. Segundo a gestora Claudia Varjão, o espaço foi concebido como uma rede colaborativa.

“Atuamos por meio da ocupação de espaços de coworking, onde formamos uma rede de agentes criativos que colaboram entre si, gerando parcerias, projetos e eventos, desde ações institucionais até atividades culturais e gastronômicas. Também investimos na capacitação e aceleração de talentos, além da produção e difusão de conteúdos multiplataforma, especialmente nas áreas de audiovisual e música”, explica.

A atuação do equipamento também está alinhada a uma estratégia mais ampla de desenvolvimento territorial. “Trabalhamos também de forma integrada ao Distrito Criativo do Comércio, que é uma iniciativa da prefeitura de Salvador de impulsionamento dos equipamentos culturais da região do Comércio, de modo a criar um Distrito onde todos sejam contemplados e façam construções para o bairro, mas também para Salvador”.
Claudia ainda ressalta que o espaço também se sustenta por meio da realização de eventos, que representam cerca de 44% da receita, ao mesmo tempo em que contribuem para a movimentação do bairro.

“Somos o primeiro polo criativo público-privado do Brasil e temos como base o trabalho em comunidade, criando um ecossistema colaborativo onde os agentes se fortalecem mutuamente”, conclui.
A revitalização do Comércio revela uma Salvador que tenta curar as cicatrizes do abandono histórico através da tecnologia e do repovoamento urbano. Ao transformar casarões em lares e hubs de inovação, a cidade não apenas preserva sua fachada, mas injeta dinamismo em uma economia que agora pulsa em rede. O desafio, contudo, vai além: para sustentar esse ecossistema digital, é preciso investir no capital humano que irá operar essas ferramentas nos próximos anos.
Nesta terça-feira, 24, a terceira matéria da série "Salvador 4.7.7 — A Capital do Futuro" avança para o pilar que sustenta toda essa transformação: a Educação. Vamos mostrar como escolas e faculdades da capital estão ensinando robótica, inteligência artificial e programação para jovens de comunidades, preparando a nova geração de baianos para o mercado global e para o Parque Tecnológico Aeroespacial da Bahia.
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