ARTIGOS
Entre o sagrado e a violência
Assassinato de Mãe Bernadete expõe violência contra religiões de matriz africana

O assassinato de Bernadete Pacífico, ialorixá, liderança quilombola e referência na luta por direitos territoriais e igualdade racial, constitui um dos episódios mais emblemáticos da violência contemporânea dirigida a corpos negros, territórios tradicionais e práticas religiosas de matriz africana no Brasil. Executada com extrema brutalidade em agosto de 2023, no Quilombo Pitanga dos Palmares, localizado no município de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, sua morte evidencia a sobreposição de múltiplas vulnerabilidades: raciais, territoriais, religiosas e de gênero.
Quase três anos após o crime, o desfecho judicial foi alcançado com a condenação de dois réus submetidos a júri popular no Fórum Criminal Ruy Barbosa. A sentença reconheceu a materialidade e a gravidade do delito, classificando-o como homicídio qualificado por motivo torpe, emprego de meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima e uso de armamento de uso restrito. Um dos condenados também responde pelo crime de roubo. A decisão, proferida após dias de julgamento, representa um marco importante no enfrentamento à impunidade em casos de violência contra lideranças comunitárias, com atuação do advogado criminalista Hédio Silva Jr., um dos principais representantes da família de Mãe Bernadete na acusação do caso.
A reconstituição do episódio revela a dimensão do terror imposto. Na noite do crime, Mãe Bernadete encontrava-se em sua residência, acompanhada de três netos, quando homens encapuzados invadiram o imóvel. As crianças foram retiradas do ambiente e, em seguida, a líder religiosa foi alvejada com 25 disparos. O inquérito policial indicou que a execução teria sido ordenada por um chefe do tráfico atuante na região, evidenciando a complexa interseção entre violência urbana, disputas territoriais e a fragilidade da proteção estatal em territórios quilombolas.
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Contudo, a análise do caso não pode restringir-se à dimensão criminal. É fundamental situá-lo no contexto mais amplo da intolerância religiosa no Brasil, especialmente dirigida às religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, historicamente marginalizadas e alvo de violência simbólica e física. Nesse sentido, o assassinato de Mãe Bernadete ultrapassa a esfera de um crime isolado, configurando-se como expressão de um padrão estrutural de perseguição e deslegitimação de saberes ancestrais.
Sua trajetória reforça essa leitura. Além de ialorixá, foi liderança política e comunitária, atuando na promoção da igualdade racial. Sua militância era em defesa do território quilombola, a valorização das tradições afro-brasileiras e o enfrentamento ao racismo institucional. A memória de Mãe Bernadete permanece como símbolo de resistência, luta por justiça e afirmação de identidades no Brasil contemporâneo.
*Pós-doutor, professor e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ)
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