ARTIGOS
Entre Pontes e Cemitérios
A Fecomércio Bahia e o verdadeiro sentido da liderança


No dia 17 de junho de 2026, participei de mais uma reunião da Fecomércio Bahia, instituição à qual dedico parte significativa da minha trajetória há quase duas décadas.
Foi mais um daqueles encontros que, além das deliberações administrativas e institucionais, provocam reflexões profundas sobre liderança, convivência e responsabilidade coletiva.
A reunião foi conduzida pelo presidente Kelson Fernandes, contando com a presença dos conselheiros da Casa.
Após a aprovação das contas do exercício 2025/2026, o presidente encerrou sua manifestação trazendo a conhecida reflexão atribuída a Jorge Amado sobre o “cemitério” das relações humanas.
A metáfora é forte. Fala sobre pessoas que deixam de fazer parte de nossas vidas, sobre decepções, rupturas e relações que se encerram ao longo do tempo.
É uma reflexão legítima quando observamos a dimensão pessoal da existência humana.
Porém, ao deixar a reunião, uma pergunta permaneceu em minha mente: será que instituições podem ter cemitérios?
Acredito que não.
Pessoas têm o direito de escolher quem desejam manter em seus círculos de convivência.
Faz parte da liberdade individual. Mas instituições possuem uma missão muito maior do que preferências pessoais.
Elas existem para representar coletividades, acolher diferentes visões e construir caminhos comuns em benefício de todos.
A Fecomércio, assim como o Sesc, o Senac, os sindicatos empresariais e todo o Sistema Comércio, não pertence a indivíduos, grupos ou projetos pessoais.
Pertence aos empresários que a sustentam, aos trabalhadores que dela dependem e à sociedade que se beneficia de suas ações.
Por isso, quando uma eleição termina, não deveria existir a lógica dos vencedores absolutos e dos derrotados permanentes.
O resultado esperado deveria ser uma instituição fortalecida, capaz de reunir experiências, talentos e contribuições diversas em torno de um objetivo comum.
A divergência não é uma ameaça à democracia. Ela é sua essência. Onde todos pensam exatamente da mesma forma, não existe debate; existe submissão.
As instituições mais sólidas da história foram justamente aquelas que aprenderam a conviver com opiniões diferentes sem transformar adversários em inimigos.
Ao longo do tempo, muitos líderes passaram pelos cargos de representação empresarial.
Alguns deixaram marcas extraordinárias, outros enfrentaram críticas e desafios. Todos foram importantes em seu contexto.
Porém, nenhum deles foi maior do que a instituição que representaram.
A verdadeira liderança se revela exatamente nesse ponto. Liderar não é eliminar vozes discordantes.
Liderar é ouvi-las. Não é construir muros para separar pessoas. É construir pontes para aproximá-las.
Não é criar cemitérios simbólicos para aqueles que pensam diferente, mas abrir espaços para que diferentes perspectivas contribuam para o crescimento coletivo.
As árvores que produzem frutos recebem pedras. Essa é uma realidade inevitável para quem ocupa posições de destaque. Ser questionado faz parte do exercício da liderança.
O que distingue os grandes líderes não é a ausência de críticas, mas a capacidade de transformá-las em aprendizado e aperfeiçoamento.
Ao final de cada mandato, de cada eleição e de cada disputa, o poder passa. Os cargos passam. Os nomes passam. O que permanece é o legado construído.
E os maiores legados sempre foram deixados por aqueles que compreenderam que o respeito à divergência, a capacidade de diálogo e a construção de consensos são expressões elevadas de grandeza.
Que possamos continuar escolhendo o caminho das pontes. Porque instituições verdadeiramente fortes não são aquelas que silenciam diferenças, mas aquelas que transformam diferenças em oportunidades de crescimento, união e desenvolvimento coletivo.
*Juranildes Araújo, presidente do Sicomércio Camaçari e Região Metropolitana Empresária, líder associativista e defensora do diálogo como instrumento de transformação.