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Políticas públicas para expansão da agrofloresta na Bahia geram debate

Sistema se adapta a diferentes biomas e visa a recuperação de áreas degradadas com enriquecimento do solo

Miriam Hermes
Por Miriam Hermes
| Atualizada em
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Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil

A construção de agroflorestas na recuperação de áreas degradadas visa a abundância na produção de alimentos livres de agrotóxicos em um modelo que produz água, com captação de carbono e enriquecimento constante do solo. O sistema, embora ainda sem números oficiais, está se expandindo no estado, adaptado aos diferentes biomas e atendendo algumas das ações previstas no Plano ABC+ Bahia.

Com o tema ‘Construindo Diretrizes de Políticas Públicas para Agrofloresta’, o 1º Seminário Estadual de Agrofloresta da Bahia reuniu, em Poções, no início deste mês, além dos agrofloresteiros de todo o estado, pesquisadores e representantes de órgãos governamentais de diferentes esferas do poder.

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A abertura foi abrilhantada pelo produtor Ernest Götsch, criador do modelo que denominou de agricultura sintrópica. Trata-se de um sistema avançado de agrofloresta, com um olhar filosófico sobre a convivência entre os humanos e seu habitat com o máximo de harmonia e respeito, considerando organização, integração, equilíbrio e preservação da energia ambiental.

No encontro, que congregou diferentes elos dessa cadeia produtiva, foi promovida também uma feira de troca de sementes e intercâmbio de experiências, entre produtores que já adotaram ou estão querendo implantar este modelo agrícola.

Organizado pela Rede Baiana de Agroflorestas (RBA) com diversos apoios, o evento teve por meta discutir ações necessárias para ampliar as áreas com o modelo e unir forças a outros organismos com pautas semelhantes. Inicialmente focada em elaborar um manifesto ao governo estadual chamando a atenção para a necessidade de difundir este processo produtivo, a rede começou a ser gestada em setembro de 2023.

“Viemos para somar”, pontuou o coordenador da RBA, Nelson Araújo, destacando que o primeiro evento foi um sucesso, com a adesão de universidades, escolas técnicas, secretarias do estado como as de Ciência e Tecnologia (Secti) e de Desenvolvimento Rural (SDR), dentre outros órgãos, como a Companhia de Desenvolvimento Regional (CAR) e entidades como a Embrapa. “Juntamos muitos seguidores e cientistas que enxergam a agrofloresta como solução para diferentes problemas sociais, econômicos e ambientais”, destacou.

Para ele, o primeiro encontro estadual foi diferenciado, “porque foi uma reunião de pessoas que defendem e fazem agrofloresta. Que se movimentam pela construção da vida em todos os cantos da Bahia. Ficou claro que tem muitos produtores fazendo isso e foi bom o clima de irmandade que foi compartilhado”, enfatizou.

Os debates estão se transformando em relatórios, que deverão subsidiar a formatação de políticas públicas específicas, que estimulem o processo de transição para os produtores que queiram seguir por este caminho. Um próximo seminário está previsto para novembro, com foco específico na discussão técnico-científica do sistema produtivo que, segundo Araújo, é importante também para a recuperação de bacias hidrográficas e funciona na contramão do aquecimento global.

Mudança de visão

Entusiasta da causa, Nelson Araújo afirmou que o Plano ABC+ Bahia, lançado em junho, é positivo, dentre outras razões, por dar visibilidade e ampliar o debate acerca da agropecuária sustentável, sendo um aliado da causa da RBA. Entretanto, como agrofloresteiro ‘raiz’, ele disse que ainda é necessário “mudar de um modelo predominante de monoculturas de exportação para um sistema natural de produção de alimentos saudáveis sem agressões à natureza”.

Discípulo de Ernest Götsch, Araújo segue os fundamentos e teorias do mestre e não esconde a satisfação com os resultados que vem obtendo na sua área de agrofloresta batizada de Jardim Magnólia, na zona rural de Poções. No local, começou a recuperação da área degradada há dez anos. Sem irrigação, mesmo no semiárido, ela serve como modelo para outros produtores rurais.

De acordo com o chefe do Departamento de Formação e Apoio de Órgãos Colegiados da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional, (CAR/SDR), Marcelo Rocha, o governo estadual está atento à necessidade de ações nessa área e aos novos modelos agropecuários.

“As agroflorestas apontam um novo caminho para a produção de alimentos”, avaliou, acrescentando que o modelo tem grande potencial de gerar renda, “com a vantagem de recuperar terrenos degradados e enriquecer a biota”. No entanto, ele ressaltou que não existe um modelo traçado para todas as cadeias. “Tem as especificidades de cada lugar. Esse trabalho é mais complexo”, asseverou.

Envolvido na construção de políticas públicas para ampliar as áreas com agroflorestas em território baiano, Rocha enfatizou que a ideia é desenvolver os projetos com cada comunidade, a partir das demandas dos próprios produtores. Ele destacou que o seminário em Poções representou um salto na organização dos agrofloresteiros baianos e que o governo ouviu o segmento para avançar nesse trabalho.

‘Precisamos levar as crianças para o campo’, diz criador da agricultura sintrópica

Referência entre os agrofloresteiros ativos e admiradores de sistemas agroecológicos, o suíço Ernst Götsch está há 42 anos no Brasil. Há 40, começou sua labuta na área degradada e rotulada de ‘terra que não dá nada’, depois de usada e abandonada de 1952 até hoje. Essa área, batizada por Götsch de Fazenda Olhos D'Água, na zona rural de Piraí do Norte, região de Ilhéus, se transformou em exemplo para o mundo do sistema que ele criou e denominou de agricultura sintrópica.

Antes de se tornar referência entre pesquisadores e ambientalistas, no início da sua carreira ainda da Europa, Götsch, hoje com 76 anos, trabalhou com melhoramento genético de culturas comerciais. Foi nesse período que teve o primeiro contato com a agricultura convencional. Concluiu que seria mais inteligente focar nas condições favoráveis de produção e oferecer à planta o que é melhor para ela dentro da natureza. Deu, então, uma guinada no rumo da vida, conhecendo sistemas diferenciados.

A propriedade da família soma 480 hectares reflorestados por ele, que já chegou no Brasil depois de desenvolver pesquisas na área agroflorestal em outros países europeus e na Costa Rica. Atualmente, utiliza apenas 5 hectares para produção de cacau especial, seu carro-chefe no âmbito comercial.

Mantém na mesma área mais de 20 diferentes espécies de frutíferas e também produz diversos outros tipos de comida livre de agrotóxicos, com uma média de 2 mil árvores/ha. Como resultado natural, as nascentes voltaram a minar e, com a recomposição da flora, também a fauna nativa retornou.

Para ele, é necessário mudar a forma de pensar e sentir a vida. “Ao invés de nos perguntarmos o que podemos arrancar da terra, devemos pensar: o pode podemos fazer para que essa interação seja benéfica para todos os atingidos?”, orienta, satisfeito em constatar que o número de adeptos do sistema, de forma total ou parcial, vem crescendo, ainda que lentamente.

O modelo produtivo chamou a atenção de pesquisadores brasileiros e, desde os anos 1990, Götsch tem participado de projetos com cientistas de diversos órgãos. Nesta trajetória, ele participou do planejamento e execução de diferentes campos experimentais no Brasil e sempre deixou sua marca.

O estudioso destacou que não existe uma fórmula que se aplique a vários lugares e biomas e que o produtor ou profissional da área deve considerar todas as características da biota e elaborar um plano de ação, considerando que vegetais se desenvolvem em tempos distintos. Como principais manejos, ele apontou a poda e capina em momento certo para dar vigor às plantas e formação de adubo com as folhas decompostas, ressaltando que não usa irrigação.

Crianças no campo

Como um dos caminhos para potencializar o número de áreas que trabalham com sustentabilidade, pontuou, “precisamos levar as crianças para o campo, deixar que tenham essa interação com a natureza e se encantem com as descobertas”. Defendeu ainda que a ideia que valoriza o saudável seja reforçada nas escolas e que pais, professores e cuidadores devem proporcionar às crianças mais momentos ao ar livre. Recomendou maior difusão das tecnologias preservacionistas e criticou o pensamento de muitas famílias “que criam filhos para serem sabidos e não para serem sábios”.

“O que nos falta são pessoas treinadas para disseminar essas práticas”, afirmou Götsch, destacando que “o saber é o maior insumo” e que para chegarà alta produtividade, a chave principal é o conhecimento. Disse ainda que as pessoas em todo o mundo estão despertando para uma consciência ambiental e que essa parcela da população procura produtos sadios. Para Götsch, esta demanda deve crescer muito mais em todo o planeta.

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