ATLASINTEL/A TARDE
Empresários baianos alertam para riscos na mudança da escala 6x1
Executivos ouvidos pelo portal A TARDE criticaram caráter eleitoreiro da proposta, que está em discussão na Câmara dos Deputados


Os empresários baianos endossaram o cenário apresentado pela pesquisa AtlasIntel/A Tarde, divulgada na segunda-feira, 25, em que 43,8% dos entrevistados — entre indecisos (10,4%) e contrários (33,4%) — se posicionam de forma cautelosa com relação ao fim da escala 6x1, que deve mexer com a economia e a dinâmica das empresas e estabelecimentos comerciais.
Ademais, 53% dos ouvidos pelo instituto apontaram que o Congresso Nacional só deve pautar o tema e aprovar as prováveis mudanças após a realização de um estudo aprofundado sobre os impactos da alteração, enquanto 42,3% dos entrevistados afirmam que não.
"Isso traz consequências para toda a economia, todo o país, e eu acho que principalmente para a classe trabalhadora. Ela vai aumentar, primeiro, entre 18% e 23% da nossa mão de obra, diretamente", afirmou ao portal A TARDE Ademar Pinheiro Lemos, presidente do Sindicato das Empresas de Refeições Coletivas do Estado da Bahia (Sinderc-BA).

"Segundo, nos produtos que nós compramos, as empresas também, os nossos fornecedores, vão ter que repassar, embutir esse aumento de custos, e que também vão se repassar para nós, e que nós vamos passar para nossos clientes. E esses clientes vão passar para a população que consome todos os produtos. Então, às vezes, não está sendo esclarecido à população que esse custo alguém vai ter que pagar. E a menor parte de quem vai pagar são realmente as pessoas de renda menor", completou o executivo.
Quem deve ser afetado com o fim da escala 6x1?
A pesquisa da AtlasIntel apontou ainda que, para 53,3% dos entrevistados, as chamadas pequenas e médias empresas serão as mais afetadas com o novo formato de escala de trabalho.
Outros 24,1% acham que todas as empresas serão afetadas de maneira semelhante. Já 19,5% acreditam que os pequenos comércios e empresas não sofrerão qualquer impacto.

"As pequenas e médias empresas vão ser afetadas muito mais que as grandes. As grandes empresas têm como, devido à estrutura e à capilaridade, minimizar um pouco esse impacto. Mas as pequenas empresas, que hoje proporcionalmente são as que mais empregam, não têm como fazer isso. Então elas vão sofrer muito mais do que as grandes empresas", corrobora Lemos.
Cautela
A maioria dos entrevistados entende também que a redução da jornada de trabalho deve ocasionar o aumento de custos por parte das empresas, o que envolve supermercados, lojas e shoppings.
Para 40,4% dos entrevistados, o fim da escala 6x1 aumentará “muito” os custos, enquanto 10,7% acreditam que aumentará “um pouco”, o que representa 51,1% dos entrevistados.
Outros 39,2% acreditam que a mudança não terá qualquer impacto relevante. Aqueles que acham que poderá haver uma redução de custo são 4,9%.
"A economia brasileira não tem essa capacidade de fazer essas transformações para reduzir a jornada para 40 horas semanais, 5x2, duas folgas na semana e manter o mesmo salário. Isso terá repercussão muito séria na capacidade de manutenção de emprego do país. E, no segmento que nós representamos, de lojas e comércio lojista, teremos dificuldades enormes para manter regular o funcionamento do comércio. O comércio aos domingos e feriados fica extremamente ameaçado", alerta Paulo Motta, presidente do Sindicato dos Lojistas do Estado da Bahia (Sindilojas-BA).

"Nós temos uma carga tributária que nunca é levada a sério. Nós temos uma taxa de juros que inviabiliza e dificulta o crédito. Estamos com a inadimplência extremamente forte no país. Não só em cartão de crédito, como também em outros tipos de crédito. Então, enfim, o Sindilojas tem cautela e reserva, achando que não vai trazer boas coisas para o país essa mudança tão drástica que quer implantar", acrescentou.
Interferência eleitoral
Para os executivos, o impacto eleitoral no debate deve ser levado em consideração para que a proposta seja apreciada e votada com tamanha velocidade.
"Eu acho que, infelizmente, o ano eleitoral vai interferir 100% na decisão do Congresso. Em primeiro lugar, como eu disse, sem maiores discussões, sem maiores análises e aprofundamentos, colocar em votação. O que nós sentimos é que, se não como foi pedido no projeto, 70% ou 80% do que foi solicitado vai ser atendido", disse Ademar Lemos.
Já Motta comentou uma conversa com um parlamentar, sem revelar o nome do político, para reforçar o caráter "eleitoreiro" da medida, como afirmou ao A TARDE.
"Eu ouvi de um deputado federal a seguinte mensagem: 'Se eu for voltar ao meu município e eu afirmar que votei contra o trabalhador, eu perco as eleições. É eleitoreiro. Agora, todo o segmento produtivo do país está preocupado", concluiu Paulo Motta.
A pesquisa
A pesquisa AtlasIntel/A Tarde entrevistou 1.560 pessoas, via recrutamento digital aleatório (RDR), entre os dias 22 e 25 de maio.

A margem de erro é de dois pontos percentuais (2.p.p), para mais ou para menos. O nível de confiança da pesquisa, produzida em parceria entre o instituto AtlasIntel e o Grupo A TARDE, é de 95%.