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CARNAVAL

Da Fobica à era das megacarretas

Da adaptação improvisada em um Ford Model A às plataformas complexas, os trios incorporaram engenharia e escala

Núbia  Cristina
Por Núbia Cristina
| Atualizada em
Imagem ilustrativa da imagem Da Fobica à era das megacarretas
Foto: Foto: Raphael Muller/AG. A TARDE

Antes de se transformarem em verdadeiros palcos sobre rodas, capazes de carregar toneladas de equipamentos e movimentar multidões, os trios elétricos nasceram de uma solução simples, quase artesanal, mas inovadora. A origem remete a Salvador dos anos 1950, quando um Ford Model A, de 1929 - conhecido popularmente como Fobica - passou a cumprir uma função inédita: amplificar a música e levá-la em movimento pelas ruas.

Equipado por Osmar Macedo e Dodô com caixas de som ligadas à bateria do próprio automóvel, o veículo rompeu com a lógica estática das apresentações musicais e redefiniu a ocupação do espaço urbano durante o Carnaval. A partir daquele experimento improvisado, a música passou a circular, e a cidade virou palco.

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Com a popularização da ideia, o trio elétrico deixou de ser um automóvel adaptado e iniciou um processo acelerado de transformação. Caminhões maiores substituíram os carros leves, abrindo caminho para estruturas mais robustas, maior capacidade de carga e, sobretudo, para a entrada definitiva da engenharia veicular, elétrica e acústica na festa.

Evolução

Hoje, quem acompanha esse processo de perto sabe que o trio elétrico pouco guarda da improvisação do passado. “O trio não é mais um caminhão adaptado. Hoje ele é um equipamento construído do zero, com cálculo, reforço e planejamento”, explica Rômulo Santana de Lima, presidente e proprietário da empresa Trios Elétricos Topados.

A trajetória de Rômulo se confunde com a própria modernização dos trios. Baiano, criado em Salvador, ele conta que o fascínio começou cedo. “Desde criança eu tinha o sonho de trabalhar com trio elétrico. Nunca imaginei que um dia estaria construindo um, mas sempre soube que queria viver isso”, afirma. Para o Carnaval 2026, Lima montou o Trio Gold, trio elétrico premium que vai atender a Léo Santana, Psirico e Tonny Salles. O proprietário do trio é o empresário Vanderlei de Barros Lima, e o investimento para montar o trio Gold foi em torno de R$ 4 miilhões.

A entrada no mercado veio de forma pouco convencional. Aos 20 anos, Lima criou um perfil no Instagram para fotografar e registrar trios elétricos, movido por admiração. “Comecei fotografando trios e postando nas redes sociais, só por amor mesmo. A página acabou me aproximando do mercado”, relata. A partir dali, vieram os contatos, o aprendizado informal e a inserção em um setor altamente especializado. “No começo, eu observava tudo. Fui aprendendo o máximo que podia sobre estrutura, elétrica, som, segurança. Nunca parei de aprender”, diz.

No ano passado, a trajetória do empreendedor alcançou um marco simbólico. “Tive a oportunidade de participar da montagem do trio da Daniela Mercury, o Trio Axé. Foi um momento muito importante para mim”, conta. Hoje, sua empresa presta serviços para companhias que alugam trios para artistas de grande porte. “O trio elétrico hoje é resultado de técnica, engenharia e paixão. Não é só festa, é muito trabalho por trás”, resume.

Engenharia

Se nos primeiros anos os caminhões adaptados mantinham soluções relativamente simples - plataformas metálicas fixadas ao chassi, caixas de som empilhadas e proteção mínima -, hoje o cenário é outro. Os trios modernos exigem reforços estruturais, redistribuição de peso, ajustes em suspensão e freios e projetos sob medida. “A gente trabalha com pranchas reforçadas. Uma prancha comum aguenta cerca de 40 toneladas, mas um trio chega a 60 ou 70 toneladas”.

Para a festa não parar, a segurança vem primeiro

Se há um consenso entre os profissionais do setor, é o papel central do sistema elétrico. “Os geradores são o coração do trio elétrico”, resume Rômulo. Nos modelos atuais, a redundância é regra. “A gente sempre trabalha com dois geradores, cada um de 260 kVA. Um sustenta tudo: som, iluminação, LEDs, telões, camarins. O outro fica de reserva.”

Em caso de falha, a transição é imediata. “Se um der pane, a chave muda automaticamente e o outro assume. O trio continua funcionando”, afirma. A lógica é evitar qualquer interrupção em um equipamento que opera em meio a milhares de pessoas.

Caminhões, carretas

A evolução levou os maiores trios a serem construídos sobre cavalos mecânicos e carretas semelhantes às usadas no transporte de cargas especiais. Comprimento, altura e raio de giro passaram a influenciar diretamente os trajetos e a logística urbana.

Na escolha do caminhão, a confiabilidade pesa. “Hoje, o Volvo é mais seguro para puxar trio elétrico. O Mercedes ainda existe, mas a manutenção é mais lenta. Trio elétrico exige confiança”, avalia Rômulo.

Internamente, os veículos contam com camarins que atravessam toda a extensão do carro, áreas técnicas isoladas e postos de comando de áudio e vídeo. “Antigamente, praticamente não existia camarim. Hoje, é luxo e mais luxo”, resume.

Manutenção

A construção de um trio elétrico é um processo longo. “Um trio bem feito não nasce rápido. Para sair realmente pronto, o processo leva cerca de um ano”, afirma. Em situações de urgência, como a proximidade do Carnaval, o cronograma pode ser encurtado, mas com mais profissionais envolvidos.

A manutenção é contínua. “Antes do Carnaval a gente faz revisão completa. Depois do Carnaval, outra manutenção geral. Durante a festa, há vistorias constantes de freios, pneus e estrutura”, diz Rômulo. A vibração intensa e o peso elevado exigem atenção permanente.

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Tags

Carnaval em Salvador engenharia veicular evolução do trio elétrico história do Carnaval. origem do trio elétrico trios elétricos

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