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Abafador de ruído é eficaz, mas não resolve desafio para autistas

Lei estabelece a obrigatoriedade de entrega de abafadores de ruído em shoppings de Salvador

Publicado quarta-feira, 27 de março de 2024 às 10:00 h | Atualizado em 27/03/2024, 14:43 | Autor: Felipe Sena
Serão obrigatóro entrega de abafadores de ruído em shoppings
Serão obrigatóro entrega de abafadores de ruído em shoppings -

Algumas pessoas portadoras do Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam reações a sons, a exemplo de tapar os ouvidos, se esconderem ou terem medo de objetos. Esses comportamentos acontecem por causa da hipersensibilidade auditiva que pessoas autistas podem apresentar, podendo causar até dor física.

Por isso, com o intuito de proporcionar conforto e cuidado com as pessoas portadoras do Espectro Autista, os shoppings de Salvador terão que disponibilizar abafadores de ruídos. O prefeito Bruno Reis sancionou a lei (nº 9.789/2024) que estabelece a obrigatoriedade para os centros comerciais da cidade.

Em Salvador, 4.219 moradores têm TEA. Desse total, 70% são do sexo masculino, a maioria com até 17 anos. Os dados foram obtidos através do cadastro das pessoas para a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Cip TEA). O órgão tem como objetivo identificar pessoas com TEA em espaços públicos e privados para que tenham atendimento, sem constrangimentos.

Antes da medida da prefeitura da capital baiana, o Salvador Shopping já realizava a “Hora Silenciosa”, ação que acontece no último sábado de cada mês, das 9h às 10h. É um momento voltado para as pessoas com TEA. Durante 1h, o centro comercial reduz os sons, os estímulos visuais e adota ações para deixar a visita do cliente mais agradável e inclusiva.

Além disso, desde o final de 2022, o shopping já disponibiliza abafadores de ruídos para clientes portadores de TEA. O shopping tem 60 abafadores disponíveis. O Salvador Norte Shopping também distribui abafadores. O estabelecimento tem 10 equipamentos para os clientes.

Tais Lucid, mãe de Cadu, de 8 anos, diagnosticado com Autismo Nível 2, diz que costuma levar o abafador de ruído na bolsa como forma de prevenção quando sai com o filho, e já usufrui de outras medidas adotadas por shoppings voltados para pessoas com TEA, como a do Salvador Shopping. Assim como as sessões de cinema azul, também voltadas para o grupo com TEA.

No entanto, Lucid pondera que as medidas ainda não são suficientes. “Pode acontecer da gente ir num shopping e ter barulho, então é muito importante ter essa medida. Não resolve o problema, porque é muito além. Não só no shopping, é no caminho do ônibus, é na rua, todo lugar vai ter estímulo [a ruídos], mas ao ter essas disponibilidades já é uma iniciativa, porque estão enxergando nossos filhos de alguma forma”.

Por transitar em diversos lugares com o filho, se não estiver com o abafador de ruído, Lucid diz que tenta controlar o estímulo de outras formas. “Geralmente abraçando e tentando distraí-los de alguma forma. Às vezes bater palmas incomoda, meu filho não suporta que bata palmas, como parabéns. A voz, uma entonação muito alta”, relata a mãe de Cadu.

Quando criança, a estudante de Necropsia e Ciências Mortuárias, Juno 13, tinha “crises de choro” por causa do barulho. Hoje, aos 26 anos, ela diz que já consegue controlar a sensibilidade auditiva. No entanto, ainda rejeita o abraço como forma de conter a sensibilidade em momentos de tensão.

Assim como a mãe de Cadu, Juno 13, que tem Autismo Nível 2, leva o abafador de ruídos quando vai à rua. “Eu uso o abafador de ruído sempre que vou a algum lugar e sei que vai ter barulho, levo na bolsa quando vou ao shopping e se começar a fazer barulho, eu coloco. Quando eu vou no Rio Vermelho [em Salvador], eu levo, porque se eu passar em frente a alguma festa, eu já coloco”, diz.

Quando foi visitar o namorado, que também foi diagnosticado com TEA, mas Nível 1, de Fortaleza, os dois foram fazer um passeio ao shopping, mas Juno esqueceu o abafador de ruído, e teve que lidar com momentos de barulho. “Uma vez entramos num shopping e começamos a nos incomodar, porque tinha um homem tocando uma música, eu tive que tapar o ouvido porque eu tinha esquecido meu abafador”, relata.

Apesar da eficiência do uso de abafadores de ruído, a psicóloga, Mestre em Desenvolvimento Humano e Supervisora ABA/Denver, Isabela Navarro, diz que o uso do aparelho deve ser feito de forma esporádica, pois não há como inibir completamente a pessoa autista de qualquer tipo de barulho. “A indicação tende a ser específica e por um período curto de tempo ao longo do dia para não isolar o paciente de seu ambiente natural. Pois como nas questões comportamentais ou de atraso na fala, a hipersensibilidade auditiva precisa ser tratada com terapia”.

Isabela, ressalta que “a intenção é fazer com que a criança se adapte aos estímulos do cotidiano e sofra menos com situações inesperadas. Existem sessões de terapia com esse objetivo que simulam barulhos incômodos de forma gradativa, com volume baixo e ajuda visual”, explica.

“Vale salientar que o uso regular desses abafadores só devem ser indicados após uma análise funcional do comportamento, procedimento realizado por um Analista do Comportamento Habilitado, e do Terapeuta Ocupacional, onde será avaliado as necessidades do indivíduo e como sua utilização é gerenciada”, pondera a psicóloga. A avaliação de hipersensibilidade auditiva é feita com o médico, a família e a equipe multidisciplinar de especialistas.

Terapia ABA/ Denver

Segundo Isabela, a Terapia ABA/ Denver, abreviação para Applied Behavior Analysis (Análise do Comportamento Aplicada, em tradução livre), feita por Cadu, é o tratamento com maior evidência científica para aplicação em indivíduos dentro do Espectro Autista, também como atrasos do neurodesenvolvimento, que se concentra na promoção da aprendizagem.

Psicóloga Isabela Navarro explica sobre a sensibilidade auditiva em pessoas com TEA
Psicóloga Isabela Navarro explica sobre a sensibilidade auditiva em pessoas com TEA |  Foto: Divulgação

A psicóloga explica que o método de terapia promove o desenvolvimento da independência e autonomia da pessoa autista. Isso busca promover o desenvolvimento da linguagem, habilidades sociais, autonomia pessoal e comportamentos adaptativos. Além disso, busca reduzir comportamentos problemáticos, como agressão, estereotipias e autolesões.

Diagnóstico de TEA

Apesar de indicar sinais de que poderia ter TEA desde 1 ano de idade, o diagnóstico de Cadu só veio aos 3 anos. “Percebi algo diferente quando ele tinha 1 ano e 6 meses, quando ele estava no processo de desenvolvimento, começou a falar e depois parou de vez, então percebi que tinha algo diferente, quando ele teve a primeira pausa neural”. Lucid salienta que o diagnóstico aconteceu há 5 anos atrás. Com os avanços da medicina, já é possível um diagnóstico mais rápido e preciso.

Já Juno, teve o diagnóstico tardio. A jovem relatou que psicólogas alertavam desde criança que ela poderia ter TEA, mas seu pai “foi negligente” com o caso. “Quando eu tinha 16 anos, eu disse para meu pai que eu tinha certeza que era autista, mas o laudo só consegui aos 20 anos. Como não foi diagnosticado quando eu era criança, não sei quando surgiram os primeiros traços”, afirma.

A psicóloga Isabela diz que para o diagnóstico de TEA, é necessário que a criança preencha três pré-requisitos. O primeiro deles se trata do atraso na comunicação verbal e não verbal. “Até 3 anos de idade, a criança tem que falar frases completas, com funções da linguagem e relatando fatos passados, por exemplo como foi na escola, o dia. Ela tem que narrar o que aconteceu, descrever, saber iniciar e se manter em um diálogo”, explica.

Segundo Isabela a criança passa por uma série de atividades de desenvolvimento, que com crianças diagnosticadas com TEA podem ser diferentes. “Ela [a criança] começa aos 3 meses balbuciando, aos 6 meses, falando vogais em forma de som, aos 9 ou 10 meses até 1 ano, falando as primeiras sílabas. Entre 1 e 2 anos de idade, ela vai formar um repertório de 200 palavras. A partir de 2 anos, a criança incorpora a função da linguagem e consegue caracterizar tudo que a cerca pela sua funcionalidade e características”, explica.

Já o segundo aspecto para o diagnóstico é a comunicação ou interação social. De acordo com a psicóloga, a criança precisa despertar para a “ reciprocidade, engajamento, brincar com funcionalidade, ter troca com outras crianças”. No entanto, “crianças dentro do Espectro vão ter muito mais foco no objeto do que nas pessoas, onde acontece a perda de repertório. A gente aprende vendo, imitando, obedecendo comandos”.

O terceiro aspecto se trata de comportamentos repetitivos e restritos, como por exemplo, quando a criança gosta de empilhar e enfileirar objetos, além de “correr de um lado para outro, correr em círculos, correr em pêndulos, ter flaps, quando a criança bate as mãos como um passarinho. Crianças que têm hipersensibilidade auditiva e visual, hipotonia, uma fraqueza muscular, que também vai para a língua e isso leva o atraso na comunicação, algumas crianças desencadeiam a praccia na fala”. Assim como a seletividade alimentar, quando a criança quer apenas comer frutas de uma cor, entre outras preferências.

Com o tratamento, os pais da criança diagnosticada com TEA, podem ser ajudados a lidar com a neuro divergência, assim como adultos podem também lidar melhor com seus sentimentos. Apesar de fazer tratamento apenas com psicólogo e psiquiatra e não com uma equipe multidisciplinar, para Juno é um ensinamento. “O tratamento me ensinou a perceber o que eu posso fazer para que os neurotípicos consigam entender que eu não sou pior, mas que o meu cérebro funciona de outra maneira, eles vão ter que aceitar, compreender e me dar acessibilidade e assistência que eu preciso”.

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