Moradores da Barra convivem com o transtorno do ‘desmonte’ da folia | A TARDE
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Moradores da Barra convivem com o transtorno do ‘desmonte’ da folia

Associação de Moradores lista pontos negativos do pós-carnaval

Publicado domingo, 18 de fevereiro de 2024 às 05:50 h | Autor: Priscila Dórea
Trabalhadores desmontam estrutura do carnaval na Barra
Trabalhadores desmontam estrutura do carnaval na Barra -

Trazendo alegria para quem é de dentro e de fora de Salvador, o Carnaval da capital baiana é sinônimo de felicidade… Mas não para todos. Moradores, comerciantes e frequentadores da Barra ainda sofrem com a estrutura da Maior Festa de Rua do Mundo, não apenas durante os dias de festa, mas também no desmonte de tudo depois que a folia passa. De acordo com a Associação de Moradores e Amigos da Barra (AMABarra), nos últimos anos houve avanços na organização da festa, mas a lista de coisas negativas os supera e muito.

A ocupação de espaços públicos, montagem de estruturas em áreas sem o cuidado com a vegetação, bloqueios de vias de acesso aos moradores,  colocação de banheiros químicos próximos a prédios residenciais e comerciais, confusão nos portais de acesso e muito lixo descartado nas ruas sem grandes contêineres para armazená-los, são alguns dos velhos e maiores problemas, lista o diretor de comunicação da AMABarra, Watson Campos. Porém, não para por aí, ainda mais considerando que os efeitos disso ultrapassam os dias da festa momesca.

“Além de muita queda de energia e internet nas ruas, e da morosidade no atendimento de serviços públicos essenciais, com o aumento do número de camarotes, cresceram os transtornos na montagem e desmontagem das estruturas, deixando o trânsito com mobilidade reduzida, e obstruindo áreas de fuga e emergência com mais estruturas”, pontua Watson, salientando que isso tem piorado a medida que a grade de atrações do Carnaval foi se concentrando na região. 

Já em termos de avanço, o controle dos acessos foi uma das melhores medidas tomadas pelo poder público, afinal “a segurança dos foliões precisa ser preservada em todas as circunstâncias”, afirma o diretor. De acordo com o Censo de 2010 do IBGE, os bairros Barra e Ondina possuem, juntos, cerca de 40 mil habitantes, recebem de 1 a 2 milhões de foliões por dia durante os dias da festa momesca beira o absurdo. “Já passou da hora de se repensar este modelo de Carnaval em bairros residenciais”, afirma Watson Campos.

Há 18 anos com um bar e lanchonete na Rua Almirante Marques Leão, na Barra, o empresário Humberto Smith Melo explica que, para aqueles que têm pontos fixos no circuito, o Carnaval realmente atrapalha. “As estruturas que eles trazem são móveis e quando eles chegam não entram em contato com o comerciante local para saber se vai atrapalhar, além de gerar um outro transtorno durante a desmontagem. Nesse Carnaval, por exemplo, cheguei de manhã e eles tinham colocado uma rampa na frente do meu negócio e precisei ligar para inúmeras pessoas até eles tirarem", relata.

Mas a pior parte é o cheiro ruim, salienta o empresário. "O fedor fica no bairro todo, vem principalmente dos banheiros químicos e dura muitos dias depois que o Carnaval acaba”, afirma Humberto.

As estruturas do Carnaval de Salvador devem ser desmontadas até o dia 23 de fevereiro (sexta-feira), mas Humberto é categórico ao afirmar que “a Barra só costuma voltar ao normal umas duas semanas depois que o Carnaval acaba”. Depois do dia 23, de acordo com o Decreto 20.505/2009, é concedido mais dez dias para recuperação de áreas públicas que tenham sido danificadas. Quem descumprir a determinação, receberá multas diárias até que os danos sejam reparados. 

De rachaduras no chão até danos no paisagismo local, as “sequelas” aparentes em uma região tão turística, aponta o ciclista e microempreendedor Ricardo Sudá de Andrade, são um grande sinal de que mudanças precisam ser feitas na organização do Carnaval. “Não tenho absolutamente nada contra o Carnaval, mas a Barra não comporta mais o tamanho da festa. O Carnaval cresceu demais e a Barra deveria receber uma versão menor dele”, aponta.

Outro ponto importante a se pensar, explica o ciclista, é no forte aspecto turístico da Barra. “Essa é uma zona extremamente turística, mas nem todo turista vem para cá nessa época atrás de Carnaval, até porque é período de férias para muita gente. O que o turista vai encontrar na Barra entre janeiro e fevereiro além das estruturas do Carnaval?”, questiona.

Morador da região, o estudante de psicologia Thiago Carvalho é um apaixonado pelo Carnaval, mas se incomoda bastante com os efeitos da festa no bairro. “A Barra toda fica meio caótica, tanto nos preparativos da festa, quanto agora, depois dela. Além do caos da montagem e desmontagem das estruturas, fica tudo muito sujo, principalmente por causa dos banheiros. Essas áreas onde ficam os banheiros, inclusive, trazem bastante insegurança para minha mãe e irmã, por questões de assédio. Elas ficam com medo de passar por perto e haver alguém escondido lá dentro sem elas saberem”, conta o estudante.

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