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Paciência para retomar a vida normal

JORNAL A TARDE
Por JORNAL A TARDE

Muitas pessoas enfrentaram filas em bancos e órgãos públicos ontem, na primeira segunda-feira depois do Carnaval



KATHERINE FUNKE




O espírito de início de ano – e volta à realidade, depois do Carnaval e outras fantasias de verão – baixou de vez no morador da capital baiana nessa primeira segunda-feira de março. A ordem era resolver problemas, pagar contas, dar entrada em processos, enfim, acabar com preocupações guardadas na gaveta, à espera da hora certa.



Nos órgãos públicos e bancos, as filas evidenciavam a alta procura. Ordem: andar depressa, de olho no relógio e na qualidade do serviço. Não faltou reclamação. “Esse sistema só vive fora do ar”, gritou uma grávida na agência da Previdência Social no Comércio, louca da vida por causa da demora no atendimento. Irritada, ela não quis conversar com a reportagem: apenas apontou as longas filas e os atendentes parados.



No Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC) do Iguatemi, as pessoas também se levantavam, principalmente no guichê da Secretaria da Segurança Pública (SSP), um dos mais abarrotados de clientes. Palavras como “demora” e “absurdo” eram ouvidas aqui e ali, entre as pessoas que procuravam fazer cédula de identidade ou registro de nascimento.



A gerente do serviço, Nilza, foi procurada, mas não quis dar entrevista. Para o atendente de prenome Edvaldo, o problema é simples: “É essa nossa cultura de resolver tudo de manhã e de última hora. De março em diante, a tendência é aumentar a procura”.



Apesar da tensão do local, havia gente feliz. A mãe de uma menina de sete meses finalmente tomava a iniciativa de registrar o nascimento da filha. “Esperei o conselho tutelar me dar uma resposta. Estavam procurando o pai, mas até agora não acharam”, explica, sem querer se identificar, com uma mistura de mágoa e emoção por aquele momento importante da sua vida particular.



A felicidade de registrar filhos também fez o vidraceiro Antônio Carlos Cruz da Silva, 23 anos, e o pedreiro Moisés Cerqueira da Silva, 23 anos, esquecerem o cansaço da espera. Donos das senhas 22 e 17 e pais de filhos de nove e dez dias de vida, ambos trocavam idéias, numa conversa bem-humorada, enquanto a senha chamada ainda era a 12. “Sei que não vou sair daqui tão cedo, mas fazer o quê? Não deu para vir antes”, conformava-se o pedreiro.



Antes, afinal, estavam todos ocupados. Uns, trabalhando, como o pedreiro. Outros, festejando o Carnaval, como a dona-de-casa Emília Almeida Passos, 43 anos, que foi fazer a segunda via da carteira de identidade. Chegou às 7h30 ao Iguatemi e às 10h15 ainda não havia sido atendida. “Pior que poderia ter feito antes, mas sabe como são as coisas, não é?”, disse.



Ao lado dela, a dona-de-casa Maria de Lourdes de Jesus, 52 anos, emprestava o ombro para o filho de 16 anos tirar uma soneca. Ambos também estavam ali desde as 7h30, em busca de nova identidade para o menino. “E não é? Eu poderia ter vindo antes mesmo”, admitiu Maria, ao ser questionada sobre a data escolhida para ir ao SAC.



DESPERDÍCIO – Teve quem gastasse o dia só para resolver pequenos problemas. Por causa da agenda burocrática, o empresário Ubirajara Moura, 45 anos, já acordou com dor de cabeça. Para resolver uma documentação pendente da sua empresa, ele teve de ir à Junta Comercial do Estado da Bahia (Juceb), pegar uma guia bancária de pagamento, ir ao banco (onde enfrentou uma fila de mais de 50 pessoas), depois voltar à Juceb, aguardar em outra fila e, enfim, receber o documento.



Depois, ainda teve de levar o papel ao advogado. Tudo exigido “para ontem”. Uma maratona. “Minha cabeça está latejando, e não é ressaca do Carnaval”, queixou-se Moura.



Pouco atrás dele, na fila do banco, o vigilante Valdemir Santos, 44 anos, gastava o primeiro dia de folga desde 2 de fevereiro para pagar contas atrasadas. No Carnaval, trabalhou. De olho no relógio, deu para si mesmo no máximo meia hora na agência bancária. Ao redor, outras pessoas à espera desdenharam. “A gente não sai daqui antes de meio-dia. Pode escrever”, previu um deles, quando ainda eram 11h05.



Para não perder o almoço e o humor, o consultor de vendas André Souza Santana, 29 anos, acordou cedo: tinha que transferir os documentos do veículo que comprou. “Preciso resolver isso impreterivelmente hoje (ontem)”, explicou. Chegou às 9h no 4º Ofício de Notas, no Caminho das Árvores. Foi o 11º a ser atendido.



Por volta das 10h30, foi ao Departamento Nacional de Trânsito (Detran), de onde teve de sair para regularizar acessórios do carro. Às 15h, esperava novamente no órgão. “Agora acho que não falta muito para resolver tudo”, informou Santana por telefone, esperançoso, mas menos bem-humorado do que de manhã.



Se o Carnaval atrasou a agenda pessoal dele, a de trabalho também sofreu abalos. “Os tomadores de decisões das empresas viajaram antes do Carnaval e só voltam hoje (ontem). Então, quem trabalha dependendo de outras pessoas, como eu, ficou com várias pendências para essa semana”, analisou.



Documentos encontrados pela PM podem ser recuperados até dia 18



Quem perdeu ou teve furtados seus documentos pessoais no Carnaval pode procurar o guichê da Polícia Militar no SAC do Shopping Barra até o próximo dia 18. Lá, mais de cinco mil documentos recuperados aguardam seus donos. Até o meio-dia de ontem, apenas 210 pessoas haviam procurado o serviço e sido atendidas, enquanto outras 90 aguardavam.



Antes de ir ao local, é recomendável entrar no site da PM ou telefonar para verificar se o documento está à disposição. “Ainda temos alguns que estão sendo registrados no site”, adianta o tenente Mário Cézar. Se o nome estiver na listagem, o cidadão deve anotar o número de registro, para facilitar a busca no arquivo.



O hoteleiro Gustavo Silva de Brito, 25 anos, conseguiu reaver a carteira de habilitação, depois de esperar 40 minutos. A fila foi apenas mais uma parte do pesadelo que passou durante o Carnaval. Ele era um dos foliões de um bloco afro abandonado pelos cordeiros em pleno Largo dos Aflitos, após um defeito no sistema do som.



“A polícia escoltou o trio, enquanto nós tivemos de nos misturar aos pipocas”, conta Brito. Resultado: “perdeu”, de uma hora para outra, o documento e R$ 30, sem contar os R$ 130 pagos pelo abadá. O episódio ressalta a importância da recomendação para que se levem apenas cópias autenticadas de documentos para o circuito da festa.



“Realmente, uma cópia autenticada é bem mais segura”, diz o aposentado Mário Bispo, 53 anos. “Fui roubado por causa de Ivete Sangalo. Enquanto eu a admirava, perdi a carteira. É impressionante a habilidade desse pessoal. Estava com uma bermuda folgada e não senti nada”, descreve.



Serviço



  • Quem perdeu objetos pessoais ou documentos durante o Carnaval pode acessar o site www.pm.ba.gov.br ou telefonar para 3117-4480 e verificar se seus pertences constam da lista da Polícia Militar.



  • O SAC do Shopping Barra funciona das 8 às 18 horas, nos dias úteis, e das 9 às 14 horas, nos finais de semana.
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