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Padre Pinto acusa Igreja e diz que foi drogado durante festa

JORNAL A TARDE
Por JORNAL A TARDE

Da Agência Estado



O polêmico padre José Pinto fez hoje acusações graves contra a Igreja, que o destituiu da sua paróquia da Lapinha, no centro histórico de Salvador, e tenta transferi-lo para Roma. Ele disse, entre outras coisas, que foi drogado durante a Festa da Lapinha, quando dançou fantasiado de Orixá e proibido de dar entrevistas pelo cardeal-arcebispo dom Geraldo Majella Agnelo.



Acusou a Igreja Católica de ser uma instituição de "aparências", que esconde muita coisa suja "por baixo do pano" e o obrigou a mentir diversas vezes. Ele se recusa a deixar a Casa Paroquial da Lapinha, apesar de a Congregação Sociedade das Divinas Vocações que a administra ter dado um prazo de três dias para ele desocupar o imóvel.



Disse que vai esperar a chegada a Salvador, dia 21, do provincial da congregação, o padre italiano Ludovico Caputto, para discutir sua situação. Ninguém da Arquidiocese quis comentar as acusações. Os principais trechos da entrevista que concedeu hoje.



Estado - Antes de ocorrer o problema na Festa da Lapinha o senhor defendia plenamente a Igreja e agora faz várias acusações por quê?



Padre Pinto - Eu camuflei durante muito tempo, como a Igreja gosta. Ela vive muito exatamente a hipocrisia, sabe quanta coisa tem por baixo do pano e os bispos sabem porque eu sei, trabalhei com eles durante sete anos, os padres sabem, mas é bonito para se colocar por debaixo do pano. Como Pinto agora levantou as asinhas, sendo mais autêntico, dizendo a verdade, a melhor maneira deles se saírem é falar que eu estou com distúrbio mental. É ruim dizer isso, pois de repente a gente vai ter que chamar eles na Justiça para responderem.



- Mas a marca da Igreja não é o conservadorismo?



- A Igreja não aceita as minhas atitudes, pois a filosofia é a da camuflagem. Ela sempre foi utilitarista com o artista: é lindo o artista vir cantar na missa, mas depois "se pique", é lindo ele vir pintar na minha igreja, depois vá embora. Para com os pobres é a mesma coisa: lembro quando papa João Paulo II visitou a Bahia. Quem entrava no palácio? Só os ricos da diocese os pobres eram para ficar na Praça do Campo Grande batendo palmas, para dar ibope.



- Quem lhe acusou de louco na Arquidiocese?



- Ontem (7) o próprio dom Josafá Meneses (bispo auxiliar) ligou, dizendo que eu estava com distúrbio mental e precisando me curar D.Geraldo ficou nas entrelinhas: quando ele foi me visitar na Congregação no Bairro de São Caetano, disse: "Você deveria ir descansar". Respondi: Tenho toda a eternidade para descansar, tenho meu trabalho social, minhas exposições etc. Estou sem celebrar há mais de um mês, o que me dói muito. É um castigo. O dom Geraldo pediu que afastasse vocês (jornalistas) da minha vida, que eu deveria ir para Roma por dois anos para que vocês me esquecessem. Estou vendo a imprensa como a minha comadre.



- O senhor foi drogado durante a Festa da Lapinha?



- Mandaram (a Arquidiocese) um médico que me deu remédio para epilepsia e loucura. Por isso num determinado momento quase não me agüentava em pé.



- Depois de participar do Festival de Verão o senhor pretende participar do Carnaval?



- Tinha reservado hotel para sair de Salvador, mas de repente eu estou achando que não devo me dar esse presente que não gosto. Gosto muito do carnaval, então sempre vou à saída do (bloco afro) Ilê-Ayiê e não iria este ano, mas agora acho que vou, também vou ao camarote da Daniela Mercury com toda a (polêmica da) camisinha.



- Recentemente, quando o Vaticano vetou Daniela num show em homenagem ao Papa Bento XVI pelo fato dela ser uma defensora da camisinha, o senhor defendeu a posição da Igreja.



- Ali (naquele momento para a Igreja) eu sou bonitinho, porque estou mentindo e camuflando e jogando pedra contra mim mesmo.



-Então o senhor foi obrigado a dar aquelas declarações?



- A Igreja usa muito de uma filosofia popular: ou dá ou desce. Infelizmente, mas é verdade.



- Igrejas evangélicas de fato convidaram o senhor para entrar nas suas fileiras?



- Sim e disse isso ao cardeal d Geraldo Majella de quem ouvi: "Eles (os pastores) são enganosos". Eu retruquei - são enganosos mas eles são muito mais fraternos que vocês, são mais missionários que vocês, são mais observantes do Evangelho que vocês que pregam o Evangelho e vivem pisoteando as pessoas.



- O senhor acha que ainda é possível um entendimento com a Arquidiocese?



- A base da fé não é o perdão? A oração única que Jesus nos ensinou, o Pai Nosso, ele coloca como condição "sine qua non": perdoa para ser perdoado. Se é que acham que eu pequei porque não me perdoar. Não condeno ninguém. Na verdade a Igreja tem uma doutrina, uma disciplina que é justíssima. Ela continua sendo mãe, até nas melhores famílias se tem uma rusguinha.



- Mas o senhor está disposto a renunciar a algumas atitudes?



- Renunciar ao que seja viável eu sempre renunciei. Renunciar a amar os artistas e a fazer o meu trabalho artístico, à dança não nem ao serviço dos pobres e ser voz e vez dos negros, índios e injustiçados.



- O senhor teme ser excomungado?



- Para que eu seja excomungado é preciso que a minha consciência me diga que eu esteja excomungado, eu não fiz nada: não estuprei ninguém, não pratiquei pedofilia, não tenho os maridos dentro das casas como alguém tem ou alguns têm, não roubei como alguns roubaram, não furei as contas da diocese como alguns fizeram. Agora sou santo? Não, sou o diabo, sou pecador, sou limitado, sou "fragilérrimo", sou uma pessoa humana.

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