SALVADOR
Pais de alunos denunciam irregularidades no Diplomata

Salários de funcionários atrasados por mais de três meses, não pagamento do INSS, extinção de turmas e fim de aulas complementares são algumas das denúncias feitas por um grupo de pais de alunos do Colégio Diplomata, em Patamares. Eles estiveram no local na manhã desta quinta-feira, 3, para mobilizar outros pais e discutir as providências a serem tomadas diante do sucateamento que, segundo eles, está sendo levado adiante pelos proprietários. A situação foi denunciada ao Ministério Público no último dia 27 de julho.
A situação chegou ao conhecimento dos pais depois da extinção do terceiro ano e a demissão de 11 professores, em abril. Associado ao episódio, os pais teriam notado a queda na qualidade de ensino ministrada pelo colégio, mediante os relatos dos alunos quanto à falta de material escolar e as constantes ausências de professores. Diante do quadro, uma comissão de oito pais foi formada no dia 19 de julho para acompanhar o pagamento das mensalidades e o repasse dos valores para os professores. Assim, o salário de maio foi pago na última segunda-feira.
Segundo o economista Givaldo Valverde, integrante da comissão, o acordo feito com a direção do colégio foi de que o grupo acompanhasse o pagamento de mais um mês de salários atrasados. No entanto, eles foram impedidos, na quarta-feira, de ter acesso à sala onde estaria o dinheiro arrecadado com o pagamento das mensalidades. Segundo ele, no dia anterior, havia sido deixado no caixa da secretaria do colégio R$25 mil. Ele acusa a escola de destinar o dinheiro a outros fins, que não o pagamento de funcionários, quebrando o acordo feito inicialmente. Ainda na quarta, a diretora e proprietária da escola, Dalva Nascimento, teria solicitado a extinção da comissão e que os integrantes retirassem seus filhos do colégio.
Clima tenso - Diante do movimento dos pais na porta do colégio nesta quinta-feira, a comissão disse ter sido chamada a conversar com um advogado que se apresentou como representante da direção do Diplomata, a fim de resolver a situação. Segundo Valverde, o clima ficou tenso quando o representante revelou que não tinha nenhuma relação com a escola, mas com um grupo interessado na compra da instituição de ensino.
Procurado pela reportagem, o advogado Celson Ricardo Carvalho de Oliveira confirmou que fazia parte de uma comissão de auditoria de um outro grupo educacional que não poderia ser identificado. Segundo ele, o grupo estaria interessado em adquirir o colégio após a avaliação de sua situação financeira e contábil. Quando questionado sobre a conveniência de intermediar uma questão interna da escola, o advogado afirmou que fez isso por solicitação da direção.
Valverde afirma ainda que, durante a madrugada desta quinta, computadores com os registros contábeis da escola foram levados pelo filho de proprietária. O funcionário do setor financeiro, identificado apenas como Salvador, negou a retirada dos equipamentos e informou que a gestão financeira do colégio é feita por uma empresa terceirizada cujo nome não poderia informar.
Entre os docentes, o clima é de preocupação. De acordo com o relato de uma professora, que pediu para não ser identificada, a maior cuidado dos profissionais era o de não passar a situação para os alunos. "Já estávamos com o salário atrasado há três meses, mas somente com o fim do terceiro ano foi que os pais tomaram conhecimento da situação". Segundo ela, a intenção dos professores era chegar até o fim do ano letivo, mesmo sem o recebimento dos salários, para não prejudicar os alunos.
De acordo com a professora Iracema Maciel, funcionária desde 1994, desde janeiro a escola vem atrasando os salários. "Antes, o pagamento era feito até o 5º dia útil, mas eles começaram a dividir. Em janeiro, recebemos somente um terço. O restante, seria pago em fevereiro. Daí, pagaram somente uma parte do de fevereiro e assim por diante. Uma confusão", conta.
Iracema afirma ainda que o colégio não estava repassando os valores descontados dos salários para o pagamento do INSS e dos planos médico e odontológico. "Este ano, fui pedir minha aposentadoria e o valor foi reduzido devido à falta de repasse nos últimos três anos".
Para a mãe, Rosângela Cornélia, ficou insustentável manter o filho estudando na escola. Ela pediu a transferência nesta quinta e conta que chegou a ficar hospitalizada devido à preocupação com o futuro do garoto de 9 anos, que cursa a 3ª série. "Ainda não sei onde ele vai estudar o resto do ano. Achar outra escola no meio do ano é muito difícil", acredita.
Para a empresária Alexandra Matos, que tem dois filhos no Diplomata, a responsabilidade é da proprietária, ao permitir que a situação chegasse a esse ponto. "Quando soubemos que a escola estava em dificuldade, tínhamos a esperança de chegar pelo menos ao fim do ano, mas a cada dia aparecem mais problemas ".
Mensalidade - A mensalidade da escola varia de R$558, para alunos matriculados em um turno no ensino fundamental, a R$1.200, para alunos em período integral. Para alunos antigos, uma negociação definiu a mensalidade em R$1 mil. É o caso da filha da agente de segurança Silmara Malaquias Mazeda, que, no entanto, critica a diminuição das atividades acadêmicas no turno vespertino.
Segundo ela, neste ano a escola deixou de oferecer o currículo complementar, que incluía aulas de teatro, artes e esportes. "Eles simplesmente deixavam as crianças correndo pelo pátio a tarde toda", afirma. Para ter acompanhamento pedagógico complementar, Silmara pagava uma mensalidade adicional de R$500. No entanto, apenas uma professora era responsável pelo atendimento dos alunos da 1ª à 4ª séries, o que, para ela, era insuficiente.
Silmara começou a desconfiar que havia alguma coisa errada quando deixou de receber informações sobre o andamento da filha. Para ela, era impossível deixar as crianças fora do problema. "Eles sentem o clima e sofrem com tudo isso. Minha filha anda sempre chorando devido a essa situação", diz. Ela compareceu à escola para efetivar a transferência das crianças e tentou falar com a diretora sobre o problema, mas não conseguiu.
O Colégio iniciou o ano letivo com 470 alunos matriculados das séries pré-escolares ao terceiro ano do ensino médio. A diretora pedagógica, Helena Andrade, não soube precisar a quantidade de alunos que permanecem matriculados, devido às transferências que acontecem diariamente. Questionada pelo A Tarde On Line sobre a situação, Helena informou que apenas a proprietária poderia responder pela escola. Dalva, no entanto, não estava disponível para esclarecimentos e não retornou a ligação feita pela reportagem.