SALVADOR
Pais devolvem adolescentes foragidos

Atualizada às 22h30
Quatro dos 52 internos do Centro de Atendimento Socieducativo (Case) que fugiram na madrugada desta quinta-feira foram entregues à direção da entidade pelos próprios pais no início da noite. Outros 28 foram capturados pela Polícia Militar, que continua à procura dos outros 20 que continuam foragidos, segundo informou a gerente sócio-educativo da Case, Fátima Oliveira.
A rebelião iniciada na noite desta quarta-feira na antiga Casa de Atendimento ao Menor (CAM), do bairro de Tancredo Neves, terminou por volta das 8h30 do dia seguinte. Após o motim, os jovens ficaram no pátio da entidade à espera da contagem e a vistoria nos alojamentos. Além da Tropa de Choque, cerca de 15 policiais militares e um carro do corpo de bombeiros permaneceram no local durante a manhã. Por todo o pátio da Case, viam-se vidros quebrados, pedaços de concreto, estilhaços do teto e colchões queimados.
Durante o motim, três monitores ficaram feridos, um deles após se atirar do 1º andar ao ser feito refém, e o outro levou uma pedrada na cabeça. Uma das adolescentes internas na instituição teve um ataque epilético. Em princípio, os monitores que socorreram a menina acharam que ela tinha sido vítima de queimaduras no corpo, pois estava cianótica (roxa).
Direitos - Os internos fizeram sete monitores como reféns. Os jovens exigiam melhoria na qualidade e quantidade das refeições oferecidas na entidade, banho de sol, quarenta minutos extras no horário de visita, extinção da obrigatoriedade de faxinas nos banheiros, aumento de mais 10 minutos no tempo das ligações telefônicas, assistência médica mensal, aparelhos de DVD e som nos alojamentos, atividades esportivas três vezes por semana, condições para que os familiares que moram no interior possam vir à capital e visitas íntimas.
Durante a rebelião, aparelhos de TV, janelas e o telhado da Case foram danificados. Os internos pediram também a extinção da Sala de Reflexão, que segundo eles funciona como solitária.
O diretor da Case, Fidenciano Medrado admite a existência da Sala de Reflexão, espaço criticado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) durante inspeção à entidade, no ano passado. Ele, porém, nega que o espaço seja uma solitária e acrescenta que a sala dispõe de intra-estrutura adequada para receber os adolescentes.
Segundo Fátima Oliveira, os amotinados não serão punidos pela entidade. No entanto, a coordenação do centro já conseguiu identificar oito que adolescentes que lideraram a rebelião. Eles, acrescenta Fátima, passarão por um novo processo na Justiça e poderão ter as penas aumentadas.
Sem condições - Segundo o coordenador geral do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca), Waldemar Oliveira, que esteve na Case nesta quinta-feira, o local não oferece condições para abrigar os menores em conflito com a lei que cumprem medidas sócio-educativas. Waldemar acrescenta que o Cedeca, a OAB e os Conselhos de Crianças e Adolescentes do Município, Estado e União criticam o espaço e acreditam que ele é inadequado.
"O Case não tem estrutura para abrigar adolescentes, o modelo adotado aqui contraria o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Eles deveriam adotar o modelo de Simões Filho, onde existem atividades e o espaço é aberto. Aqui mais parece uma prisão", opina o coordenador do Cedeca.
Com instalações com capacidade para atender apenas 150 jovens, a Case, no momento, abriga 202, 52 acima do limite máximo. Esta foi a primeira grande rebelião dos menores desde 1989, quando a unidade foi fundada. O centro já vivenciou momentos de tensão no dia 25 de junho deste ano, quando cerca de quatorze jovens fugiram após render dois orientadores, usando uma espécie de faca improvisada, e escalar o muro da quadra poliesportiva da unidade. Na época, a unidade abrigava 230 menores.