SALVADOR
Palco de fé, animação e protestos

Festa reúne desde quem apenas queria se divertir a manifestantes do MST que empunharam bandeiras vermelhas
JANE FERNANDES
Fé e folia. A mistura é o tempero que confere um sabor especial à Festa do Bonfim. Como prova disso, as amigas Edna Leal, 50 anos, e Ivete da Silva, 59 anos, se alternavam entre acompanhar os cânticos barrocos e sacudir ao som dos batuques dos Filhos de Gandhy na frente da Igreja da Conceição da Praia, ponto de partida do cortejo.
A empolgação era tanta que elas balançavam o corpo até mesmo quando o coral barroco cantava algo mais animado. Para a dupla inseparável, essa é a tônica da grande lavagem.
O hábito de participar de todas as etapas do festejo é tão antigo que as duas nem conseguem lembrar quando foi iniciado. Sabem apenas que rezar e se divertir sempre fizeram parte desta rotina. Cheias de leveza na forma de exercitar sua fé, elas apóiam completamente a participação das mais diversas crenças no evento que sempre reuniu o povo-de-santo e os católicos.
No adro da Conceição da Praia, todos tiveram espaço e poder de voz, não faltaram espíritas, evangélicos e nem mesmo os cristãos ortodoxos, representados pela Igreja Siriana.
Unidos na promoção da tolerância religiosa, eles rezaram o Pai Nosso de mãos dadas e assim entoaram o Hino ao Senhor do Bonfim, que traz em seus versos o pedido feito pelo reverendo Josué Melo, de um mundo com justiça e concórdia.
BRANCO Assim como as baianas, grandes damas da festa, a maioria dos participantes usava branco, cor associada a Oxalá, divindade africana sincretizada com Senhor do Bonfim. No meio de tanta alvura, o grupo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se destacava com suas bandeiras vermelhas e um grupo bastante numeroso.
Como estavam na cidade para participar de um encontro estadual, eles aproveitaram para levar a causa às ruas de uma maneira festiva. Este vai ser um ano muito importante para nós, então viemos aqui pedir bênção, explicou Joelson de Araújo, um dos diretores nacionais do movimento.
Carroça mais bonita
As carroças são elementos tradicionais do cortejo, mas este ano, a participação delas teve um incentivo a mais. Como forma de apoio à manifestação, que tem se enfraquecido nos últimos tempos, a Fundação Gregório de Mattos resolveu fazer um concurso e premiar a mais bonita delas com R$ 1 mil.
A vencedora foi a carroça de número um. O jegue da carroça escolhida pela comissão formada por dois artistas plásticos, uma fotógrafa, uma representante da Emtursa e um integrante da fundação estava coberto com um manto repleto daquelas fitinhas do Senhor do Bonfim.
Radiante com a vitória, Valter Lessa, 74 anos, só queria saber de comemorar, o que, no meio da folia, significava beber várias latinhas de cerveja. Aliás, cada uma das 25 carroças concorrentes levava estoque próprio de comida e bebida.
Quando sai de casa, a vendedora Miriam Silva e Silva, 24 anos, logo pede ao Senhor do Bonfim que faça muito calor. Afinal, quanto mais suor escorrer pelos corpos agitados pela andança, melhor para o seu negócio. No dia-a-dia, ela vende cosméticos, mas no dia da lavagem, o que garante uma grana são as pequenas toalhas oferecidas por R$ 1. O fato é que toda hora aparece alguém para comprar.
Ir ou não ir para a lavagem é uma dúvida que não passa pela cabeça de Aline Emanuele de Oliveira, 20 anos, estudante, pois ela simplesmente mora dentro da festa. Residente no Bonfim, ela se sente em casa na festa. Apesar de curtir muito toda a tradição da festa, ela apóia as inovações e aproveitou para se esbaldar com a mistura de ritmos que rolava na frente do casarão Santa Luzia.
A fim de derrubar a associação entre os malhados e a violência, Vagner Lucas Araújo, 19 anos, estudante, juntou-se à galera da academia para passar uma mensagem de paz. O contraste entre as duas idéias estava simbolizado na alegoria que ele e os amigos empurravam. Um arsenal bélico montado com mísseis prontos para serem disparados e uma placa pedindo para que não haja guerras.