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Parque São Bartolomeu: comunidade aguarda recuperação da reserva

Nelson Luis, do A Tarde On Line
Por Nelson Luis, do A Tarde On Line

O abandono, o processo de devastação e a poluição de uma das áreas verdes mais belas de Salvador, o Parque de São Bartolomeu - uma das últimas reservas de Mata Atlântica em área urbana no Brasil -, com uma extensão de 75 hectares, localizado no subúrbio ferroviário, parece estar com os dias contados. Pelo menos é o que espera a comunidade que vive no entorno e na área do parque.



As obras para recuperação do local histórico, que vem sendo degradado, além de esquecido pelo poder público ao longo dos anos, estão previstas para o início de 2007. É o que garante o secretário de reparação Gilmar Santiago, da Secretaria Municipal da Reparação (Semur). Segundo Santiago, desde 2005, busca-se soluções para a diversidade dos problemas que envolvem a área. “O objetivo é desenvolver ações no sentido de revitalizar o Parque São Bartolomeu”, explica.



Tanta preocupação com o parque tem razão no fato de São Bartolomeu já ter sido um dos pontos turísticos mais visitados da capital até meados dos anos 80, quando o crescimento desordenado e a ocupação informal nos bairros do subúrbio ferroviário deram inicio ao processo de deterioração da reserva ambiental.



Além disso, a área guarda uma importância histórica tão grande quanto sua riqueza em biodiversidade de espécies nativas da Mata Atlântica. Onde hoje está o parque, funcionou um dos maiores esconderijos de escravos fugidos da Bahia colonial, o Quilombo do Urubu.



O secretário Gilmar Santiago afirma que foram R$ 6 milhões captados junto ao Ministério da Cultura para investir no local. Desse total, R$ 4 milhões serão utilizados na revitalização do parque e R$ 2 milhões empregados em melhorias na infra-estrutura dos terreiros de Candomblé que funcionam na área. “Estamos aguardando apenas a liberação dos recursos para começar a obra”, garante.



Santiago acrescenta que as intervenções realizadas serão de urbanização, revitalização da área verde, preservação das bacias hidrográficas e ações de educação ambiental junto à população que mora no entorno da reserva; além da recuperação dos terreiros. “O local tem uma característica singular por todos os valores simbólicos, históricos, sócio-econômicos e ambientais que agrega”.



1550 hectares de beleza e abandono



Criado em 1978, o Parque Metropolitano de Pirajá inclui o Parque de São Bartolomeu, Parque Florestal da Represa do Cobre e o Sítio Histórico de Pirajá. São 1.550 hectares de florestas, cachoeiras e rios, em grande parte já alterados pela depredação da mata e pela poluição dos mananciais.



O representante da entidade Afro Bahia, Moreno Bahia, afirma que espera pela iniciativa de recuperação do parque e proteção da reserva há anos. “Freqüento o Parque São Bartolomeu desde pequeno. Aqui era um lugar maravilhoso. Um lugar tão bonito como esse não pode estar na situação que se encontra atualmente”, desabafa.



O discurso do barraqueiro Dú Souza dos Santos, que trabalha há cerca de 31 anos no parque, não é diferente. “Isso aqui era um lugar lindo e muito visitado. Muitas famílias passavam o dia todo, mas depois de um tempo, devido aos problemas de invasão e marginalidade, as coisas tomaram novo rumo. Mas, graças a Deus, nós já começamos a sentir a mudança”, alegra-se Dú, que reclama dos prejuízos causados ao comércio local com a degradação do parque e afastamento dos turistas.

Exclusão - Cerca de 800 mil pessoas moram no entorno do Parque de São Bartolomeu, estima o membro da equipe técnica do Centro de Educação Ambiental de São Bartolomeu (Ceasb), Mical Barreto. Ela destaca que a falta de cuidados com a comunidade por parte dos poderes públicos contrasta com as riquezas naturais, o que acaba contribuindo para o estado de degradação. “A ocupação foi feita de forma desordenada e desenfreada. A situação de abandono desta reserva é o puro reflexo da exclusão social.”



A ocupação urbana desordenada das áreas no entorno fez surgir diversos bairros, que avançaram nas áreas protegidas. Apesar de ser uma reserva natural, existem no parque sérios problemas que ameaçam e comprometem as nascentes dos rios. Para o assessor da Empresa Baiana de Água e Saneamento (Embasa), Carlos Alberto Reis, é importante desenvolver uma proposta de educação junto às comunidades do subúrbio para evitar a poluição dos mananciais.



A realidade do parque acaba repercutindo na vida das pessoas que moram no seu entorno. Na rua das Fontes, que fica logo na entrada do local, moram 64 famílias carentes (cerca de 500 pessoas). A ocupação existe há 30 anos e seus moradores vivem em residências precárias e sem nenhuma infra-estrutura.



“A forma como o poder público trata os moradores daqui da rua das Fontes é uma coisa que eu não vejo em nenhum outro lugar. É muito lixo acumulado, falta de esgotamento e saneamento básico, muita lama mesmo”, reclama a moradora Ana Maria Andrade Santos.



Uma hora de chuva já é suficiente para transformar em lagoa a casa e o terreiro da ialorixá Marlene Melo. “É um sacrifico imenso não só para mim como para todos os moradores. Eu fico totalmente ilhada, a água da chuva entra em nossas casas com cobra, ratos e lixo dos esgotos. É uma situação muito dolorosa”, emociona-se.



Há 15 anos vivendo no local, Raimunda Oliveira Souza, coordenadora do Fórum de Entidades do subúrbio, ressalta que o parque, apesar de representar uma região de grande valor, abriga uma comunidade que não dispõe de lazer e infra-estrutura básica como esgotamento e saneamento. “O projeto de recuperação tem de trazer uma nova visão para o parque. Porque até então, se imagina esse lugar como uma das regiões mais violentas da cidade. A proposta desse projeto pretende mostrar o contrário”.



Axé e história - O Parque São Bartolomeu é um santuário do povo do candomblé, afirma a ialorixá Maria Ventura da Silva, mais conhecida como Vilma. “São águas, cachoeiras e folhas, o parque é uma espécie de santuário religioso. Lutamos para manter viva a nossa tradição religiosa aqui dentro”, defende a mãe-de-santo.



Além da energia espiritual que os seguidores do Candomblé garantem existir no Parque São Bartolomeu, o local também está associado a uma série de fatos marcantes da história da Bahia, sendo o mais conhecido o episódio relacionado com a Batalha de Pirajá, que ajudou a consolidar a Independência do Brasil no Estado, em 1823.



No século XVI, a região foi ocupada pelo primeiro aldeamento indígena organizado pelos padres jesuítas da Companhia de Jesus e ali foram instalados também os primeiros engenhos de açúcar da nova cidade. Em 1633, no Engenho São João, em uma área próxima ao parque, o padre Antônio Vieira proferiu o seu primeiro sermão público na Bahia. Em 1638, o local foi estratégico para a defesa da cidade ameaçada de invasão pelos holandeses.

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