SALVADOR
Passeata mostra a força feminina

Em caminhada no centro de Salvador, mulheres pedem punição para atos de violência física, assédio moral e sexual
LETÍCIA BELÉM
Cerca de cinco mil mulheres de várias idades e etnias, donas-de-casa, desempregadas, sem-terra, sem-teto, estudantes, deficientes físicas, soropositivas, trabalhadoras, quilombolas, sindicalistas, políticas e aposentadas se uniram, ontem à tarde, em uma grande caminhada em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.
Com o apoio de dois carros de som, a passeata parou o trânsito das 16h15 até as 19h, saindo do Campo Grande até a Praça Municipal. Integrantes de movimentos sociais e sindicais, urbanos e rurais revezaram-se na falação contra todo tipo de violência contra a mulher.
Segundo uma das coordenadoras do Fórum das Mulheres de Salvador, que organizou a passeata, Madalena Noronha, o alerta é para que os atos de violência contra a mulher sejam punidos. Ela lembrou que este tipo de agressão não é crime previsto no Código Penal. Às vezes, as mulheres são agredidas em casa pelos próprios companheiros e até pelos próprios filhos e não têm coragem de denunciar. Isto tem que acabar e começa pela denúncia e por um bom atendimento nas delegacias, explicou.
A diretora de informação da Central Única dos Trabalhadores (CUT-BA), Dora Loyola, afirmou que as mulheres têm que acreditar em sua capacidade, competência, força, inteligência e garra, levantar sua auto-estima, valorizar-se e arrebentar as correntes da discriminação e segregação.
A luta por respeito e pelos direitos das mulheres também foi lembrada. Com mensagem de paz, saúde, educação, emprego e respeito, a presidente da comissão de mulheres da federação e associação de bairros de Salvador, Antônia Lita Santos, 42 anos, lembrou que a violência doméstica e sexual está presente principalmente nos bairros periféricos. Mas não é só na periferia que o sexo frágil tem seus direitos violados.
A diretora de assuntos sociais do sindicato dos servidores do Poder Judiciário, Jaciara Cedraz, 38 anos, relata que ainda existe muito assédio moral e sexual no âmbito judiciário e as mais atingidas são as mulheres. Ela disse que muitos juízes abusam de seu poder para coagir escreventes de cartório e escrivãs, que nem sempre têm coragem de denunciar por medo de perseguição.
As mulheres sofreram humilhações e constrangimentos ao longo da história, e é preciso lutar por respeito e por direitos iguais, afirmou Rita Ferreira, do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal da Bahia.
A diretora da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, Ione Santana de Oliveira, diz-se indignada com as letras das músicas e coreografias de funk e axé music, o que considera uma violência moral capaz de derrubar a auto-estima de qualquer mulher. Ela acredita na igualdade, no reconhecimento do trabalho de doméstica como profissão e principalmente em um bom atendimento por pessoas preparadas em delegacias quando as mulheres forem agredidas.
Em uma cadeira de rodas, a presidente da Associação Baiana dos Deficientes Físicos, Luíza Câmara, 62 anos, que foi a primeira presidente do conselho da mulher, carregava um cartaz Ainda é cedo, lutem mais um pouquinho..., à frente da passeata. Uma representante do Movimento Nacional de Cidadãs Soropositivas, que se identificou apenas como Lívia, aconselhou as mulheres a se cuidarem, se valorizarem e se prevenirem.
Vestida de branco, a aposentada Edith de Souza, 68 anos, resumiu: As mulheres são muito sofridas e discriminadas, e ainda tem muito homem que bate em mulher e faz o que quer. Isto tem que acabar um dia...