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Crime ambiental: MP fecha o cerco contra loteamentos ilegais na Chapada Diamatina

Investigação aponta desmatamento de área protegida e esgoto clandestino sob a gestão de Wilson Rocha

Redação
Por Redação
| Atualizada em
Loteamento Wilson, no Vale do Capão, visto de cima
Loteamento Wilson, no Vale do Capão, visto de cima - Foto: Arquivo Pessoal

Documentos oficiais do Ministério Público da Bahia (MP-BA) e registros notariais revelam que o município de Palmeiras vive um cenário de forte pressão sobre o solo urbano e rural, apontado pelas investigações ministeriais como uma "criminalidade ambiental institucionalizada". No centro do caso, que corre sob os procedimentos IDEA nº 152.9.125397/2024 e nº 321.9.326986/2022, está o prefeito Wilson José da Rocha (Avante).

A apuração do MP apura se a prolongada omissão na regulamentação urbana foi utilizada como ferramenta para viabilizar loteamentos clandestinos potencialmente poluidores, misturando a atuação do gestor público com sua atividade empresarial como sócio-administrador da WJ da Rocha Imobiliária do Vale Ltda.

Loteamentos clandestinos e tipificação penal

A investigação conduzida pelo Ministério Público é explícita ao tipificar as condutas identificadas na sede do município e nos distritos como crimes ambientais previstos na Legislação Federal.

Segundo os autos do edital de convocação do órgão, a instalação de loteamentos em áreas rurais sem a devida anuência e licenciamento dos órgãos estaduais e municipais fere o ordenamento jurídico e atrai sanções severas.

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Imagem ilustrativa da imagem Crime ambiental: MP fecha o cerco contra loteamentos ilegais na Chapada Diamatina
Foto: Arquivo Pessoal

Em trecho oficial do documento, o MP-BA adverte textualmente sobre a gravidade das intervenções sem respaldo técnico:

"A instalação de loteamentos em áreas rurais sem licença ambiental configura crime previsto no
Artigo 60 da Lei Federal nº 9.605/1998", aponta o Ministério Público, alertando ainda para os desdobramentos previstos no Artigo 54 do mesmo dispositivo, que incrimina "a poluição que resulte ou possa resultar em danos à saúde humana, ou que provoque a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora".

Este cenário de risco, conforme a apuração, é agravado pela
multiplicação de condomínios sem rede de esgotamento sanitário estruturada no Vale do Capão, colocando em risco iminente o lençol freático e a balneabilidade do Rio Preto.

De acordo com o advogado e professor de Direito Ambiental da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Thiago Pires, a ocupação irregular em regiões ambientalmente frágeis pode gerar
impactos irreversíveis sobre nascentes, lençóis freáticos e cursos d’água da Chapada Diamantina.

“O que acontece na Chapada Diamantina afeta simplesmente o abastecimento de água da população da região metropolitana de Salvador e do Recôncavo. A Chapada Diamantina toda é um sistema muito sensível do ponto de vista de recursos hídricos”, afirma o especialista.

Pires também adverte para o avanço de empreendimentos em
Áreas de Preservação Permanente, as APPs. “No caso, por exemplo, do Vale do Capão, há muitas áreas que são APPs e APPs é um espaço territorial especialmente protegido”.

Localidade dos Campos, no Vale do Capão
Localidade dos Campos, no Vale do Capão - Foto: Arquivo Pessoal

Questionado sobre as possíveis consequências jurídicas para o prefeito Wilson Rocha, caso as irregularidades sejam comprovadas, o especialista afirma que ele poderá responder nas esferas administrativa, cível e criminal.

Elo político-empresarial e denúncias de retaliação

O avanço da especulação imobiliária irregular deixou os bastidores comunitários e ganhou contornos de crise política após o depoimento formal de um ex-membro do primeiro escalão da prefeitura.

O ex-secretário de Meio Ambiente de Palmeiras, Thiago Ramos, declarou formalmente ao Ministério Público e às instâncias de controle que sua exoneração do cargo, decretada em agosto de 2025, consistiu em uma punição direta por exercer o poder de polícia e fiscalizar os empreendimentos ligados ao chefe do Executivo.

Em sua acusação, Ramos afirmou categoricamente que as áreas comercializadas pela empresa do gestor carecem de regularização fundiária e ambiental.

A vertente empresarial do caso revela que Wilson Rocha opera a WJ da Rocha Imobiliária em conjunto com sua companheira, Rita de Cássia Ramos Passos.

Imagem ilustrativa da imagem Crime ambiental: MP fecha o cerco contra loteamentos ilegais na Chapada Diamatina
Foto: Arquivo Pessoal

Inércia planejada: quase três décadas sem Plano Diretor

Para o braço ministerial, o fato de Palmeiras operar com uma legislação urbanística defasada desde 1997 - anterior ao próprio Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/2001) - não decorre apenas de ineficiência administrativa, mas sim de um cenário que alimenta a insegurança jurídica e perpetua danos ambientais irreversíveis.

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A ausência de regras impede a aplicação de mecanismos básicos de controle, como o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) e a Outorga Onerosa do Direito de Construir.

Pressionado pelo avanço das investigações, o prefeito Wilson Rocha foi obrigado a assinar, em março de 2026, o
Termo de Ajustamento de Conduta (TAC nº 01/2026). No texto do acordo, o Ministério Público da Bahia expõe com rigidez a raiz do problema territorial do município:

"A prolongada e reiterada inércia administrativa do Município de Palmeiras em instituir normas adequadas de planejamento urbano facilita a captura do processo de ordenamento territorial por interesses privados, em manifesto prejuízo ao interesse público e à conservação do entorno do Parque Nacional da Chapada Diamantina", destaca o texto oficial do TAC.

Imagem ilustrativa da imagem Crime ambiental: MP fecha o cerco contra loteamentos ilegais na Chapada Diamatina
Foto: Arquivo Pessoal

Manobra legislativa e exclusão do controle social

No momento em que o cerco jurídico se intensifica, ativistas ligados à Campanha Ambiental do Vale do Capão denunciam uma tentativa de blindagem e centralização de poder sobre a política de terras. O Projeto de Lei nº 1.131/2026, de autoria do Executivo, propõe a exclusão sumária dos representantes da sociedade civil da Comissão de Regularização Fundiária Urbana (REURB).

Para os movimentos sociais da Chapada, a manobra visa assegurar ao prefeito o controle unilateral sobre a caneta que define quais áreas rurais serão convertidas em perímetros urbanos e quais imóveis privados serão chancelados pelo poder público, eliminando a fiscalização popular justamente no período em que a própria imobiliária do gestor é investigada pela venda de glebas sem escrituração.

Impactos reais no ecossistema da Chapada

Os desdobramentos da falta de ordenamento geram passivos visíveis ao ecossistema local:

  • Supressão de vegetação: Fiscalizações apontam a retirada de cobertura vegetal em áreas de Mata Atlântica e Cerrado sem as devidas autorizações do Inema, conduta classificada como infração gravíssima.
  • Caos hídrico: Loteamentos de alta densidade operam com fossas rudimentares sobre zonas de recarga de nascentes, ameaçando rios que compõem a Bacia do Paraguaçu, responsável pelo abastecimento de Salvador e Recôncavo.

O Ministério Público adverte nos autos que as investigações prosseguem e que a responsabilização civil e criminal por danos ao meio ambiente e parcelamento ilegal do solo alcançará não apenas os idealizadores dos projetos, mas todos os agentes que atuam de forma direta na promoção, publicidade ou intermediação dos condomínios clandestinos.

Localidade dos Campos, no Vale do Capão
Localidade dos Campos, no Vale do Capão - Foto: Arquivo Pessoal

O que dizem prefeitura, empresário e órgãos

O portal A TARDE entrou em contato com a Prefeitura de Palmeiras e também com Wilson Rocha, enquanto empresário e sócio da WR imobiliária. A gestão municipal respondeu por meio de nota.

"Em resposta à solicitação de informações encaminhada por esse veículo de comunicação referente à aprovação da legislação municipal sobre expansão urbana, esclarecemos que o pedido foi devidamente recebido e será atendido dentro do prazo estabelecido pela legislação vigente".

Já o empresário Wilson Rocha não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem.

O
portal A TARDE também contatou o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA), o Ministério Público e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para comentar as informações apresentadas, mas não obteve resposta.

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a tarde destaque chapada diamantina Crime ambiental Vale do Capão

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