
Por Acácia Vieira
Familiares, colegas de trabalho, desconhecidos e até amigos. A intolerância religiosa se manifesta de diferentes formas e, muitas vezes, parte de quem está mais próximo. Quando o preconceito se instala, ele se transforma em ofensa, exclusão e violência.
Celebrado nesta quarta-feira, 21 de janeiro, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa reforça a necessidade do respeito às diferentes crenças. Seja no catolicismo, no espiritismo, no candomblé, no islamismo, no evangelismo ou em qualquer outra religião, a fé deve ser vivida sem medo.
Quando o preconceito começa dentro de casa, a dor costuma ser ainda maior. Ainda assim, para quem tem fé, também surge a força para resistir e seguir. Foi o que aconteceu com a yalorixá Verônica Vieira, dirigente do Ilè Asé Ibá Oyábassá Lewa Yálodè, no bairro da Liberdade, em Salvador.
Iniciada há 12 anos e à frente do próprio terreiro há quatro, Mãe Veca de Oyá define o espaço como uma “casa de selecionados”, onde a espiritualidade é tratada com responsabilidade e compromisso. Segundo ela, o candomblé vai muito além do que é visto no barracão e exige preparo, fundamentos e entrega verdadeira aos orixás.
Mas quem pensa que a iniciação de Mãe Veca foi um caminho fácil se engana. A violência contra sua crença começou dentro de casa. “Meu pai é católico fervoroso e minha mãe, em vida, também era. Quando me iniciei, meu pai foi ver de perto. Ele chegou a chorar e me disse: ‘minha filha, se eu pudesse, eu tinha te tirado de lá’. Eu tive que me calar e esperar o entendimento de todos, inclusive dos meus irmãos”, contou.

Durante anos, Mãe Veca lidou com olhares de reprovação e gestos de preconceito, como familiares que se benziam ao vê-la passar com as contas no pescoço. Porém, a realidade agora é outra. “Hoje eu sei que eu venci e eles venceram também. Todos respeitam, minha família frequenta minha casa e me ajuda em tudo”, afirma.
A intolerância religiosa também marcou a trajetória de Victória Gabrielle, de 25 anos, dofonitinha de Oxum no terreiro de Mãe Veca. Recém-iniciada, ela foi vítima de agressões verbais e físicas no próprio local de trabalho e por alguém que era amiga de infância.
“Ela me agrediu verbalmente, jogou objetos em mim e dizia o tempo inteiro que minha conta era um amuleto do diabo. Eu não consegui reagir, apenas a empurrei para evitar algo pior. Depois disso, ela ainda se achou no direito de quebrar minha conta, algo que para mim é sagrado”, relembra.
Apesar do impacto emocional, ela optou por não registrar denúncia, acreditando que a justiça espiritual se encarregaria da situação.

Casos como esses mostram que a intolerância religiosa segue sendo uma realidade. Na última terça-feira (20), o terreiro Nzo Mutá Lombô Ye Kayongo Toma Kwiza foi alvo de vandalismo em Salvador. O espaço amanheceu com as paredes pichadas com as palavras “assassinos” e “Jesus”, escritas em vermelho na entrada do templo, além de danos a equipamentos eletrônicos.
Episódios assim reforçam que o preconceito contra religiões de matriz africana ainda persiste e ultrapassa o campo do discurso, se materializando em ataques e violência. Para líderes religiosos e adeptos do candomblé, combater a intolerância passa pela denúncia, pelo diálogo e, sobretudo, pelo respeito à liberdade religiosa prevista por lei.
Como denunciar
Para denunciar intolerância religiosa, use o Disque 100 (gratuito e 24h) para violações de direitos humanos, vá à Delegacia de Polícia Civil para registrar um Boletim de Ocorrência (B.O.), ou procure a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), se disponível; também é possível usar canais online como o site do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) ou o WhatsApp (61) 99611-0100 para o ouvidoria. É crucial coletar provas como prints, vídeos, áudios, e contatos de testemunhas.
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