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MEIO AMBIENTE

Gruta de Patamuté: falta de manejo pode levar à interdição e perda científica

Entenda a importância do Plano de Manejo Espeleológico para a preservação do local

Isabela Cardoso
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| Atualizada em

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Santuário Popular do Sagrado Coração de Jesus
Santuário Popular do Sagrado Coração de Jesus -

A Gruta de Patamuté, em Curaçá, no norte da Bahia, está no centro de uma batalha judicial que envolve fé, ciência e gestão pública. O Ministério Público da Bahia (MP-BA) ingressou com uma ação de execução contra o município pelo descumprimento de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2018.

A ação de execução movida pelo órgão estadual cobra o cumprimento de medidas voltadas à proteção do patrimônio espeleológico local. A ausência de um Plano de Manejo Espeleológico é o principal entrave. Sem este documento, o santuário que recebe milhares de romeiros anualmente corre o risco de ser interditado pela justiça.

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Questionado sobre a fiscalização do local, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) esclareceu que a obrigação direta de gestão do local cabe ao município. A equipe de reportagem do portal A TARDE entrou em contato com a prefeitura e aguarda retorno.

A gruta da fé: de 1902 aos dias atuais

Hoje chamada de Santuário Popular do Sagrado Coração de Jesus, a gruta possui uma das associações mais fortes da Bahia com a tradição religiosa. Segundo os estudos de geologia "Cavernas e Carste em Rochas Carbonáticas na Bahia", a devoção começou após 1902, quando um vaqueiro, ao caçar uma onça, encontrou a caverna e avistou uma luz onde brilhava o Sagrado Coração.

Desde então, o local se tornou um polo de fé e contemplação. Entre 29 de outubro e 1º de novembro, milhares de visitantes participam de procissões de velas, missas e apresentações culturais. Esse fluxo crescente exige infraestrutura, mas o aumento de visitantes sem diretrizes técnicas acende o alerta para a proteção ambiental.

Santuário Popular do Sagrado Coração de Jesus
Santuário Popular do Sagrado Coração de Jesus | Foto: Ricardo Fraga | Divulgação

Geologia: um arquivo da história da Terra

Para o geólogo e professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (IGEO-UFBA), Ricardo Fraga, a gruta é um "mundo dentro do mundo". Ele destaca que as formações rochosas guardam informações importantes sobre a evolução do nosso planeta.

“As grutas abrigam registros muito importantes sobre a evolução da Terra. Os espeleotemas que se formam dentro das grutas, são rochas que vão formando a partir do gotejamento e, às vezes, aprisionam pequenas porções de atmosferas pretéritas, nos dando acesso direto à composição atmosférica de um passado recente do nosso planeta. As são um dos melhores repositórios de informações ambientais que existem", relata.

Cientificamente, a Serra da Gruta é composta por mármores, que são constituídos pelos minerais calcita e dolomita, apresentando cores que variam entre bege, rosa e cinza.

Segundo o Atlas do Carste e Cavernas em Rochas Carbonáticas no Estado da Bahia (IABS), o conjunto exibe dobras de grande porte e estruturas de estratificações cruzadas, que contam sobre a origem e evolução desses terrenos e evidenciando uma geodiversidade rara em pleno semiárido.

O risco real de interdição judicial

A legislação brasileira exige que cavernas com uso turístico possuam diretrizes claras de conservação. Ricardo Fraga alerta para o exemplo negativo vindo de outras regiões do país.

“Em São Paulo tem o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira. É um parque cheio de cavernas. O estado explorou aquele turismo ali por muitos anos sem o Plano de Manejo Espeleológico. O que aconteceu é que o parque foi fechado, as cavernas foram interditadas e a visitação foi proibida até que os Planos de Manejo Espeleológico fossem concluídos”, recorda o geólogo.

Entrada da Gruta de Patamuté
Entrada da Gruta de Patamuté | Foto: Ricardo Fraga | Divulgação

Em Curaçá, a situação é semelhante. “Eu entendo que, no caso de Curaçá, pode chegar a um ponto da gruta ser interditada. Há esse risco, enquanto não houver o Plano de Manejo Espeleológico”, completa.

Vulnerabilidade e boas práticas de manejo

O ecossistema é extremamente sensível. Além da geodiversidade, existe a possibilidade de biodiversidade endêmica, com espécies que só existem naquele ambiente isolado.

O impacto humano, se não controlado, pode ser irreversível. O professor explica que até o simples ato de caminhar pode ser danoso. “O pisoteio pode também prejudicar os depósitos sedimentares que estão ali dentro”.

A Gruta de Patamuté vista de dentro
A Gruta de Patamuté vista de dentro | Foto: Ricardo Fraga | Divulgação

A preservação, no entanto, não ignora o fator humano. O Plano de Manejo serve justamente para organizar a tradicional Festa do Vaqueiro e as romarias. “É indispensável para conhecer qual é o estado atual de conservação e uso dessa caverna. Encontrar ali quais são justamente as suas vulnerabilidades [...] fazer então o zoneamento, ver por onde se pode andar ali dentro”, defende Fraga.

Como visitar a Gruta de Patamuté com consciência

O cuidado com a gruta também depende do comportamento dos visitantes. O geólogo deixa uma lição sobre a ética de visitação em ambientes naturais.

“Tem até um clichê que se fala por aí, ‘de uma gruta nada se leva a não ser saudades, nada se tira a não ser fotos e nada se deixa não ser pegadas’. Mas, de preferência, nem pegada era bom se deixar [risos], porque ela vai compactando o sedimento. O que uma pessoa não deve fazer antes de mais nada, é não retirar ou deixar nada de dentro da gruta”, conclui.

Portanto, ao entrar em uma caverna, lembre-se de:

  • Evitar tocar nas formações
  • Não retirar elementos naturais
  • Não deixar resíduos

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Tags:

CURAÇÁ Geologia meio ambiente

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