PIONERISMO
O sabor do recomeço: baiana cria confeitaria de sucesso após câncer
História de superação de Gleyde Lucas de Jesus, de 43 anos, inspira baianos
Em uma rua tranquila do Rio Vermelho, distante do agito que marca um dos bairros mais boêmios de Salvador, a publicitária soteropolitana Gleyde Lucas de Jesus, de 43 anos, abre o portão de casa com um sorriso tímido e um convite para entrar.
Ao adentrar no local, uma descoberta: é ali que funciona "Aqueles Sabores Saudáveis", uma confeitaria criada após um diagnóstico de um câncer que redefiniu os rumos da vida da empreendedora.
Na cozinha, onde hoje produz os doces, uma bancada reúne os carros-chefe da empresa. Ao prová-los, o paladar é desafiado. As texturas são impecáveis e a doçura é precisa, equilibrada na medida certa.
Há, porém, uma verdade difícil de acreditar. Nos doces, não existe um cristal sequer de açúcar, nem o rastro amargo que os adoçantes costumam deixar. O que se sente é o puro dulçor das frutas, técnica que se tornou a marca do negócio inclusivo criado por Gleyde.
Quando a vida pede transformação: o início do negócio inclusivo
A história da empresa não nasce de um plano de negócios convencional, mas de uma interrupção abrupta. Em dezembro de 2019, então coordenadora de comunicação, Gleyde recebeu o diagnóstico de câncer de intestino.
A partir dali, a rotina mudou. O tratamento impôs restrições alimentares, afastou ingredientes antes comuns à mesa, como o próprio açúcar, e transformou a relação dela com a comida.
Dois anos depois, ainda em tratamento, ela também perde o emprego. O que poderia representar apenas mais um obstáculo acaba se tornando o ponto de partida para uma nova trajetória.
A vida parou, olhou nos meus olhos e pediu transformação. Vi uma oportunidade de fazer algo e colocar para o mundo
Gleyde Lucas - Entrevista ao portal A TARDE
A restrição alimentar, a necessidade de se reinventar e a dificuldade de encontrar doces seguros para o próprio corpo e, ao mesmo tempo, agradáveis ao paladar levam à criação de uma confeitaria voltada para pessoas com restrições alimentares, como ela própria.
Daí nasce, em 2021, a Aqueles Sabores Saudáveis.
“Formiguinha que sou, sempre gostei muito de doces e comecei a fazer versões sem açúcar para atender uma necessidade minha depois do diagnóstico. Quando percebi que poderia ajudar outras pessoas, criei essa empresa como um propósito”, conta.
Pioneirismo e inclusão
Gleyde se apresenta como uma das pioneiras em Salvador na produção de doces “baby friendly”, voltados para bebês a partir dos nove meses e preparados sem açúcar, sem lácteos, sem conservantes e sem trigo.
Embora tenha surgido com foco no público infantil, a confeitaria ampliou o alcance ao longo dos anos. Hoje, atende pessoas com diferentes restrições alimentares, como pacientes oncológicos e intolerantes à lactose, e faz da inclusão o principal ingrediente da marca.
“Eu costumo dizer que excluo ingredientes para incluir pessoas”, resume Gleyde. Para ela, a frase traduz o propósito que orienta o negócio desde a criação.
Mercado em crescimento
De 2021 para cá, o mercado de alimentação saudável tem ganhado força em Salvador.
Um levantamento feito pela reportagem em plataformas de delivery identificou mais de 20 confeitarias especializadas em produtos sem açúcar, sem glúten ou sem lactose em atividade na capital baiana, sinalizando a expansão de um segmento que, há poucos anos, ainda era pouco explorado.
“Há quatro anos, esse mercado não era muito forte porque era muito mais caro. Hoje, a gente consegue ver a expansão de lojas de produtos naturais e confeitarias inclusivas. Fico muito feliz por isso”, comemora Gleyde.
Segundo a empreendedora, o público também mudou. Se antes a procura estava concentrada em pessoas com restrições alimentares, atualmente, consumidores sem qualquer limitação também passaram a buscar alternativas consideradas mais saudáveis.
Um recomeço dentro da própria cozinha
A trajetória da Aqueles Sabores Saudáveis também foi marcada por novos desafios. Depois de consolidar os primeiros anos da empresa, Gleyde precisou interromper novamente os planos.
“A empresa estava indo bem em 2021 e 2022, mas, em 2024, tive uma recidiva do câncer. Novamente, precisei passar por uma cirurgia e paralisar o trabalho da confeitaria. Precisei parar para me cuidar e voltar com mais força”, relembra.
Após a recuperação, ela retomou as atividades e voltou a investir no crescimento do negócio, que funciona em sua casa.
Em meio à reforma do imóvel, ela adaptou uma cozinha exclusiva para a produção dos doces que saem para diferentes bairros de Salvador.
Para manter a operação funcionando, segundo a empreendedora, são necessários cerca de R$ 10 mil em faturamento bruto por mês.
O cardápio reúne bolos festivos, tortas, cheesecakes, cookies e outras opções voltadas para pessoas com restrições alimentares ou que buscam hábitos mais saudáveis. Os preços variam entre R$ 15 e R$ 480.
O próximo passo é ampliar a operação. Entre os planos para o futuro da empresa estão a abertura de uma loja física e a entrada em aplicativos de entrega.
Quando a cozinha vira terapia
Ao relembrar a trajetória da empresa e os desafios enfrentados ao longo do caminho, a voz de Gleyde embarga. Entre lágrimas, ela explica que a cozinha acabou assumindo um papel que vai além do empreendedorismo.
“Estou aqui mais forte e mais corajosa, porque enfrentar essa doença duas vezes não é fácil. Passei por um momento muito difícil e a cozinha me ajuda como uma terapia. Para mim, cozinhar é terapêutico. Me emociono porque é difícil falar da doença e de todo o processo”, diz.
Plantar novas sementes
Antes de se tornar publicitária, Gleyde sonhava em cursar nutrição. Anos depois, foi justamente a paixão pela cozinha que a reconectou com esse antigo projeto.
Hoje, ela é estudante de nutrição e pretende usar a própria trajetória para incentivar outras mulheres a empreender por meio da capacitação e da troca de experiências.
“Trabalhar como empreendedora me deixa mais perto de mim. No futuro, penso em capacitar outras mulheres, por meio de cursos, para ir plantando sementinhas”, revela.
Para ela, o empreendedorismo pode representar independência financeira e novas oportunidades para outras mulheres, especialmente as negras, que ainda enfrentam obstáculos adicionais para consolidar um negócio próprio.
Atualmente, Gleyde faz parte das cerca de 700 mil mulheres que comandam empreendimentos na Bahia, segundo levantamento do Sebrae.
“Quero mais mulheres nessa estatística. Empreender não é fácil, é muito difícil, ainda mais sendo mulher, mas seja forte e enfrente. Se estiver com medo, vai com medo mesmo”, conclui.