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Piranhas na Bahia: entenda o comportamento desses peixes e os riscos reais para banhistas

Entre o mito do cinema e a realidade dos rios, professor explica as causas dos recentes ataques em Iaçu

Luan Julião

Por Luan Julião

27/01/2026 - 18:04 h

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Ataque que deixou feridos em Iaçu, no interior da Bahia
Ataque que deixou feridos em Iaçu, no interior da Bahia -

Quando episódios envolvendo piranhas vêm à tona, a reação costuma ser imediata: medo, espanto e a imagem quase automática de ataques violentos, rápidos e fatais. O imaginário coletivo, alimentado por décadas de histórias exageradas e por retratos cinematográficos sanguinolentos, faz parecer que esses peixes representam uma ameaça constante a quem se aproxima de rios e lagoas. Mas o que, de fato, acontece quando humanos e piranhas se encontram no mesmo espaço?

Foi nesse contexto que um trecho do Rio Paraguaçu, no distrito de João Amaro, em Iaçu, no centro-norte da Bahia, voltou ao centro das atenções após banhistas serem mordidos enquanto se refrescavam no local.

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Os ferimentos, concentrados principalmente nos pés, exigiram atendimento médico e levaram à interdição temporária da área para banho. Frequentado por centenas de pessoas, especialmente durante o período de férias, o ponto é um dos mais populares da região, o que ajuda a entender a dimensão do episódio e a repercussão que ele gerou.

Ataques chamam atenção, mas não são comuns, diz especialista
Ataques chamam atenção, mas não são comuns, diz especialista | Foto: Reprodução / Redes Sociais

Para além do susto e das imagens que circularam nas redes sociais, a situação abre espaço para uma discussão mais profunda sobre o comportamento das piranhas e a convivência entre humanos e esses animais. Professor de Ecologia e Biodiversidade Marinha do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Francisco Kelmo analisa o caso e esclarece por que ataques a humanos são considerados raros e quais fatores ambientais podem favorecer acidentes.

Ataques raros e comportamento defensivo

Francisco Kelmo explica que a presença de piranhas em rios do Nordeste é algo absolutamente natural. O que foge à regra são os ataques a humanos.

"A piranha é um animal muito comum nos nossos rios, mas os ataques a humanos não são comuns. Acidentes com piranhas envolvendo humanos são raros. Eles acontecem quando existe uma grande aglomeração desses peixes ou quando há uma grande concentração de pessoas dentro da água."

Segundo o biólogo, o comportamento do animal está diretamente ligado a estímulos no ambiente. A superlotação do rio, associada a barulho, movimentação intensa e água turva, pode criar um cenário propício para ataques defensivos.

"Pelo que pesquisei, é uma área muito frequentada durante esse período do ano. Muitas pessoas frequentam aquela região. Então, eu fico imaginando que havia uma quantidade grande de pessoas dentro da água, com movimentação, brincando, jogando água para lá, nadando, dando tibum. E, claro, o animal se sentiu ameaçado e terminou por atacar. Felizmente, aparentemente são ferimentos leves, principalmente nos pés."

O padrão dos ferimentos, inclusive, ajuda a entender o ocorrido.

"O que indica que não é um grupo grande e nem são animais de grande porte, felizmente."

Olfato aguçado e estímulos visuais

Outro fator importante está relacionado à capacidade sensorial das piranhas. O olfato extremamente desenvolvido faz com que pequenos ferimentos humanos sejam suficientes para atrair a atenção dos peixes.

"As piranhas percebem a presença das pessoas. E, se houver alguém com um corte, com uma feridinha, elas vão perceber, pois têm um olfato maravilhoso. Então, elas vão sentir. E, claro, a gente tem que lembrar o seguinte: quando nós, seres humanos, vamos tomar banho de rio, estamos invadindo a casa delas. Elas moram lá."

Especialista aponta que aglomeração, água turva e ferimentos favorecem ataques
Especialista aponta que aglomeração, água turva e ferimentos favorecem ataques | Foto: Reprodução

Além do cheiro de sangue, outros estímulos podem desencadear ataques.

"Então, elas se sentem ameaçadas. E se você tiver uma ferida, por exemplo, se a água estiver turva, se você estiver utilizando alguma coisa brilhante, tá? Isso vai chamar a atenção delas. Movimentos bruscos dentro da água também. Então, o instinto do animal é atacar."

Por isso, o especialista reforça uma série de cuidados simples, mas essenciais, para quem frequenta rios onde há registro desses peixes.

"O que se deve fazer é evitar regiões com água turva e regiões onde sabidamente se tenha conhecimento da ocorrência de piranhas. Essas são duas coisas que os humanos devem evitar. As recomendações três e quatro são: não entrar na água com relógio brilhante, joias ou bijuterias, coisas que brilhem, porque elas se sentem atraídas."

"E, se estiver com alguma ferida, por menorzinha que seja, elas têm um excelente olfato. Então, vão sentir o cheirinho de sangue, que é alimento, e vão atacar."

Da realidade ao cinema: o mito do ataque fatal

O medo popular em torno das piranhas, segundo o professor, está muito mais ligado à cultura pop do que à realidade científica. Filmes ajudaram a construir a imagem de ataques violentos e fatais em poucos segundos — algo que, na prática, não acontece.

"Mas não é uma coisa comum. Aquilo que a gente sabe de a piranha veio, atacou em dez segundos, em dois minutos virou só o esqueleto da pessoa, isso é coisa de filme. A gente precisa desmistificar essa situação. Não é assim, não é um ataque dessa natureza."

Um dos exemplos mais emblemáticos é o filme Piranha, lançado em 2010. Na trama, um acidente geológico desperta uma espécie pré-histórica de piranha extinta há milhões de anos, que passa a atacar violentamente banhistas em um lago lotado durante um feriado. A produção ficou marcada pelas cenas de extrema violência e sangue, reforçando a ideia de ataques rápidos, letais e incontroláveis.

Na vida real, porém, o cenário é bem diferente.

"Eu vi que as pessoas foram encaminhadas para atendimento médico, o que é super correto, mas não é algo para gerar pânico na população."

Piranhas nos rios da Bahia

De acordo com Francisco Kelmo, a presença de piranhas não se limita ao Rio Paraguaçu. Elas estão espalhadas por diversos cursos d’água do estado, sem que isso represente, necessariamente, um risco constante à população.

"A piranha pode estar presente em qualquer corpo de água doce, qualquer rio do nosso Nordeste, e os ataques aos seres humanos não são algo comum."

"Você tem piranha no Rio das Contas, no Rio Gavião, no Rio das Almas, em vários rios a gente encontra piranha. Agora, assim, você não encontra uma superpopulação, e eu não tenho registro, não tenho conhecimento de nenhum outro ataque nos últimos dez anos, por exemplo."

O professor ressalta que, mesmo que episódios isolados tenham ocorrido sem registro, não há histórico recente de ataques recorrentes que indiquem um problema crônico.

"Pode ser que tenha acontecido e que tenha passado despercebido, não foi registrado, não chegou ao conhecimento da gente, nem da universidade, nem da mídia, mas geralmente esses ataques não acontecem."

Monitoramento e próximos passos

Caso novos episódios sejam registrados no mesmo local, a recomendação é clara: aprofundar a investigação.

"Agora, se acontecer novamente e novamente, aí vai ser necessário montar uma equipe técnica para ir lá, coletar essas piranhas, estudá-las e ver o que está acontecendo."

Enquanto isso, a orientação é respeitar as interdições, observar as condições da água e lembrar que, ao entrar no rio, o ser humano é o visitante.

"Agora, elas estão avisadas de que nessa área não se deve acessar por enquanto. E, quando voltarem a acessar, se a água estiver turva, não entrem; se existirem movimentos muito bruscos, ficar pulando demais, braçadas longas, esses são os cuidados que a gente tem que ter. A piranha está no lugar dela, a casa dela é ali, e quando a gente entra, a gente está incomodando ela. Essa é a verdade."

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