BRASIL
Conheça o ex-padre que se tornou o primeiro pastor nascido no Brasil
Há 160 anos, o Brasil via surgir seu primeiro pastor em uma saga de fé e renúncia

Por Isabela Cardoso

Há 160 anos, o cenário religioso do Brasil Imperial era sacudido por uma trajetória sem precedentes. No dia 17 de dezembro de 1865, José Manuel da Conceição (1822-1873) era ordenado o primeiro pastor evangélico nascido em solo nacional.
No entanto, o que torna sua biografia um verdadeiro roteiro de cinema não é apenas o título, mas o fato de ele ter abandonado a batina católica sob a alcunha de "padre louco" para seguir uma vocação itinerante que terminaria em uma cela de prisão no dia de Natal.
Da batina ao questionamento
Nascido em São Paulo e criado em Sorocaba, Conceição cresceu em um ambiente de catolicismo popular. Sua aproximação com o protestantismo começou de forma curiosa: na Real Fábrica de Ferro de Ipanema, onde o contato com imigrantes europeus, ávidos leitores da Bíblia, o impressionou.
Mesmo ordenado padre em 1845, ele nunca se ajustou às normas de Roma. Em cidades como Limeira e Piracicaba, ficou conhecido por sugerir que imagens de santos fossem enterradas e por incentivar o povo a ler as Escrituras diretamente, prática então vista com desconfiança.
Chamado de "padre protestante" pelos próprios colegas de clero, ele desafiava dogmas como o celibato e a necessidade de intermediários para o perdão divino.
O nascimento de um símbolo presbiteriano
Em 1864, Conceição rompeu definitivamente com a Igreja Católica, trocando o conforto da carreira estatal pelo desafio da fé reformada. Sua conversão ao presbiterianismo, sob a tutela do missionário Alexander Blackford, foi um marco: pela primeira vez, a pregação protestante no Brasil ganhava sotaque e trejeitos locais, conectando-se diretamente com o povo.
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Como pastor, ele recusou o sedentarismo dos templos. Tornou-se um andarilho, percorrendo a pé o interior de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Sua figura exótica,um ex-padre que debatia sozinho e pregava a salvação apenas pela fé, atraía tanto admiradores quanto perseguidores, sendo alvo frequente de violência física incitada por setores conservadores.
Um fim trágico e um legado de liberdade
A vida de abnegação custou caro. Em 1873, com a saúde em frangalhos, Conceição foi confundido com um andarilho maltrapilho por um policial no Rio de Janeiro. Preso por "vadiagem", passou seus últimos dias em uma cela fria.
Libertado sem recursos, desmaiou em uma enfermaria de Campinho e morreu em 25 de dezembro, aos 51 anos, sendo enterrado como indigente.
Hoje, a data de sua ordenação é celebrada como o Dia do Pastor Presbiteriano. Mais do que um herói denominacional, José Manuel da Conceição é visto por historiadores como um precursor do pluralismo religioso no Brasil, simbolizando a coragem individual de romper com monopólios institucionais em busca da liberdade de consciência.
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