DIA DOS POVOS INDÍGENAS
Do Acre à Bahia, mulheres Huni Kuin fazem da força feminina caminho de cura
Entre a floresta e a cidade, Shãkuany, Mukani e Rãni transformam ancestralidade em presença e protagonismo

As águas do Rio Envira, que banham as terras de Feijó, no Acre, parecem desaguar em um fluxo invisível que alcança o litoral baiano. É nessa travessia que Shãkuany, Mukani e Rãni transportam a essência da floresta para novos territórios. Mais do que um deslocamento geográfico, as três jovens Huni Kuins sustentam a ideia de que a cura da humanidade passa pela força do feminino e pela reconexão com a terra.
A partida da AldeiaMe Nia Ibu Isaka não foi motivada por um simples desejo de viagem, mas por um chamado que transcende o plano físico. A decisão de cruzar o país foi selada durante a consagração do Nixi Pãe (ayahuasca). Desde então, a travessia deixou de ser uma opção pessoal para se tornar uma missão espiritual, onde o compromisso com a ancestralidade guia cada passo dado fora da aldeia.
Para celebrar o Dia dos Povos Indígenas, o portal A TARDE mergulhou na jornada destas mulheres que, através de medicinas sagradas e rituais, revelam um "feminismo" orgânico. Nele, o empoderamento não é um exercício individual, mas nasce da coletividade e de uma simbiose com a natureza que dispensa enfrentamentos ideológicos.
Diferente das vertentes políticas urbanas, o discurso delas não se pauta pela disputa ou pelo conflito. O foco é o equilíbrio e a busca da unificação. É um convite para que o mundo compreenda que o saber da floresta é um patrimônio necessário para o futuro de todos.
O chamado e a força do coletivo
A decisão de partir não foi individual. Embora o primeiro chamado tenha despertado em Shãkuany, a resposta ecoou em conjunto. Aos 23 anos, ela já levou a cultura de seu povo à Europa, mas desta vez compreendeu que a missão exigia mais vozes e presenças femininas.
"A gente consagrou a medicina e eu recebi esse chamado. Era pra ter vindo só mas, na minha visão, eu não sou só. Eu tenho irmãs, tenho as primas, tenho família, mulheres que também precisam desse conhecimento... A gente recebeu esse chamado, que seria nós três para poder vir trazer a força feminina, a voz da floresta", relata.

O grupo batizado como Siri Yka Ãibu Keneya carrega um simbolismo profundo. Shãkuany explica que Siri Yka representa o Txana, um pássaro sagrado que imita todos os sons, simbolizando a versatilidade e a força da mulher.
"Aquele que canta, conduz e guia espiritualmente através da força do canto. Ja Ãibu significa mulher, força criadora, guardiã da vida e da sabedoria. Keneya é o grafismo tradicional, a expressão sagrada que carrega identidade, história e proteção. Assim, somos a união da força do canto e da condução espiritual com a sabedoria feminina, expressas no grafismo que marca e protege nosso caminhar", explica a jovem.
O "feminismo" como natureza
Diferente dos contextos urbanos, na Aldeia Me Nia Ibu Isaka, a atuação feminina não nasce de uma disputa por espaços, mas da ocupação natural e ancestral deles. A força feminina se manifesta na condução das medicinas, na produção artística, na palavra que orienta e cura.
A organização social desafia padrões ocidentais marcados por desigualdade de gênero. Ainda assim, Shãkuany faz um alerta importante: essa realidade não é homogênea em todos os territórios indígenas.
"O machismo, dentro da minha comunidade, eu não vejo, porque a gente tem essa consciência. Trazemos essa consciência também para outros irmãos também se inspirarem... Dentro da minha comunidade não existe, mas existe sim, ao total, em outras comunidades", pontua a jovem, reforçando que a igualdade que vivem na Me Nia Ibu Isaka é uma conquista de consciência cultivada entre gerações.
Maternidade: um cuidado que se multiplica
Rãni, que visita a Bahia em sua primeira viagem fora do Acre, amplia essa compreensão ao falar sobre maternidade. Para ela, o cuidado com os quatro filhos não é um fardo individual, mas uma prática comunitária onde a vida e o trabalho se fundem.

“Ser mãe dentro de uma comunidade é você ensinar os seus filhos desde pequenos a respeitar o próximo, levar ele com você se for fazer um trabalho, se for fazer farinha... como se produz, como se planta a macaxeira, como se planta o milho. [...] As crianças trabalham na união, tanto nas brincadeiras, quanto nos trabalhos, quanto no esporte, no lazer, a gente está junto e misturado”, explica.
Esse modelo permite que as mulheres circulem, participem de atividades e ocupem espaços sem que a maternidade seja um impedimento. Pelo contrário, ela é integrada à liberdade feminina.
“É normal que eu viva a minha vida alegre, com a minha liberdade. Meus filhos não atrapalham, se eu vou para uma cerimônia e dá para eles irem, eles vão comigo. Se não dá para eles irem em outra comunidade, eles ficam e tem avó que fica com eles”, diz.
O contraste entre a floresta e o "comprável"
A imersão em Salvador trouxe reflexões sobre o modo de vida urbano. Enquanto Shãkuany já está habituada ao trânsito, para Mukani e Rãni, a Bahia representa o primeiro horizonte fora de seu estado.
Mukani fala com delicadeza sobre essa travessia. “Eu vim da floresta pela primeira vez e, para mim, é uma experiência que a gente, na cidade, vive de um jeito diferente… Na floresta, eu me sinto mais tranquila, eu respiro o ar. Aqui, para mim, é uma experiência de muita responsabilidade. Estou vendo e aprendendo aos passos”, reflete.

Já Rãni observa a dependência financeira das cidades para o acesso ao básico. Na aldeia, a subsistência vem da relação direta com o plantio e a pesca; na capital, a sobrevivência é mediada pelo consumo.
"Foi bem diferente de se adaptar nos primeiros dias... Aqui na cidade tem muita coisa, como é que eu posso falar... industrial. E lá na aldeia a gente consome mais as nossas plantações, os nossos legumes, a nossa pesca. Muitos caçam, outros não caçam e a gente vai vivendo na floresta. E aqui tudo é comprável. Se você não tiver recurso financeiro, você não compra", observa.
Intercâmbio de curas: saboaria e autonomia
A bagagem das três mulheres volta para o Acre mais pesada, preenchida por novos aprendizados. Além de ensinarem saberes da floresta, elas absorveram técnicas de saboaria e produção de incensos naturais com ervas da floresta.
"A gente aprendeu a fazer incenso natural com a Kamini [amiga de Salvador]. A gente aprendeu a fazer sabão natural. A gente pode fazer o nosso sabão com as nossas ervas da floresta, como o Katsaral, o Pixuri…. É uma forma de aprendizado que a gente vai levando pra nossa comunidade", explica Rãni.

A troca é o eixo central da experiência. Enquanto Mukani observa que as mulheres urbanas trilham caminhos muitas vezes solitários, ela reforça que a potência Huni Kuin reside no coletivo. “Nós mulheres fazemos as coisas acontecerem praticando, aprendendo, ensinando. Isso é uma honra para a gente que temos essa capacidade de levar o aprendizado para mulheres”, relata.
A resistência tem rosto de mulher
A trajetória do grupo também é um ato de reparação histórica. Elas recordam que muitas anciãs foram silenciadas, privadas de oportunidades e marcadas pela violência. Hoje, o movimento é outro: garantir que as jovens estudem, se fortaleçam e retornem para o povo.
“Essa juventude que hoje tem muita oportunidade que os nossos mais velhos não tiveram… Só não estuda quem não quer. Então a gente fala para os nossos filhos, para os nossos primos pequenos, ‘estude, seja alguém na vida e volte para o seu povo, para ajudar o seu povo”, reforça Rãni.
Ao final, Shãkuany finaliza com um conselho para todas as mulheres, indígenas ou não. "Não se prender ou ficar com medo de soltar, de falar o que realmente a gente traz para o nosso futuro. E se inspirar. Não se inspirar em nós, se inspirar em você mesma. Olhar para si e o que realmente quer para a vida... O caminho está aberto, só caminha aqueles que são realmente escolhidos”, destaca.
A afirmação, simples e direta, sintetiza uma visão de força que não depende de confronto, mas de consciência. Uma força que atravessa a floresta, chega à cidade e, sem precisar de tradução, mostra como a harmonia nasce entre o ser, o outro e a natureza.
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