113 MILHÕES DE ANOS
Fósseis de besouros da Era dos Dinossauros são encontrados no Nordeste
Espécies pertencem a um grupo que já foi dominante entre os besouros do passado


Fósseis de três espécies de besouros de 113 milhões de anos que, até agora, eram desconhecidos da ciência, foram encontrados na Chapada do Araripe, no Nordeste brasileiro. A descrição dos fósseis saiu no começo deste mês na revista especializada Systematic Entomology.
Todas pertencem a um grupo que já foi dominante entre os besouros do passado e ainda existe hoje, mas acabou se tornando raríssimo. Um deles tem parentes próximos na América do Sul atual, enquanto outro representa uma família inteira do grupo que está sendo descrita pela primeira vez.
A pesquisa é assinada por Gabriel Biffi, do Museu da Zoologia da USP (Universidade de São Paulo), Anderson Lepeco, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e Rolf Beutel, da Universidade Friedrich Schiller de Jena (Alemanha).
Os pesquisadores usaram técnicas de microtomografia para enxergar em detalhes as características anatômicas do Notocupes cratoensis, do Tetraphalerus vetustus e do Cratocupes scabrosus.
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As espécies
Segundo os indícios, o T. vetustus pertence a um gênero ainda presente em território sul-americano hoje.
A maior novidade do estudo é o C. scabrosus. O inseto de apenas 4 mm de comprimento tem características tão distintas que os pesquisadores decidiram classificá-lo numa nova família, a Cratocupedidae.
Vale pontuar que, mesmo levando em conta as diferenças importantes entre eles, todos pertencem ao grupo mais abrangente dos Archostemata.
Embora os besouros estejam entre os grupos de animais mais diversificados do planeta, com quase meio milhão de espécies conhecidas atualmente, os Archostemata representam apenas uma pequena fração dessa impressionante diversidade.
Atualmente, os Archostemata somam apenas cerca de 50 espécies viventes, das quais somente três ocorrem na América do Sul. O grupo sofreu um declínio tão acentuado ao longo da evolução que hoje há mais espécies conhecidas apenas por fósseis do que representantes vivos.
Isso indica que esses besouros eram muito mais abundantes durante a Era dos Dinossauros, sobretudo porque apenas uma pequena parcela dos organismos que viveram no passado acabou preservada no registro fóssil.
O que ajudou a identificar os besouros fósseis como membros desse grupo quase desaparecido foi a estrutura dos élitros, o primeiro par de asas desse tipo de inseto.
Essas estruturas formam a carapaça rígida que recobre o dorso do inseto e se abre para cima e para os lados, como as portas de um carro esportivo, quando o animal levanta voo. Ao pousar, os élitros voltam a se fechar, protegendo as delicadas asas membranosas usadas para o voo.
“Característica ancestral”
Segundo Gabriel Biffi, nos Archostemata, os élitros passaram por um processo de endurecimento incompleto, deixando na sua superfície as chamadas janelas elitrais. “É uma característica ancestral, presente também nas primeiras linhagens ao longo da evolução dos besouros”, disse o pesquisador.
Ele explicou ainda que o tórax dos besouros do grupo tem maior complexidade muscular. “Os élitros e os músculos associados a eles ainda desempenham um pequeno papel no voo, diferentemente dos demais grupos de besouros, nos quais o voo funciona com base apenas nas asas posteriores”, detalhou.
Por serem raros, os besouros do grupo têm estilo de vida e hábitos alimentares pouco conhecidos. É preciso levar em conta semelhanças com outros tipos de besouros com morfologia parecida.
A região em torno da boca dos bichos, por exemplo, sugere uma alimentação baseada em pólen e seiva. “Em outros Archostemata, essa área é tão reduzida que provavelmente sequer se alimentam no estágio adulto”, disse o pesquisador da USP.
Embora o T. vetustus tenha sido classificado em um gênero de besouros que ainda existe, essa conclusão pode refletir as limitações impostas pelo registro fóssil.
Segundo Anderson Lepeco, os fósseis de insetos costumam preservar poucos detalhes diagnósticos — características essenciais para determinar com precisão a posição de uma espécie na árvore evolutiva de seu grupo.
“É possível que novas tecnologias de obtenção de imagens 3D, além de análise comparativas profundas, combinando dados morfológicos com dados moleculares [DNA] das espécies viventes, levem a uma reavaliação desse posicionamento”, pontuou.
De acordo com Biffi, três hipóteses poderiam explicar o porquê esses insetos ficaram à margem dos demais besouros.
A primeira envolve a estrutura dos élitros e da musculatura associada a eles, que tornaria a locomoção menos eficiente. A segunda diz respeito às larvas, que escavam galerias na madeira e aparentemente se alimentam de uma gama muito mais restrita de espécies vegetais do que a maioria dos outros besouros.
A terceira está relacionada ao sistema excretor, que perde mais água do que o dos grupos evolutivamente mais recentes, limitando a capacidade desses insetos de ocupar ambientes mais secos.


