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Mau uso de químicos pode lesar meio ambiente

Thiago Conceição
Por Thiago Conceição
| Atualizada em
Mata Atlântica mantém apenas cerca de 7% da sua cobertura original no País | Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE
Mata Atlântica mantém apenas cerca de 7% da sua cobertura original no País | Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE -

Devido à pandemia do novo coronavírus, a autônoma Elizabeth Almeida, moradora do São Gonçalo do Retiro, aumentou em 50% o consumo de produtos químicos, a exemplo do álcool em gel, detergente, sabão, água sanitária. Apesar da importância dos produtos na limpeza e desinfecção de ambientes residenciais e áreas públicas, especialistas alertam que o manejo incorreto de substâncias saneantes causa diferentes impactos ambientais, tais como a contaminação do solo e recursos hídricos da cidade.

No Brasil, o começo da quarentena ficou marcado pelo aumento da procura por produtos de higiene pessoal, cerca de 30%, produtos de limpeza para a casa, 21%, e medicamentos, 14%. Está registrado ainda uma corrida pelo álcool em gel, com aumento de 83% na procura, sabonetes líquidos, 56%, e desinfetantes, 45%. Os dados são de um estudo da MindMiners, realizado no final de março.

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“A pandemia trouxe um medo e uma mania de limpeza. Ainda tenho a ajuda do marido para ficar limpando maçanetas, portas, lavando o chão. Como consequência a gente acaba usando e descartando muitas substâncias químicas. A água sanitária, por exemplo, vira e mexe é despejada no vaso sanitário”, conta Elizabeth.

Cuidados

Para o biólogo e especialista em gestão ambiental e desenvolvimento sustentável, Saulo Araújo, o cuidado com substâncias como o cloro, presente na água sanitária, precisa ser maior.

“É comum algumas pessoas jogarem quase um copo de água sanitária no vaso, por exemplo. Porém, tal produto tem que ter o uso controlado: 2 ml de cloro em 1 litro de água já mata todos os microrganismos. Ao entrar em contato com a matéria orgânica, o cloro ativo produz substâncias que podem causar câncer. Além disso, a microfauna, a exemplo das algas, pequenos peixes e vegetais, acabam sucumbindo ao acúmulo de tais componentes”, explica Araújo.

O titular da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência (Secis), João Resch, acrescenta que “o uso de qualquer produto químico de forma exagerada e sem controle técnico pode causar prejuízo para a nossa saúde e o ambiente em que vivemos”. Para combater tal problema, ele acrescenta que é necessário ações da população e do poder público, no nível municipal e estadual.

De acordo com o secretário do Meio Ambiente, João Carlos Oliveira, campanhas de conscientização e educação ambiental da população e a fiscalização das ações que comprometem o meio ambiente são essenciais para a preservação dos biomas do estado.

“Além de políticas públicas, como a fomentação de fóruns de sustentabilidade, é preciso investir em educação ambiental e modos de fiscalização e punição de irregularidades. É importante garantir a proteção dos biomas da Bahia. Falo da mata atlântica, do cerrado, da caatinga, das bacias hidrográficas”, diz Oliveira.

De acordo com a Lei de Crimes Ambientais (9.605/98), causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora resulta em punições que variam entre penas de multa, de R$ 50 até R$ 5 bilhões, e detenção, especificada de seis meses a um ano.

Impactos hídricos

Quando lançados em rios, o acúmulo de produtos e substâncias de limpeza, a exemplo de detergentes e itens com cloro ou hipoclorito de sódio, criam espumas que alteram a concentração de oxigênio no meio hídrico, alerta Eduardo Topázio, diretor de Recursos Hídricos e Monitoramento Ambiental do Inema.

“Existem químicos que não são tão biodegradáveis. Por isso, se por um lado eles podem matar bactérias, por outro podem ficar acumulados e gerar um desequilíbrio ambiental no recurso hídrico, afetando todos os microorganismos. A principal solução para a questão é o correto tratamento das redes de água e esgoto”, explica Topázio.

Em nota, a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) afirma apenas que “não houve mudanças no processo de tratamento de esgoto na Embasa durante esta quarentena. O material de limpeza não interfere em rede de esgoto”.

Efeito quarentena

O diretor ainda reforça que o Inema faz a fiscalização remota das áreas verdes do estado. “Diante da possibilidade de um eventual aumento do desmatamento por causa da pandemia, pois pessoas más intencionadas aproveitam a quarentena para tentar desmatar áreas, vale lembrar que temos uma tecnologia que permite o controle remoto das matas”, conclui.

O desafio do momento de quarentena também interfere na coleta e análise de amostras das águas, a exemplo de praias, rios e lagos. De acordo com Topázio, por causa da redução de mobilidade causada pela restrição do transporte intermunicipal em cerca de 225 cidades baianas, medida governamental que visa conter a disseminação do coronavírus, a coleta e análise de amostras estão reduzidas e concentradas em Salvador e Região Metropolitana.

“A nossa capacidade de acompanhar os fenômenos ambientais nos locais está reduzida. Após a coleta de uma amostra de água no interior, por exemplo, ela precisa chegar em até 24 horas no laboratório de análise, localizado na capital. Caso isso não ocorra, a gente perde a análise daquele material coletado”, diz Topázio.

Olhar futuro

Segundo Gabriela de Toledo, engenheira sanitarista e integrante do Observatório do Saneamento Básico da Bahia (OSB-BA), o correto tratamento da água e do esgoto e a conscientização da população sobre o uso dos produtos de limpeza são os pilares para o futuro do meio ambiente.

“Precisamos fazer as seguintes perguntas: Estamos tratando de forma adequada a nossa água e esgoto? Quando sim, os riscos da poluição por tais substâncias caem drasticamente. Outra questão: Estamos usando produtos biodegradáveis? Caso resposta seja afirmativa, também estamos contribuindo para mitigar tal problema”, diz Toledo.

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