CADERNO 2
‘Anatomia do Caos’, de Dandara Ferreira, destrincha a CPI da Covid
Documentário mostra a necessidade de lembrar a banalização da crueldade, de modo a evitá-la


Anatomia do Caos, documentário dirigido pela cineasta Dandara Ferreira, tem como tema central a CPI da Covid-19, instaurada pelo Senado Federal no começo de 2021. Mas ao final dos breves 90 minutos de filme, tal temática se expande para algo que vai além de apenas uma análise do processo legal e político que investigou as omissões do genocida governo de Jair Bolsonaro durante a pandemia.
E mesmo com a notória ausência de condenações e do arquivamento das investigações após o inquérito finalizado sendo elementos já conhecidos desde os créditos iniciais, o sentimento de angústia diante de tamanho descaso e desrespeito à vida humana atormenta os espectadores que viveram o período.
Tendo como arma de denúncia o próprio cinema e suas possibilidades narrativas, a diretora Dandara Ferreira, ao ver o aumento constante do número de mortos que o consórcio de veículos de imprensa divulgava, uma vez que os dados oficiais do governo eram omitidos a mando do presidente da República, decidiu, quando o início da CPI foi anunciado em 2021, seguir para Brasília no intuito de captar, in loco, o máximo de imagens possíveis daquele momento crucial.
“Durante a pandemia, havia um sentimento de revolta do que a gente estava vivendo no país naquele momento. Era uma coisa muito difícil a gente não saber até quando viveríamos naquela situação. Tudo era muito incerto”, relembra a cineasta em entrevista ao Grupo A TARDE.
“Eu comecei a pensar em fazer algo ainda na época em que o número de mortes só crescia. Eu senti que o cinema poderia dar voz ao povo brasileiro. Estava todo mundo sendo violentado de uma maneira cruel. E acho que não podíamos aceitar a banalização e nem neutralizar a crueldade. Naquele momento, eu tentei pensar no que eu poderia fazer do meu lugar, nesse lugar de revolta. E o meu instrumento era uma câmera”, crava Dandara.
Montagem essencial
Utilizando um modo de narrativa que prefere um documentário com foco nos acontecimentos reais, sem a necessidade de inserções de cartelas de texto, entrevistas diretas, tampouco uma narração em voice over, Dandara, ao lado da montadora Lara Beck, condensaram centenas de horas gravadas, tanto da CPI quanto dos bastidores que a diretora teve acesso, em uma hora e trinta minutos de um documentário direto.
“Esse filme deu bastante trabalho. Porque, como eu não tinha nenhum roteiro, nenhum guia, não sabia o que depois seria importante, eu meio que saía filmando loucamente tudo. Até porque durante esse período, eu não sabia o resultado que sairia dessa investigação. Não sabia quem ia ser indiciado, se alguém ia ser preso”, relembra Dandara.
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“Lara foi uma pessoa essencial. Uma pessoa chave. Inclusive, ela entra como participação no roteiro, também. Porque acontece muito isso em documentário, de um montador entrar no roteiro, também. Porque eu acho que no filme tem três fases do roteiro. Tem a primeira fase, que é o guia, sua ideia inicial. Mas, no meu caso, eu nem tinha. Aí, depois, vem a época da filmagem e, depois, a montagem, que é quando acaba mudando muito. Esse filme aconteceu, na verdade, muito na montagem”, pontua Dandara, destacando que o processo de lapidação do material e descoberta de um norte narrativo até chegar aos personagens centrais do seu filme.
“Demoramos muito tempo para desvendar esse filme. Por mais que a gente tivesse o recorte de contar essa história da pandemia através da CPI, era muito material, muitos personagens. A gente poderia ir por vários vieses, assim. Mas o filme precisava ter um recorte. E a gente foi encontrando aos poucos. Houve muita troca entre nós. Muitas conversas. E aí a primeira montagem em que a Lara fez um esboço, acho que eram quase cinco horas para, depois, irmos tirando, lapidando. Foi aí que chegamos nos personagens”, explica e enfatiza o momento de encontro dos três atos de Anatomia do Caos. “O primeiro ato seria a questão do gabinete paralelo. O segundo ato, sobre corrupção e o terceiro ato, sobre fake news e negacionismo. Mas chegamos a isso depois de muito tempo, quase dois anos”, afirma.
A partir do olhar de outro montador, o filme chegou à sua versão que agora estreia nos cinemas. “Eu fiquei trabalhando com Lara uns três anos. E o (montador) Renato (Sircilli) entra no momento em que eu tive uma conversa muito franca com Lara. Porque eu acho que tem uma hora que quando a gente fica trabalhando muito no material, nosso olhar fica meio viciado. Já não conseguimos muito olhar além. E eu estou falando não somente dela, mas de mim mesma, que já estava com esse olhar viciado. Porque era preciso um olhar fresco que foi trazendo coisas do material que a gente até não tinha visto, não tinha percebido, que seria importante para dar essa costura. Foi meio que lapidada. Renato chegou no final para dar uma lapidada para esse formato de filme ao qual chegamos aí”, explica a diretora.
Para sempre na memória
Na narrativa e estruturação dos seus três atos, Anatomia do Caos acaba por criar para sua audiência um doloroso compêndio de um momento doloroso para os brasileiros. Em seu final, quando chegamos aos depoimentos dos familiares das vítimas e vemos Márcio Antônio, que perdeu o filho para a covid e lutou contra bolsonaristas que tentaram impedir um ato de protesto nas areias de Copacabana, um dos momentos mais simbólicos é quando ele afirma querer um pedido de desculpas da maior autoridade do país por conta de seu descaso, por conta de sua irresponsabilidade em não adquirir as vacinas com antecedência.
“Por causa dessa fala desse pai, eu cheguei a procurar o Bolsonaro. E isso eu não falei para ninguém. Estou falando isso para alguém pela primeira vez. Não que eu super quisesse entrevistar Bolsonaro, mas eu queria que ele respondesse a esse pai. Se ele gostaria de pedir desculpa a esse pai pelo que aconteceu durante a pandemia”, revela Dandara.
Anatomia do Caos se encerra com o sentimento de angústia pontuado no começo desse texto, e deixa uma mensagem clara de memória para que o mesmo erro não se repita na escolha de representantes inaptos.
“Eu gostaria que o filme continuasse sendo visto daqui a dez, vinte, trinta anos. Porque eu acho que ele não fala apenas sobre uma eleição, sobre um momento. Acho que ele fala, também, sobre a relação entre estado, a relação com a democracia. Sobre o valor da vida humana. Porque o filme mostra que tem uma banalização da vida humana. A postura de Bolsonaro, esse tempo inteiro, foi sobre isso”, frisa Dandara Ferreira, que finaliza destacando a importância de não se esquecer.
“Eu acho que, também, tem essa questão da memória. Porque se não tivermos memória, não evoluímos. É importante termos memória para evoluir. Para que coisas que aconteceram não se repitam. Eu espero que o filme vá além. Que também vire um registro histórico do momento que vivemos. Espero que isso nunca mais se repita”.
‘Anatomia do Caos’ / Dir.: Dandara Ferreira / Salas e horários: cinema.atarde.com.br


