FOLIA
Olodum e Timbalada reagem a possíveis mudanças de circuitos
Benção do Olodum, no Pelourinho, reuniu Timbalada e Alinne Rosa e vira palco de debate

Por Beatriz Santos e Gustavo Nascimento

A possibilidade de mudanças nos circuitos do Carnaval de Salvador ganhou novos contornos nesta terça-feira, 20, durante a Benção do Olodum, realizada no Pelourinho, no Centro Histórico.
O encontro, que integra a programação do Verão do Olodum 2026, reuniu convidados como Timbalada e Alinne Rosa, e também abriu espaço para artistas comentarem o futuro da folia e a necessidade de equilibrar a festa entre os trajetos tradicionais, especialmente entre Barra-Ondina e Campo Grande.
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Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, artistas e representantes de diferentes gerações da música baiana comentaram a possibilidade de mudanças nos circuitos do Carnaval de Salvador e defenderam a manutenção dos trajetos tradicionais, com mais equilíbrio entre Barra-Ondina e Campo Grande.
O cantor do Olodum, Lucas Di Fiori, avaliou que qualquer proposta para “desafogar” um circuito precisa fortalecer os dois principais percursos da folia. “Eu acho que temos que permanecer nos circuitos tradicionais, pelo menos é a minha opinião. Não posso falar pela instituição, mas a minha opinião é que precisamos fortalecer esses dois circuitos”, afirmou ao Portal A TARDE.
Lucas defendeu que concentrar investimentos em um só lado do Carnaval pode gerar ainda mais desequilíbrio. “Não adianta a gente reforçar, por exemplo, o da Barra, porque ele vai inchar e enfraquecer o daqui da Praça Municipal, do Campo Grande. Então, acho que tem que fortalecer os dois”, disse.
Na mesma linha, o cantor também ressaltou que uma divisão real do fluxo de pessoas depende de compromisso com os dois circuitos, inclusive por parte das atrações custeadas pelo poder público. “Se a prefeitura banca blocos pipoca e o governo banca blocos pipoca, essas bandas que são bancadas pela prefeitura e pelo governo têm que ter a obrigação de desfilar nos dois circuitos”, argumentou.
Para ele, a medida ajudaria a manter a força do Carnaval em diferentes pontos da cidade. “É importante dividir para realmente termos dias maravilhosos e fortes aqui no circuito do Campo Grande, e dias fortes no circuito da Barra”, afirmou. E concluiu com um alerta: “Mas transferir para outros locais é você transferir o problema, que vai continuar o mesmo”.
Já o músico Buja Ferreira, da Timbalada, reforçou a importância de olhar com mais atenção para o Campo Grande, especialmente por ser um espaço de tradição e presença popular. “É importante olhar para o Campo Grande. Eu, que já puxei muito esse circuito, acho que é bom ter mais atenção aqui, pelo público e pelas famílias”, declarou.
Ele lembrou da própria vivência no circuito como espectador, ainda criança. “Eu lembro que painho me levava lá pra assistir”, afirmou. Para Buja, o excesso de foco na Barra contribui diretamente para a concentração do público. “Eu acho que séria bom termos uma atenção maior no Campo Grande, porque aí vai afogar mais, porque às vezes dão muita atenção para a Barra”, completou.
Defendendo a permanência dos circuitos tradicionais, o músico pediu um olhar mais sensível para o Centro. “Eu acho que é importante manter esses dois, que já existem mesmo, mas olhar o Campo Grande com carinho, que lá está o povão esperando: aquele cuidado, aquele carinho, aquele amor”, disse.
Futuro do Carnaval

Ao falar sobre como imagina o Carnaval de Salvador daqui a 10, 20 ou 30 anos, Buja Ferreira defendeu mais organização e estrutura, sem perder a ligação com os circuitos que sustentaram a festa ao longo do tempo.
“Eu acho que é preciso ter mais organização, mais atenção. É muito organizado, sim, mas é preciso ter mais atenção para isso, para que daqui a 10 anos esteja mais bem estruturado”, disse.
Ele também comparou mudanças que percebe no Campo Grande com lembranças antigas da festa e reforçou que o circuito carrega a origem de movimentos fundamentais do Carnaval de Salvador. “É preciso ter esse cuidado com o Campo Grande. O Campo Grande tem os blocos afros, porque o Carnaval nasceu dos blocos afros, do Ilê Aiyê, Gandhi… Eu lembro que ficava esperando o Ilê passar. Isso é muito importante”, afirmou.
Benção do Olodum no Pelourinho reúne Timbalada e Alinne Rosa
O ensaio integra a programação do Verão do Olodum 2026 e contou com as participações de Alinne Rosa e Timbalada, reunindo milhares de pessoas em uma noite marcada pela força dos tambores.
Cantor do Olodum, Lucas Di Fiori destacou que o ensaio carrega um valor simbólico para o grupo e para a cidade. “Para a gente é um prazer muito grande. O Olodum que eu acho que tem o ensaio mais longevo daqui da cidade”, afirmou.
Ele relembrou como a tradição começou a partir de um encontro que misturava fé, convivência e música no Centro Histórico.
“O ensaio começou anos atrás, com a missa na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, as pessoas vinham pra missa, depois saiam para tomar o seu cravinho e o pessoal do Olodum ficava reunido ali no teatro Miguel Santana, jogando dominó e aquilo virou uma batucada, virou música, virou som, virou um ensaio”, contou.
Ao relacionar a festa com o território em que ela acontece, Lucas reforçou a conexão do Olodum com a identidade do Centro. “E estamos aqui até os dias de hoje, 46 anos de Olodum, a caminho dos seus 47, aqui nessa Praça das Artes, no celeiro do samba-reggae.”
Ele ainda destacou que a Benção é um momento de celebração que conecta Salvador ao mundo. “É um privilégio muito grande receber baianos e turistas do mundo inteiro que vem aqui nos visitar e receber essa turma com a maior alegria e a força dos nossos tambores, é tudo que a gente gosta.”
Olodum e Timbalada exaltam união da percussão

Um dos pontos altos da noite foi o encontro entre o Olodum e a Timbalada no Pelourinho. Ao comentar a participação do grupo convidado, Lucas Di Fiori rejeitou qualquer ideia de disputa entre as bandas. “Rivalidade nunca teve. Eu acho que a percussão nos une, ela não nos divide”, declarou.
Ele ressaltou o papel histórico das duas instituições dentro e fora da Bahia. “A Timbalada é uma das grandes forças da percussão mundial, assim como é o Olodum, e ficamos felizes de receber nossos irmãos”, disse.
Lucas também destacou que a parceria é constante, inclusive com agenda compartilhada. “Estávamos no ensaio deles no domingo, a gente tem show agora, dia 7 de fevereiro, em Belém, então a gente estamos sempre juntos. Somos amigos, e é isso: a união dos tambores”, afirmou.
Ao lembrar de encontros anteriores durante a folia, ele reforçou o simbolismo do movimento coletivo. “Já fizemos arrastão de Carnaval, há alguns anos, juntos, com a Timbalada do lado. Então, a união faz a força.”
Entre as participações da noite, Compadre Washington comentou o impacto da Benção do Olodum na movimentação do Centro Histórico e reforçou a importância do evento para Salvador. “Esse evento já acontece há anos. Eu sou um dos precursores desse evento aqui”, disse.
O artista destacou sua ligação afetiva com o lugar. “Eu sou nascido e criado aqui, hoje, agora, no Centro Histórico”, disse. Ao lembrar de um nome antigo associado à região, ele completou: “Antigamente, isso aqui era chamado Marcial Pelourinho”.
Para Compadre Washington, a Terça-Feira da Benção ajudou a fortalecer o Centro como ponto turístico e cultural. “Então, a Terça-Feira da Benção é uma festa que revitalizou o Centro, para onde vem o Brasil inteiro e quer conhecer o Centro Histórico, quer conhecer o som do mundo”, afirmou.
E concluiu ressaltando o alcance da música baiana. “Então, para mim, é gratificante levar a música da Bahia para o mundo inteiro”.
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