REINVENÇÃO
Elas no terror: mulheres reinventam gênero e desafiam estereótipos no cinema
Cineastas e fãs mostram como o horror virou espaço de criação, crítica social e ruptura de expectativas

Historicamente associado a diretores homens e a narrativas que colocavam mulheres no papel de vítimas, o cinema de terror tem sido cada vez mais ocupado por cineastas e fãs que transformam o gênero em espaço de expressão feminina e crítica social.
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, diretoras, produtoras e espectadoras revelam como o horror pode ser uma linguagem potente para explorar experiências femininas e romper estereótipos sobre o que mulheres podem ou não consumir e criar.
O terror sempre foi um dos gêneros mais populares da história do cinema. Do suspense psicológico aos monstros sobrenaturais, passando pelo gore e pelo body horror, o medo sempre atraiu público. Ainda assim, apesar da popularidade, durante décadas foi raro encontrar narrativas femininas sendo construídas por mulheres dentro desse universo.
Nomes como Wes Craven, John Carpenter e Tobe Hooper ajudaram a consolidar o gênero, enquanto as personagens femininas frequentemente apareciam apenas como vítimas, objetos de desejo ou figuras frágeis. Ao mesmo tempo, o próprio gosto pelo terror também foi muitas vezes associado a um público exclusivamente masculino.
Apesar disso, a presença feminina no terror não é recente. Desde o século XIX, quando Mary Shelley publicou Frankenstein, mulheres já contribuíam para imaginar o medo e o fantástico. No cinema, roteiristas como Ruth Rose participaram de produções clássicas como King Kong (1933). Ainda assim, muitas dessas contribuições foram esquecidas ou receberam pouca visibilidade ao longo do tempo.
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Nos últimos anos, porém, a presença de diretoras no gênero tem ganhado cada vez mais destaque. Entre os casos recentes está A Substância (2024), dirigido pela francesa Coralie Fargeat e estrelado por Demi Moore e Margaret Qualley, que conquistou cinco indicações ao Oscar 2025.
Para cineastas, pesquisadoras e fãs, o horror se tornou também um território político e simbólico. Mais do que sustos ou violência gráfica, o gênero permite discutir temas como trauma, repressão, corpo, desejo, maternidade e desigualdade social, aspectos que atravessam diretamente a experiência feminina. E, cada vez mais, mulheres estão ocupando esse espaço tanto atrás das câmeras quanto nas plateias.
O olhar feminino que está transformando o cinema de terror
Se durante décadas o terror foi construído majoritariamente sob um olhar masculino, a presença crescente de mulheres na direção e no roteiro tem transformado profundamente a maneira como o medo é representado nas telas.
Para a cineasta e produtora Fernanda Matos, quando uma mulher assume a direção, o impacto não está apenas na história contada, mas na forma como ela é construída.
“Quando uma mulher ocupa a direção de um filme de terror ou de qualquer outro gênero, muitas vezes muda o ponto de vista, o cinema em si é a arte do diretor, então consequentemente se é uma mulher que está no cargo de liderança, aquela narrativa vai moldar a sua perspectiva, afirma em entrevista ao Cineinsite A TARDE.
"O que muda, portanto, não é apenas a história contada, mas quem tem o poder de contá-la e isso transforma profundamente o significado do que vemos na tela”, completa.
Segundo ela, essa mudança de perspectiva permite que o corpo feminino deixe de ocupar o lugar de objeto dentro das narrativas. “Quando uma mulher dirige, há a possibilidade de deslocar essa perspectiva do corpo feminino como objeto do olhar, da violência ou do desejo masculino, tirando-o do lugar de vítima e o colocando como protagonista”, explica.
A cineasta, roteirista e atriz Juliana Oliveira Silva, que dirigiu o curta Marcos (2023) e o mais recente Mucambo (2025), também observa que a presença feminina transforma a forma como o medo é construído cinematograficamente.
“Quando uma mulher dirige um filme de terror, não é apenas a narrativa que se transforma, mas a maneira como o medo é construído e percebido pelo público. Eu sinto que o nosso olhar ele é atento a detalhes durante toda a construção de uma produção cinematográfica”, diz.
Ela acrescenta que o horror dirigido por mulheres pode se afastar da lógica de excessos visuais e apostar em outras camadas narrativas. “Eu como diretora, por exemplo, entendo que o horror ele pode ser expressado com silencio, com memória, com tensões entre personagens. Até porque o medo, não necessariamente precisa de excessos. Isso cria uma relação mais íntima com o público”, afirma.

Essa transformação no olhar também dialoga com a maneira como as personagens femininas são representadas. Em muitos filmes clássicos do gênero, mulheres apareciam como vítimas histéricas ou figuras vulneráveis.
Para Juliana, a presença feminina na direção ajuda a questionar essas representações. "Quando mulheres assumem a narrativa, essa lógica começa a se deslocar. O medo deixa de ser apenas algo imposto às personagens e passa a ser investigado a partir da nossa própria experiência”, completa a diretora.
Fernanda Matos também destaca que essa mudança não acontece apenas no nível narrativo, mas também na forma como a violência é representada. “O terror deixa de olhar o corpo feminino apenas como objeto de desejo, punição ou espetáculo e passa a tratá-lo como protagonista. Isso pode significar também uma transformação na forma como a violência é representada: menos fetichizada, mais contextualizada, às vezes mais psicológica do que gráfica”, explica.
Essa diferença de abordagem pode ser percebida em diversos filmes contemporâneos dirigidos por mulheres. Obras como O Babadook (2014), de Jennifer Kent, exploram o luto e o estresse parental; Saint Maud (2019), de Rose Glass, investiga obsessão religiosa e isolamento; enquanto Raw (2016), de Julia Ducournau, utiliza o body horror para discutir identidade, desejo e transformação.
Mesmo dentro de produções mais recentes e populares, o olhar feminino também tem ampliado as possibilidades do gênero. Filmes como Morte, Morte, Morte (2022), Observador (2022), Boa Noite, Mamãe (2014) e O Chalé (2019) mostram que o terror pode dialogar com diferentes estilos narrativos, do suspense psicológico ao horror social, sem perder complexidade.
Para fãs do gênero, essa mudança de perspectiva também é perceptível na experiência de assistir aos filmes. A empreendedora Aline Cerqueira Santana, que mantém um brechó alternativo e é apaixonada por terror desde a adolescência, acredita que a presença feminina nas narrativas traz novas possibilidades.
“Quando mulheres dirigem filmes de terror, elas oferecem uma visão feminina, um olhar sem objetificar e sexualizar a mulher. A narrativa fica mais feminista, com temas mais voltados ao universo feminino, focando no psicológico e na crítica social”, afirma.
Já a produtora Michele Freitas, colaboradora da Mostra Cine Horror, observa que o olhar feminino muitas vezes revela experiências que passam despercebidas em narrativas tradicionais. “O olhar feminino costuma revelar uma realidade que passa despercebida pela sociedade: situações que, para os homens, são corriqueiras, mas que, para as mulheres, configuram verdadeiras cenas de horror”, afirma.

Para as cineastas, essa transformação no gênero também reforça o potencial político do terror. “O horror permite exagerar, distorcer e tornar visível aquilo que muitas vezes é naturalizado. Ele escancara estruturas de poder através da metáfora. Por isso, sim, pode ser uma ferramenta política”, diz Fernanda Matos.
Juliana Oliveira Silva concorda e vê no gênero um espaço de enfrentamento. “O terror trabalha com metáforas poderosíssimas. Ele é profundamente político, especialmente para mulheres. O monstro, muitas vezes, é a própria estrutura social. E quando mulheres utilizam o horror como linguagem, elas estão transformando medo em ferramenta crítica”, afirma.
Entre o medo e a política: como o horror expõe experiências femininas
Se para muitos espectadores o terror ainda é associado apenas ao susto ou à violência gráfica, para muitas cineastas o gênero funciona como uma poderosa ferramenta para abordar experiências sociais, emocionais e políticas que atravessam a vida das mulheres. O horror permite exagerar medos, transformar metáforas em monstros e dar forma visual a angústias que, no cotidiano, muitas vezes permanecem invisíveis.
Para Fernanda Matos, o fascínio pelo gênero está justamente na capacidade do terror de revelar conflitos profundos que fazem parte da experiência humana, especialmente da experiência feminina. “Como mulher, acredito e percebo que o feminino é muito mais complexo, profundo, contraditório e forte do que a superficialidade, a fragilidade e a ‘histeria’ que os estereótipos sociais, historicamente tentaram impor”, afirma.
Segundo ela, o horror abre espaço para discutir temas que outros gêneros costumam suavizar. “O cinema de horror evidencia essa complexidade lidando com medo, violência, desejo, repressão, corpo, trauma, culpa, sobrevivência e até o sobrenatural dentro das narrativas, temas que atravessam intensamente a vivência de muitas mulheres”, explica.
Essa dimensão simbólica do terror também aparece na forma como o gênero dialoga com experiências cotidianas. Para Fernanda, o medo retratado no cinema muitas vezes tem origem em situações concretas. “O medo, para muitas mulheres, não é apenas uma construção imaginária, ele faz parte do cotidiano. Medo de andar sozinha, medo da violência, do julgamento, do silenciamento”, afirma.
Juliana Oliveira Silva também vê o horror como um espaço onde experiências femininas podem ganhar forma narrativa sem filtros ou suavizações. “O fascínio pelo cinema de horror, ele revela que a experiência feminina é atravessada por camadas que nem sempre são visíveis. Tenho pra mim que somos marcadas por medos que não são apenas imaginários. São sociais, históricos, íntimos e muitas vezes cotidianos”, diz.
Segundo ela, o gênero permite transformar essas sensações em linguagem cinematográfica. “O horror ele permite olhar para essas experiências sem romantizar. Ele transforma opressão, silenciamento, violência, desejo reprimido e até a própria sensação de vulnerabilidade em imagem, som e narrativa”, afirma.
Essa perspectiva também ajuda a explicar por que o terror dirigido por mulheres frequentemente aborda temas relacionados ao corpo e à identidade feminina. Para Juliana, o corpo feminino é um dos territórios mais potentes dentro do gênero. “Eu sinto que o terror permite falar, principalmente, sobre o corpo, porque o corpo feminino sempre foi um território de disputa. Um lugar de controle, julgamento, desejo e também de resistência. No horror, esse corpo pode se transformar, se rebelar e se expandir”, afirma.
Nos últimos anos, diversos filmes têm explorado justamente essas transformações. O body horror, subgênero que utiliza mutações e transformações físicas para provocar desconforto, tem se consolidado como um campo fértil para discutir temas como identidade, autonomia corporal e pressão estética. Um exemplo marcante é Titane (2021), de Julia Ducournau, que mistura horror e drama para abordar questões de identidade e pertencimento por meio de transformações físicas extremas.
Essas discussões também aparecem em obras que utilizam o terror para refletir sobre as expectativas sociais em torno da aparência feminina. Filmes como American Mary (2012), Helter Skelter (2012), A Substância (2024) e o recente A Meia-Irmã Feia (2025) exploram a pressão estética e a busca por um ideal de beleza inalcançável, transformando experiências cotidianas entre as mulheres em verdadeiros pesadelos narrativos.
Para Fernanda Matos, essa liberdade temática faz do horror um território privilegiado para a criação artística. “Acredito que é no gênero do terror que se encontra maior liberdade narrativa para abordar temas que, em outros gêneros, costumam ser suavizados. O horror permite questionar questões sociais de forma crua e simbólica”, afirma.
Ela também destaca que o gênero permite explorar experiências como maternidade e trauma sem recorrer à idealização. “A maternidade pode ser retratada não apenas pela idealização, mas também pela ambivalência, pelo medo, pela exaustão e pela ruptura”, diz a cineasta, citando reflexões presentes em seu curta-metragem Âmago.

Para Juliana Oliveira Silva, o horror também tem uma dimensão política importante justamente por transformar estruturas sociais em metáforas visuais. “O horror trabalha com metáforas poderosíssimas. Ele é profundamente político, especialmente para mulheres. O que parece ‘fantástico’ na tela frequentemente é apenas uma amplificação de algo muito real”, afirma.
Essa percepção também é compartilhada por mulheres que acompanham o gênero como espectadoras. A produtora Michele Freitas, acredita que o horror permite discutir temas que muitas vezes são ignorados em outras narrativas.
“No terror, estamos livres das amarras sociais, dos estereótipos dos valores morais e dos bons costumes. Podemos exercer nossa liberdade criativa, inclusive, para construir uma crítica ao comportamento padrão da hipocrisia e da falsa bondade”, afirma.
Entre o fascínio e o preconceito
Apesar do crescimento da presença feminina no cinema de horror, muitas mulheres que consomem ou produzem o gênero ainda enfrentam julgamentos sociais. A ideia de que o terror seria um território “masculino”, associado à violência ou ao medo, ainda provoca estranhamento quando parte do público feminino.
Michele Freitas afirma que o interesse pelo gênero nem sempre é bem recebido socialmente. “Algumas pessoas próximas sempre soltavam uma opinião preconceituosa referente ao meu gosto pelo gênero do terror. Normalmente, elas imaginavam que eu tinha que gostar de animações ou de filmes mais convencionais”, conta.
Durante a adolescência e a vida escolar, isso chegou a influenciar seu comportamento. “No ambiente escolar, em algumas bolhas sociais, para ser aceita nos grupos, camuflar meu gosto pelo terror era a melhor maneira de não me sentir uma garota esquisita”, afirma.
Para a cineasta Juliana Oliveira Silva, essa reação revela expectativas culturais ainda rígidas sobre o que seria considerado um gosto “adequado” para mulheres. “Muitas vezes o gosto pelo terror vem acompanhado de um olhar atravessado, como se fosse algo incompatível com o que esperam de uma mulher”, afirma.
Segundo ela, esse estranhamento está ligado a uma associação histórica entre o feminino e narrativas mais leves. “Eu percebo que existe uma ideia de que o feminino deve se associar a algo ‘leve’, ao romântico, ao delicado, essas coisas… e o terror ele parece romper com essa imagem”, explica.
Durante muito tempo, isso levou a cineasta a sentir que precisava justificar esse interesse. “Em alguns momentos, senti que precisava explicar que o terror é um gênero sofisticado, cheio de camadas e até de potência política”, diz. “Hoje eu não acho que eu tenha que explicar para validar, eu afirmo. Gostar e fazer terror também é uma forma de ocupar espaço.”
A cineasta Fernanda Matos também observa que essas expectativas fazem parte de uma construção social mais ampla sobre o que significa ser mulher. “A mulher dentro da sociedade ainda é moldada a partir de um ideal de fragilidade e dependência de uma figura masculina forte”, afirma.
Segundo ela, essa lógica atravessa diversas áreas da vida cotidiana. “Essa construção não aparece apenas nos conteúdos audiovisuais, mas atravessa toda a formação do estereótipo feminino seja nas roupas, nos brinquedos, nas profissões e nas expectativas de comportamento.”
Para Fernanda, quando mulheres ocupam espaços considerados intensos ou violentos, como o horror, isso também representa uma ruptura. “Quando uma mulher ocupa espaços considerados ‘duros’, intensos ou violentos, como o gênero do terror, ela também está rompendo com essa expectativa. Está afirmando que pode sentir, criar e narrar o mundo a partir de todas as suas camadas, inclusive as mais sombrias.”
Conheça alguns filmes de terror dirigidos por mulheres:
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