ESTREIA
Esse filme francês transforma clássico em drama impactante
François Ozon adapta obra de Albert Camus com olhar sóbrio e atual sobre existencialismo e colonialismo

François Ozon é um dos cineastas mais prolíficos do cinema francês contemporâneo. Lança um filme a cada ano, passeando por muitos gêneros e estilos distintos. Nos últimos tempos, tem investido em tramas clássicas.
Seu longa anterior era uma releitura de As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972), obra-prima do cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder – só que do ponto de vista masculino.
Agora, resolveu adaptar um petardo da literatura francesa: O Estrangeiro, de Albert Camus, lançado em 1942. Para tanto, resolve investir em uma dramaturgia mais seca e em uma direção sóbria, sem exageros ou firulas narrativas.
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O enredo é velho conhecido dos amantes da literatura: Meursault é um funcionário público francês que vive na Argélia ocupada nos anos 1930. Recebe um telegrama informando da morte da mãe.
Ele tira dias de folga para velá-la na clínica de repouso onde morava e, posteriormente, enterrá-la.
Mas seu maior dilema será outro. De volta à vida cotidiana, envolve-se em um conflito com um homem árabe local, irmão da namorada de um amigo seu. Durante uma confusão na praia, eles entram em uma briga e Meursault acaba assassinando, por acaso, o árabe.
Ele é preso e a trama segue seu julgamento, diante da impassibilidade e da apatia com que ele encara toda a situação. Nem mesmo o relacionamento com a jovem Marie (Rebecca Marder) é capaz de fazê-lo mudar de comportamento. Enquanto ela se entrega de forma vivaz e apaixonada ao início de namoro, ele segue mais frio e sem demonstrar grandes alterações de humor.
Isso não significa que ele não goste dela, mas essa indiferença parece ser própria da personalidade de Meursault. É como se ele fosse incapaz de transmitir emoções, apesar de senti-las de alguma forma.
Interpretado por Benjamin Voisin, o icônico personagem ganha uma materialidade ao mesmo tempo frágil, pela insensibilidade que transparece de si, mas também intensa, pelo calvário que enfrentará com determinação até o fim da trama.
Base existencial
Nas décadas de 1950 e 1960, o filósofo francês Jean-Paul Sartre popularizou uma corrente de pensamento chamada de “existencialismo”, embora ela já fosse estudada e nominada assim antes. Mas Sartre desenvolveu seu pensamento pela mesma época em que o livro de Camus foi publicado.
Muitos pensadores associam, portanto, a história de Meursault ao existencialismo francês, apesar do próprio Camus renegar este título.
De qualquer forma, a maneira como o personagem encarava a vida, mesmo diante de situações-limite, fazia muito sentido para a tal corrente filosófica.
Ozon certamente pega carona nessa maneira de interpretação e reforça tais aspectos no seu filme. Tanto é que, durante o julgamento pelo assassinato do árabe, Meursault acaba sendo avaliado também pela sua frieza com que tratou a morte da mãe – a maior acusação é a de que ele não teria chorado durante o enterro. A sua postura indiferente de encarar a vida passa a ser um demérito na sua personalidade e pesa como uma prova contra ele.
O toque pessoal do diretor, que o difere da condução mais direta de Camus, é que Ozon é menos econômico nas descrições e na construção dos personagens, especialmente dos secundários. O filme não tem pressa em contar os pormenores das ações de todos ao redor de Meursault, assim como seu julgamento é detalhado e incorpora todos os detalhes do caso.
Nesse sentido, o filme de Ozon difere um tanto da releitura, também clássica, que o mestre italiano Luchino Visconti dirigiu nos anos 1960, com Marcello Mastroianni como protagonista. Ali, o foco recaía muito mais sobre o homem encurralado pelo absurdo existencialista da vida e dos rumos que ela acabou tomando.
O que Ozon faz aqui é ampliar esse debate, respeitando o histórico e a essência do material original, com dignidade e precisão narrativa, porém dando mais estofo e consistência às particularidades do caso que encapam a trajetória reflexiva de Meursault.
Colonialismo francês
Outro aspecto importante de se pontuar em O Estrangeiro é a relação de poder hierárquico entre um morador local árabe e um francês durante o período de domínio colonial da França sobre a Argélia e sobre o norte da África. Ozon acrescenta imagens documentais do país naquele período e não ignora as mazelas sociais de um país dominado.
A opção pelo preto-e-branco é um bom ponto de discussão sobre tais questões. Ao fotografar o filme a partir da monocromia, Ozon e seu diretor de fotografia, Manuel Dacosse, retiram qualquer traço de exotismo ou de exuberância das paisagens naturais, algo que poderia ser acentuado pela luz dos trópicos do norte africano.
A própria frieza do personagem, sua dificuldade em transmitir e lidar com suas emoções e a melancolia que envolve sua rotina, tudo isso também ganha uma bela tradução a partir dessa imagem com pouca intensidade, apesar de todo o entorno do personagem respirar e pular.
François Ozon é uma espécie de cineasta-camaleão. Ele parece um encenador diferente a cada novo projeto, à serviço do que cada filme pede.
Nem sempre isso funciona (caso de Peter von Kant), mas quando acerta, como acontece aqui, o diretor é capaz de oferecer um olhar pertinente e maduro sobre os tipos humanos e sobre as narrativas clássicas que reinventa.
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