ETERNO REI DO POP
Michael Jackson vive! Crianças e adultos mantêm o legado do astro na Bahia
História do cantor inspira nova geração de artistas

É praticamente impossível encontrar alguém que não conheça Michael Jackson. Sua voz, sua estética e seus movimentos estão cravados de forma definitiva na cultura. E, assim como o seu famoso 'moonwalk', que parece desafiar o próprio tempo, o legado do artista também não envelheceu e, hoje, seguem ditando o compasso entre adultos e até crianças que nasceram muito depois do último suspiro do Rei do Pop em qualquer lugar do globo.
A prova de que essa majestade permanece intacta chegou aos cinemas nesta quinta-feira, 23, com a aguardada estreia do filme ‘Michael’. A cinebiografia, estrelada por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, lidera as estreias da semana e promete revisitar desde a infância no Jackson Five até os bastidores do homem que reescreveu a história da cultura pop. Em Salvador, que recebeu o cantor em 1996, o frenesi nas salas de exibição é o termômetro perfeito de uma obra que recusa o esquecimento.
“A expectativa para a estreia de Michael é muito alta para nós, exibidores. O filme tem potencial para se tornar um fenômeno, reunindo diferentes gerações e perfis de público nos cinemas”, avalia Monica Portella, diretora de Marketing da rede UCI. Segundo ela, a capital baiana desponta no entusiasmo: “Em Salvador, essa expectativa é ainda maior: a pré-estreia de terça-feira, dia 21, em nossos cinemas na cidade, já mostrou isso, com salas cheias, cosplayers e muitos fãs engajados”.
A realeza nas salas de aula

Longe das telonas, no entanto, é no ambiente de aprendizado que a força rítmica e melódica do artista se prova atemporal. Na Badermann Academia de Música, localizada em Lauro de Freitas, os arranjos complexos e as viradas icônicas de bateria de Michael Jackson fazem parte da rotina de alunos que mal chegam a uma década de vida.
E quem foi à escola na última segunda-feira pôde até ver uma 'mini-Michael Jackson' andando pelos corredores. Caracterizada da cabeça aos pés, com direito a luva brilhante, chapéu clássico e uma camisa branca estampada com a ilustração do ídolo, Isabela Miranda, de 8 anos, estuda canto há pouco mais de seis meses. No dia da entrevista, ela soltou a voz afinada para cantar a doce melodia de ‘Ben’ [confira o vídeo no Instagram @atardeoficial]. Apresentada à discografia do cantor pelo pai, ela conta que sua faixa preferida é 'Thriller' e garante não ter medo dos monstros do famoso videoclipe.
Apesar da presença artística, Isabela tem outros planos para o futuro: "Eu quero me formar em biomedicina ou medicina". No entanto, ela demonstra uma leitura sobre a importância do astro que impressiona pela maturidade.
Eu acho que ele foi uma pessoa muito bem representada como o Rei do Pop e por ter vindo aqui para a Bahia, se identificado e ter mostrado o Olodum para o mundo
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Aline Miranda, de 40 anos, gestora de RH e mãe de Isabela, explica que a musicalidade é herança familiar e que a filha até ajuda a espalhar a obra do cantor entre os colegas da mesma idade. “Normalmente ela leva essas temáticas novas para a escola. Às vezes a mãe [de uma colega] fala: 'Ah, a Isabela chegou aqui em casa cantando tal música'. Ela ensinou para as amiguinhas”.
Fã declarada que sofreu com a morte do cantor na véspera de sua última turnê, Aline conta como lida com as controvérsias que cercam o ídolo ao passar o bastão musical para a filha: “A gente meio que reafirmou aquilo que a gente já acreditava de que, musicalmente, ele era uma influência muito interessante e que a gente também não acreditava nessas outras questões que eram trazidas".
A gente tenta filtrar e leva o que ele deixou de positivo para a história
Na sala de bateria, o ritmo acelerado de Michael Jackson também dominou as baquetas de Kazu Okada, de 9 anos. Há 1 ano e 9 meses fazendo aulas de bateria na Badermann, ele executou com firmeza as levadas de ‘Billie Jean’ durante a entrevista. Foi a mãe quem o apresentou a Michael Jackson. "Minha mãe começou a me mostrar primeiro, eu não gostava tanto, depois eu fui ouvindo mais, aí eu comecei a gostar", lembra Kazu.
Assim como Isabela, sua preferida é Thriller, justificada pela energia exigida nos pratos e tambores: “Porque é mais agitada pra mim.” Kazu revela ainda que o fanatismo é compartilhado no colégio:
Um monte de gente lá da minha sala gosta

Para o professor de música da escola, Vinicius Pinheiro, o encontro dessas crianças com uma discografia das décadas passadas é um fenômeno fascinante.
Tecnicamente, ele ressalta o privilégio de usar as partituras de Michael em sala de aula, citando a influência técnica de músicos de alto nível da banda original, como a guitarrista Orianthi Panagaris. Para Vinicius, o verdadeiro legado a ser absorvido por Kazu, Isabela e tantos outros alunos mora na genialidade disfarçada de simplicidade.
“É eles conseguirem executar algo que às vezes tem um certo nível de complexidade, mas de uma forma absolutamente simples. Certas músicas têm estruturas repetitivas, mas de uma simplicidade que, quando tudo se encaixa, acaba sendo lindo, maravilhoso e encantador. O que eu tento passar para eles é que às vezes não precisa ser algo tão elaborado, mas se for bem executado, vai ser lindo, as pessoas vão gostar”.
Às vezes a gente espera que haja um choque de gerações aí, mas, no fim das contas, as crianças já vêm influenciadas pelos pais, ouvindo isso em casa

Espelhos de um legado

Manter essa obra intacta e pulsante nos palcos da cidade é a missão de Luis Gustavo Teixeira, o Guga Cortizzo, de 20 anos. Dividindo sua rotina de especialista em atendimento ao cliente com a de cover profissional do Rei do Pop, ele vive a arte de Michael de forma profunda. O amor nasceu cedo, aos 3 anos, ao assistir a um DVD apresentado pela irmã logo após a morte do cantor em 2009.
“Para além de ser um trabalho em homenagem ao Michael, onde nós, como fãs, estamos fazendo isso em um prol maior, a gente entende o quão Michael foi preciso, inteligentíssimo... O Michael foi muito processual, perfeccionista”, detalha Gustavo.
Ele explica que o segredo para uma boa performance vai além da coreografia: “Quando você passa a estudar o humano que o Michael foi, você deslancha, com toda certeza.” Animado com a cinebiografia, ele resume o motivo da música do seu ídolo nunca envelhecer:
Eu resumo essa arte, essa obra do Michael Jackson e toda a sua história como atemporal
Quem teve o privilégio de cruzar com o olhar rigoroso, mas profundamente humano, desse artista icônico foi Bira Jackson. Aos 24 anos, ele era um dos ritmistas do Olodum escalados para a histórica gravação do clipe de 'They Don’t Care About Us' no Pelourinho, em 1996. Trinta anos depois, as memórias seguem vivas.
“O que eu guardo assim na minha memória foi quando eu levantei o tambor, que eu olhei, Michael Jackson estava acenando junto com a minha batida. Aquilo me marcou muito, eu de joelho no chão e ele tocando junto comigo”, relembra Bira. “Ele se doou no Largo do Pelourinho. Ficou que nem uma criança quando ouviu a batida dos tambores do Olodum, se entregou de uma forma tão grandiosa e super natural”.

Tendo prestigiado a pré-estreia do novo filme, Bira, hoje com 54 anos, elogia a obra, embora ressalte as duras cenas da relação de Michael com o patriarca da família, Joe Jackson, vivido por Colman Domingo no longa. “Tem uma parte que eu não gosto que é quando o pai começa a bater nele. Aparece de uma forma muito brutal, que é chocante, que me deixou muito triste. O Michael Jackson criou a sua força através da sua musicalidade, se fortaleceu e venceu no final disso tudo”.
Ao ver crianças como Kazu e Isabela hoje reproduzindo essa mesma arte na Bahia, Bira define o sentimento como "mágico e surreal". Ele entende que a passagem do ídolo pela capital baiana abriu portas não só para o Olodum, valorizando a cultura local globalmente, mas também deixou uma mensagem que sobrevive ao tempo.
Seja através da voz suave de uma menina de 8 anos, do peso das baquetas de um menino de 9, da imitação milimétrica de um jovem cover ou das memórias do mestre dos tambores, o recado de Michael, segundo Bira, é claro para as novas gerações:
O que ele passou, ele não quer que nenhuma dessas crianças passe no mundo. Através do sofrimento dele, ele transformou em amor, em alegria. As crianças de hoje em dia, nós precisamos dar bastante amor, e dar a paz e a segurança para cada criança. E eu sei que é o que o Michael Jackson queria

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