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Novo filme baiano gravado em Cachoeira estreia nos cinemas brasileiros

Longa filmado em Cachoeira transforma o Recôncavo Baiano em protagonista de uma história sobre afeto e música

Manoela Santos*
Por Manoela Santos*
Cena de ‘Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada’
Cena de ‘Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada’ - Foto: Divulgação

No senso comum, sair do Nordeste em busca de melhores oportunidades no Sudeste do Brasil ainda é visto como o caminho mais seguro para crescer profissionalmente, inclusive no audiovisual.

A ideia contrasta com o fato de a região nordestina ser berço de cineastas e artistas que têm impactado profundamente o cinema brasileiro contemporâneo.

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Mas o movimento do cineasta Henrique Garcia segue outra direção. Paulista frustrado com a própria carreira, ele encontra justamente no Recôncavo Baiano a possibilidade de transformação profissional e também pessoal.

A mudança acontece quando ele cruza o caminho de Cristian Mugunzá, fenômeno do pagotrap baiano que, mesmo a contragosto, passa a representar sua chance de recomeço.

Para conhecer melhor essa história, é preciso assistir ao filme Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada, dirigido pela dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio, que estreia nesta quinta-feira, 21, nos cinemas.

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Os diretores afirmam ter grandes expectativas em relação à recepção do longa. “Principalmente porque sentimos que esse é um filme muito comunicativo, muito alegre e profundamente conectado com o público brasileiro”, destacam. Segundo eles, o filme parte do humor, da música, do afeto e da cultura popular para discutir questões importantes, mas sempre convidando o espectador para perto.

Recôncavo em cena

A produção se passa no Recôncavo Baiano, região onde vivem os cineastas e que serve de pano de fundo para grande parte da filmografia da dupla. Para eles, o território é uma fonte permanente de inspiração.

“Entendemos o Recôncavo como um território profundamente rico em cultura, tradição, costumes, arte, musicalidade e movimento. É um lugar vivo, pulsante, e é sempre dali que nascem os nossos filmes”, afirmam.

'Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada' não é o primeiro longa realizado na região. Os diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio comandam a Rosza Filmes, produtora independente sediada no Recôncavo da Bahia.

Fundada em 2011, a empresa atua na produção cinematográfica e no desenvolvimento de projetos de cinema e educação.

A produtora foi responsável por obras premiadas como 'Café com Canela', 'Ilha', 'Até o Fim, Voltei!', 'Mugunzá' e 'Na Rédea Curta'. Os filmes participaram de festivais internacionais como o International Film Festival Rotterdam, o Festival Ecrans Noirs e a mostra Soul in the Eye, também realizada em Rotterdam.

“Nos nossos sete longas-metragens, todos gravados no Recôncavo da Bahia, todos têm esse território como ambientação e praticamente todos os personagens pertencem a esse universo”, explicam.

A diferença do novo filme para os anteriores está no fato de o Recôncavo aparecer a partir de um olhar de fora para dentro. Henrique, um cineasta paulistano, chega ao território para dirigir o show do cantor de pagodão e pagotrap Cristian Mugunzá.

“O Recôncavo pulsa em Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada. Ele muda a cor do filme, muda o ritmo do filme, muda a temperatura do filme. O Recôncavo traz o sorriso, a música, o afeto e a vitalidade que atravessam toda a narrativa”.

Mugunzá

No calor histórico e afetivo do Recôncavo Baiano, dois mundos completamente diferentes se encontram. Enquanto Henrique se agarra às glórias do passado e vive cercado por poucas pessoas e uma rotina desgastada, Cristian vive rodeado por amigos fiéis, nada convencionais, além de um público que o aclama por onde passa.

Do choque entre esses universos nasce uma história marcada pelo humor, por encontros improváveis e por afetos. Entre gargalhadas e momentos emocionantes, 'Quem Tem Com Que Me Pague, Não Me Deve Nada' revela como amizades inesperadas podem transformar vidas e devolver cor a quem já havia perdido a esperança.

Segundo os diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio, o personagem Cristian Mugunzá é, de certa forma, o próprio Recôncavo personificado. “Quando falamos do Recôncavo, estamos falando de Cristian. E quando falamos de Cristian, estamos falando do Recôncavo”.

Eles descrevem o personagem como uma figura solar, alegre, intensa, atravessada pela tradição do samba de roda, pelo candomblé, pelas festas populares, pelas celebrações da Boa Morte, d’Ajuda e pelos festejos juninos. “Tudo isso está presente no corpo dele, na maneira como fala, age, dança, ocupa os espaços e se relaciona com o mundo”.

Cristian também não chega sozinho. Com ele vem uma série de personagens que contrapõem diretamente o universo intelectualizado, acadêmico e de classe média tradicional carregado por Henrique em sua formação e visão de mundo. É justamente desse encontro, e também desse conflito afetivo e divertido, que nasce a história do filme.

Ao longo da narrativa, o Recôncavo vai atravessando Henrique. O personagem passa a ser impactado pela cultura local, pela musicalidade, pela coletividade e por uma forma própria de enxergar a vida. Essa transformação modifica não apenas Henrique, mas também o próprio tom do longa.

Segundo Renan Motta, ator que interpreta Cristian, o personagem representa o genuíno. “Digo isso em todos os aspectos. A vida anda muito acelerada e somos empurrados para uma superficialidade perigosa”, afirma.

Para o ator, o dinheiro não ocupa o primeiro lugar na vida de Cristian. “Ele é consequência, mesmo para um jovem periférico do interior da Bahia. Acho que isso faz Henrique refletir e olhar para dentro de si, percebendo que afeto, família e amizade são fundamentais para a nossa existência. Acho que isso é o veículo de transformação do Henrique”.

Desafios e expectativas

Em um dado momento do filme, o personagem interpretado por Frank Menezes afirma que “fazer cinema está na contramão dos tempos”, diante das dificuldades para colocar de pé um projeto audiovisual. Essa é uma realidade conhecida de perto por Ary Rosa e Glenda Nicácio.

Os diretores explicam que realizar a obra significou enfrentar os desafios históricos do cinema independente brasileiro, especialmente fora do eixo tradicional do audiovisual.

Segundo a dupla, além das dificuldades de financiamento, circulação e acesso ao mercado, existe também a necessidade de fazer com que produções realizadas no Recôncavo Baiano sejam compreendidas “como parte central do cinema brasileiro e não como algo periférico”.

Ary e Glenda destacam ainda que realizar um filme pensado para a experiência coletiva da sala de cinema se torna ainda mais desafiador em um momento de crise de público.

“Talvez o maior desafio tenha sido justamente esse: continuar acreditando que vale a pena fazer cinema pensando no encontro entre o filme e o espectador”, afirmam. Para eles, concluir o longa foi também um gesto de insistência em continuar filmando no Recôncavo e acreditando no potencial do cinema brasileiro.

Apesar das dificuldades, os cineastas demonstram otimismo em relação à recepção. “Temos uma expectativa muito bonita em relação à recepção de Quem Tem Com Que Me Pague Não Me Deve Nada, principalmente porque sentimos que esse é um filme muito comunicativo, muito alegre e profundamente conectado com o público brasileiro”.

A dupla também reforça a importância da presença do público nas salas já na primeira semana de exibição, considerada decisiva para a permanência dos filmes brasileiros em cartaz.

O longa estreia depois de amanhã, 21, em salas de cinemas em todo o país e, segundo eles, a expectativa é que o público possa “rir, se emocionar, cantar, refletir e viver coletivamente essa experiência”, reafirmando o cinema como “um espaço de encontro, de alegria e de compartilhamento”.

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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