TRAGÉDIA NADA ROMÂNTICA
‘O Morro dos Ventos Uivantes’ aposto no sexo como provocação
Uma das marcas mais fortes nessa nova adaptação é o destaque ao furor sexual dos personagens

‘O Morro dos Ventos Uivantes’ é o tipo de clássico da literatura universal que não precisa de mais uma adaptação cinematográfica, mas mesmo assim vão continuar fazendo até o fim dos tempos. A cineasta britânica Emerald Fennell é quem comanda dessa vez uma leitura muito pessoal e mesmo farsesca, um conto de fadas com tom sombrio e nada romântico, apesar de assim se vender.
A obra de Emily Brontë está associada ao romance gótico e é o que se pode chamar de história de amor sem enlace romântico. Ao contrário, é uma trama repleta de rancor, vingança, crueldade e desejos instintivos. Os personagens principais, Catherine e Heathcliff, são irmãos de criação que crescem juntos na mansão em decadência que dá nome ao título original.
Ele foi retirado das ruas pelo pai da moça e levado para casa. Tratado como uma espécie de serviçal, acaba se aproximando da família e estabelece um laço de amor platônico por Catherine. Mas quando eles crescem, ela acaba sendo levada a se casar com um homem rico. Ele, indignado, vai embora e volta meses depois, enriquecido de forma misteriosa. Começa aí um jogo de sedução e retaliação torpe.
Fennell, por sua vez, escolhe o caminho da provocação para o seu filme, subvertendo alguns pontos tradicionais da trama. Heathcliff, por exemplo, é descrito como um “forasteiro de pele escura”, com um aspecto “cigano”, embora ele seja interpretado pelo galã do momento, Jacob Elordi, um homem branco.
Já Catherine é uma adolescente por volta dos 18 anos, mas é vivida no filme por Margot Robbie (muito mais velha que isso). As escalações do elenco já estavam causando polêmica, mas fica evidente que Fennell toma suas liberdades para provocar controvérsias e comentários em torno do projeto, com uma pitada de afronta um tanto infantil.
Porém, a grande diferença e maior ponto de discussão aqui é a subversão do próprio conceito da obra original. Enquanto Brontë desmascara o ideal de amor romântico a partir das vicissitudes e das mesquinharias dos personagens, a cineasta dá corpo à atração impulsiva e explosiva dos dois irmãos-amantes.
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Triste com tesão
Uma das marcas mais fortes nessa nova adaptação é o destaque ao furor sexual dos personagens – algo que, em meados do século XIX quando o livro foi escrito, e ainda mais por uma mulher, era completamente sublimado da trama. Fennell traz o sexo para o primeiro plano e transforma em tórrida a atração de Catherine por Heathcliff.
Já na primeira cena do filme, ouvimos um homem gemendo, para em seguida ser mostrado que ele está sendo, na verdade, enforcado em praça pública. No entanto, as pessoas não deixam de notar uma ereção no homem e começam a se beijar e se apalpar pelas ruas.
O filme manipula, portanto, os desejos mais primitivos do ser humano, em que a pulsão de vida (incluindo aí o ímpeto sexual) e a pulsão de morte se complementam. E essa leitura pode ser totalmente aplicada à história de atração e repulsa vivida por Catherine e Heathcliff.
Quando ele retorna, já rico, e a encontra desfrutando de uma vida abastada em uma luxuosa mansão, além de seduzi-la, Heathcliff faz de tudo para infligir nela sofrimentos e humilhações como retaliação por ter sido preterido no passado, mesmo que a união entre eles possivelmente nunca fosse ser bem aceita pelo pai dela – e mestre dele.
O pai de Cathy (interpretado por Martin Clunes), aliás, cai em desgraça financeira depois que a filha vai embora, levando consigo a governanta da família, Nelly (Hong Chau), ficando sozinho na casa caindo aos pedaços. Heathcliff também vai se vingar deles, comprando a antiga mansão e tratando-os com desprezo.
Mas é na relação pouco clara com Catherine que ele mais evidencia o descontrole emocional. Ainda que apaixonado, está imbuído de um sentimento de animosidade, porém transforma isso em tesão e passam a se encontrar às escondidas para saciar o desejo reprimido.
Os instintos sexuais mais primários dele se manifestam com Isabella (Alison Oliver), irmã do marido de Cathy, com quem Heathcliff acaba se casando, não apenas para fazer ciúmes nela, mas também como forma de aplicar suas inclinações mais sadomasoquistas.
Romance pop
Se por um lado, há um tom clássico na trama de O Morro dos Ventos Uivantes, há também uma boa dose de farsa não naturalista e uma inclinação pop na maneira de cadenciar esse romance tortuoso – a trilha sonora é assinada pela cantora pop Charlie XCX.
O grotesco e o aspecto sujo da vida íntima na era vitoriana, acrescido do tom kitsch e propositalmente cafona dos ambientes mais ricos, contrastam com a suposição romântica que a história carrega – não à toa o filme foi preparado para ser lançado durante a data do Dia dos Namorados nos Estados Unidos, neste mês de fevereiro.
Nessa embalagem de história de amor cruel e sádica, o maior problema do filme é não saber como sustentar a relação doentia entre os personagens, quando ele quer mesmo ser uma história de paixão tórrida e trágica pela desventura dos amantes. No terço final do filme, eles se entregam a uma relação que é ao mesmo tempo prazerosa e destrutiva, mas sem perder de vista os laços inseparáveis que os unem.
Não se trata aqui de advogar em favor de uma fidelidade à obra original. Mas ao transformar o curso da trama em um jogo de seduções que fazem o espectador torcer para a felicidade do casal agora improvável, suavizando, inclusive, as atitudes mais torpes de Heathcliff, Fennell parece indecisa entre encarar a tragédia ou apostar na pura atração dos corpos. Ao abraçar as duas coisas ao mesmo tempo, seu Morro dos Ventos Uivantes soa covarde e apenas provocativo.
Assista ao trailer de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’:
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