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A TARDE MEMÓRIA

Avenida Contorno teve traçado mudado para preservar Solar do Unhão

Via que liga a Cidade Alta e a Cidade Baixa começou a ser aberta a partir de 1961

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*
Contorno tem uma das vistas mais belas da baía de Todos-os-Santos
Contorno tem uma das vistas mais belas da baía de Todos-os-Santos - Foto: Valdir Argolo/Cedoc A TARDE/1.6.1998

Entre o azul do mar e o asfalto de suas pistas sinuosas, a Avenida Lafayete Coutinho não é apenas uma ligação entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa, mas cenário da história e modernização de Salvador. Projetada pelo arquiteto Diógenes Rebouças, que usou seu engenho para criar uma via essencial para a dinâmica da cidade em crescimento, mas sem sacrificar o patrimônio histórico, a popularmente conhecida Avenida Contorno, ou Avenida de Contorno, como era chamada na origem, foi inaugurada na década de 1960 e ainda hoje é uma das vias mais importantes da capital.

Desde a fundação de Salvador, no século XVI, conectar Cidade Alta e Cidade Baixa foi o grande desafio para o crescimento da capital, explica o arquiteto e urbanista Nivaldo Andrade, professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ao longo de séculos, a conexão foi feita por guindastes, inúmeras ladeiras, planos inclinados e ascensores. Com o advento e a popularização dos automóveis, no início do século XX, outras soluções tiveram de ser adotadas para facilitar e agilizar os deslocamentos de pessoas e mercadorias.

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O traçado da Avenida Contorno foi alterado por Diógenes Rebouças para preservar conjunto do Unhão
O traçado da Avenida Contorno foi alterado por Diógenes Rebouças para preservar conjunto do Unhão - Foto: Cedoc A TARDE

“As ladeiras eram muito íngremes, os carros derrapavam. Com a expansão da cidade para o sul, na virada do século XIX para o XX, e a ocupação de áreas como Campo Grande, Vitória e Graça, era fundamental criar uma conexão com essa parte da cidade, que era onde as famílias abastadas passaram a morar. O centro comercial de Salvador, onde estavam os bancos, os escritórios, empresas, ficava na Cidade Baixa, no Comércio, por isso começam a ser estudadas várias soluções de conexão”, acrescenta o professor.

Para solucionar os gargalos gerados pelo desenvolvimento da cidade, o engenheiro Mário Leal Ferreira e Diógenes Rebouças, um arquiteto de inspiração modernista, desenvolveram no final da década de 1940 o conceito de um sistema de avenidas radioconcêntricas para reorganizar Salvador. O projeto da Contorno como conhecemos é pensado nesse contexto.

Ainda de acordo com Nivaldo Andrade, no início dos anos 1950, o Departamento de Estradas de Rodagem da Bahia (Derba) havia criado um projeto para abrir uma pista um pouco acima do nível do mar, que ligaria a área da rampa do antigo Mercado Modelo, onde hoje está a escultura de Mário Cravo, até o Porto da Barra.

"Essa via passaria bem no meio do Conjunto do Unhão, com outra pista passando entre a Igreja e a encosta, tirando o acesso ao mar do Yacht Club da Bahia. Foi um projeto que causou muita polêmica na época, tanto com o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], pelo fato do complexo do Solar do Unhão ser tombado; quanto com a elite que frequentava o Yacht Club, que não aceitava essa intervenção”.

Obras de abertura da Avenida Contorno em 1961. Via começa na região da Rampa do Mercado Model
Obras de abertura da Avenida Contorno em 1961. Via começa na região da Rampa do Mercado Model - Foto: Cedoc A TARDE

Salvamento do solar

A partir de uma mobilização pública que teve ampla participação de veículos de imprensa como A TARDE e do próprio Diógenes Rebouças, é que o arquiteto desenvolveu uma solução para o impasse, entre 1959 e 1960, criando um projeto alternativo para a avenida. “Em vez de ficar no nível do mar, ela começaria próxima ao antigo Mercado Modelo, subiria suavemente a encosta até chegar na cota do que viria a ser depois o Vale do Canela", explica Nivaldo Andrade.

Um primeiro trecho da Avenida Contorno, indo do Comércio até a altura do Solar do Unhão, já havia sido iniciado quando Rebouças propôs criar arcos semelhantes aos já existentes em outras regiões da cidade, complementa o arquiteto, professor e membro da Academia de Letras da Bahia, Paulo Ormindo.

Trabalhadores na obra de abertura da Avenida Contorno em 1961
Trabalhadores na obra de abertura da Avenida Contorno em 1961 - Foto: Cedoc A TARDE

"A obra parou nesse ponto, pois era muito difícil articular a avenida com o centro da cidade sem um cruzamento. Foi nesse momento que comecei a estagiar no projeto da Contorno. O Diógenes queria mergulhar na ladeira do Unhão e articular a avenida com as ladeiras próximas, mas isso só seria possível se o primeiro trecho ficasse mais alto. A obra parou e Norberto Odebrecht me telefonou em sigilo para saber o que estava acontecendo. Expliquei que a passagem por debaixo da Contorno era impossível sem uma sinaleira. Então ele marcou uma reunião com Rebouças", recorda Ormindo.

A ideia de Diógenes Rebouças de desenvolver a solução estrutural com arcos de concreto foi aceita, aponta Nivaldo Andrade. Segundo ele, a escolha foi inspirada nos arcos de pedra da Ladeira da Montanha: "Trata-se de uma releitura de uma tecnologia, uma solução construtiva do século XIX, mas na linguagem do concreto, que era a tecnologia das décadas de 1950 a 1960", detalha.

Planejamento com respeito

Nivaldo Andrade detalha que a Contorno foi complementada, alguns anos depois, pelo Túnel Américo Simas, inaugurado em 1967 e situado no limite norte do bairro do Comércio. “A Avenida de Contorno ao Sul e o Túnel Américo Simas com seus viadutos ao norte criam novas conexões viárias do Comércio com o restante da cidade”, acrescenta o professor.

Paulo Ormindo ainda faz a ressalva de que a Avenida Contorno e o Túnel Américo Simas "são as duas últimas obras públicas resultantes de um planejamento urbano que respeitou os monumentos, o meio ambiente e a paisagem da cidade".

Ao elevar o traçado da Contorno, criou-se um mirante automotivo para a Baía de Todos-os-Santos e se evitou a destruição de dois importantes monumentos, o Conjunto do União e o Forte da Gamboa, acrescenta Nivaldo Andrade. "Por isso, a avenida passa sob a Praça do Campo Grande e, a partir dali se conecta com o Canela, a Graça e outras áreas daquela região. O projeto elaborado por Diógenes Rebouças foi apresentado no Rotary Club, aprovado e desenvolvido a partir de 1960-1961. A construção da Contorno ampliou significativamente o acesso ao Comércio", complementa.

Obras de abertura da Avenida Contorno em 1961
Obras de abertura da Avenida Contorno em 1961 - Foto: Cedoc A TARDE

As polêmicas, os riscos ao patrimônio histórico e posteriores mudanças no projeto da Avenida Contorno foram acompanhadas de perto por A TARDE desde os anos 1950. O jornal também registrou em textos e imagens as várias fases da obra. "Atingiu a rua Newton Prado, através da qual alcançará o Campo Grande, em frente ao Hotel da Bahia, a obra de abertura da Avenida de Contorno. Dentro de mais algum tempo, através de suas pistas estará o Campo Grande ligado à Cidade Baixa. Esta é a segunda etapa das obras, cuja ligação com a avenida do Vale do Canela através de túnel sob a Av. Sete de Setembro será a conclusão", informa a edição de A TARDE de 10 de janeiro de 1963, que traz imagem das obras no ponto em que a via seria conjugada com a rua Newton Prado.

Arquiteto das sensibilidades

Nivaldo Andrade salienta que é interessante observar o cuidado de Diógenes Rebouças com a implantação da avenida e com o seu caráter paisagístico. "Quem desce a Contorno em direção ao Comércio deslumbra uma das paisagens mais lindas de Salvador. Você consegue ver a Península de Itapagipe e até a Igreja do Bonfim. E isso é algo bastante singular da Contorno, nenhuma outra avenida da cidade tem uma paisagem tão bonita e poucas avenidas no mundo possuem uma paisagem tão interessante. Isso foi a preocupação de Diógenes, que era um profundo conhecedor da topografia e da paisagem de Salvador".

Nivaldo Andrade salienta ainda que o projeto de criação do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), tem íntima ligação com as obras da Contorno. O governo estadual da época convidou a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi para fundar e dirigir o MAM, que na origem funcionou no foyer do Teatro Castro Alves que, por sua vez, passava por reformas depois de um incêndio.

Em 1961, em meio às obras já iniciadas da Contorno, Lina propôs ao governador que o Solar do Unhão fosse restaurado e lá fossem instalados os museus de arte moderna e de arte popular. "Os recursos financeiros usados para a restauração do Unhão e sua adaptação para os dois museus, inclusive, vêm da construção da Contorno, feita pela Odebrecht. A Contorno foi uma das grandes obras deles nesse período e o próprio Norberto Odebrecht era diretor da obra", explica Nivaldo.

Ontem e hoje

Às 16 horas de 24 de março de 1963, a Avenida Lafayete Coutinho foi inaugurada. "Na ocasião, expressando o significado urbanístico da obra, o seu papel no desafogo do tráfego de uma cidade em ritmo febril de crescimento, bem como o seu custo, discursou o engenheiro Oscar Pontes, encarregado pela obra que foi construída através de uma conjuração de recursos do Estado (aplicado dos royalties da Petrobrás) e da Companhia Docas da Bahia. Desde ontem a Avenida Contorno está sendo trafegada com a sua saída provisória no Campo Grande", informa a edição de A TARDE do dia seguinte, 25 de março de 1963.

O professor Nivaldo Andrade acredita que alguns aspectos da construção da Avenida Contorno não foram tão bem equacionados na época, como Diógenes Rebouças desejava originalmente. "Tem um livreto publicado pelo Rotary Clube da Bahia, em 1960, com a primeira versão do projeto de Diógenes e o texto transcrito de uma palestra que ele fez no Rotary naquele ano. E esse livrinho mostra um projeto diferente. No projeto final, as conexões com espaços como o Forte da Gamboa, e sua comunidade, ficaram bastante comprometidas. A avenida criou, apesar das muitas qualidades, uma cisão entre esses bairros e comunidades com o restante da cidade, resultando em uma situação que até hoje não está resolvida adequadamente, que é o acesso ao Unhão e à Gamboa", argumenta.

Conjunto Arquitetônico do Unhão seria demolido em 1960 para construção da Contorno mas avenida circundou o solar
Conjunto Arquitetônico do Unhão seria demolido em 1960 para construção da Contorno mas avenida circundou o solar - Foto: Cedoc A TARDE/23.10.1993

No final de 2025 foi anunciada a requalificação da Contorno, que prevê mudanças urbanísticas e estruturais ao longo de toda a sua extensão, como a ampliação do passeio para pedestres, implantação de ciclovia e melhorias na mobilidade e segurança. O professor Nivaldo, por sua vez, enfatiza que projetos para aquela região devem priorizar a circulação de pedestres.

Embora tenha nascido no contexto da Salvador que se motorizava velozmente nos anos 1960, a Avenida Contorno e sua paisagem única precisa ser acolhedora para quem circula a pé e nesse trânsito, humaniza a cidade.

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*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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