Cantor Roberto Carlos tem relação antiga de afeto com fãs baianos
O “Rei” já fez inúmeras apresentações no Estado desde os anos 1970. A TARDE promoveu um grande show do artista na antiga Fonte Nova em 1984

Desde a turnê de 1972, quando percorreu cidades baianas levando sua voz até plateias apaixonadas, passando pelo show lotado e chuvoso em 1984, na antiga Fonte Nova, até o espetáculo gratuito de 2025, que reuniu mais de 50 mil pessoas na Arena O Canto da Cidade, Roberto Carlos construiu uma relação única com a Bahia. O cantor faz 85 anos neste domingo (19) e há décadas é chamado simplesmente de “O Rei”.
E não é para menos, os números demonstram essa majestade: 140 milhões de discos vendidos e 64 álbuns de estúdio; além de centenas de músicas gravadas e prêmios internacionais como o Grammy, Grammy Latino e Billboard. Na América Latina, o artista vendeu mais até do que os Beatles.
"O segredo de Roberto Carlos está na simplicidade. É um cidadão brasileiro comum. Lê Herman Hesse (Sidarta), O Pequeno Príncipe, gosta de futebol, é um crente fervoroso, joga sinuca, mulher em abundância, novela, assiste ao programa Fantástico, ouve Lulu Santos, Paralamas do Sucesso, é supersticioso e tem uma característica imbatível: é romântico. Com todos esses ingredientes somados, tudo que Roberto Carlos faz cai no agrado do povo, porque ele tem a capacidade de dizer as coisas de um modo que a maioria absoluta das pessoas entende e sente". A descrição que mescla traços de personalidade e gostos do cantor está na edição de A TARDE de 21 de abril de 1994, data em que ele cantou no palco do Teatro Castro Alves (TCA).
Natural de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, Roberto Carlos Braga nasceu em 1941 e desde cedo demonstrou talento musical, estudando no conservatório da cidade natal e se apresentando em rádios locais. A carreira teve início na década de 1960, quando junto com Erasmo Carlos e Wanderléa, liderou a Jovem Guarda, movimento que misturou rock, baladas românticas e moda, popularizando o chamado estilo iê-iê-iê e canções mais descontraídas. Esse pioneirismo o liga diretamente ao desenvolvimento do pop brasileiro e da moderna música nacional, como afirma o artigo “Da legitimidade da realeza: Roberto Carlos como emblema da nacionalidade”, de Acauam Silvério Oliveira.

Foi na década de 1970 que Roberto Carlos se voltou para a música romântica, ritmo que o consagrou nacional e internacionalmente, tornando a sua voz a trilha sonora de inúmeras gerações e histórias de amor. Em 1972, ele trouxe essa voz para a Bahia. Fez dois shows em Salvador, no TCA e no Clube Espanhol, e se apresentou também em Jequié e Jacobina ao longo do mês de abril, segundo informou a edição de A TARDE do dia 1º daquele mês e ano.
Em 1977, a capital voltou a receber um show do Rei. "O cantor e compositor consagrado na época da 'Jovem Guarda' estará se apresentando hoje a partir das 23 horas no baile dançante que será realizado no Paripe Esporte Clube", informa A TARDE na edição de 9 de dezembro.
Na época, Roberto Carlos alimentava sua fama também através das produções audiovisuais, aumentando ainda mais o número de fãs. Os especiais de fim de ano na TV Globo, que se tornaram uma tradição nacional, haviam começado em 1974, mas na década de 1960, o cantor começou a se aventurar no mundo do cinema, estrelando filmes de grande sucesso.
O primeiro trabalho como ator ocorreu em "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura" (1968), dirigido por Roberto Farias. O file misturava música e ação em uma narrativa inspirada no estilo dos Beatles. O filme deu tão certo que se tornou trilogia, com "Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa" estreando em 1970 e "Roberto Carlos a 300 km por Hora" em 1971. As produções, assim como participações menores em outros filmes, ajudaram a consolidar naquela época a imagem de ídolo jovem e moderno, enquanto os especiais televisivos reforçaram a presença dele como cantor romântico e figura central da MPB.
Fonte Nova lotada
Um dos shows mais emblemáticos de Roberto Carlos em Salvador ocorreu em 1984, na antiga Fonte Nova. O evento foi promovido pelo Grupo A TARDE e pela TV Aratu, reunindo mais de 65 mil fãs das mais variadas idades e mobilizando um aparato de segurança envolvendo 600 policiais. "O céu tornou-se mais claro com o brilho dos fogos de artifício cortando o espaço, enquanto balões de gás eram soltos ao vento e os acordes da orquestra soavam mais fortes. Era o 'Rei' Roberto Carlos que, finalmente, às 19h10min de ontem, pisava o palco armado no gramado da Fonte Nova, em meio ao delírio de mais de 65 mil fãs, para dar início ao ansiosamente esperado show Emoções", explica A TARDE na edição de 2 de maio de 1984, dia seguinte ao show.

A apresentação daquele feriado do Dia do Trabalhador atrasou mais de uma hora por causa da chuva intensa, por isso o repórter abre o texto de cobertura citando um céu mais claro. A aposentada Márcia Dórea, que na época tinha 23 anos, estava nesse evento e lembra muito bem como foi ver o seu grande ídolo ao vivo: "Foi o meu primeiro show dele. Sempre fui fã de Roberto, desde muito mais nova, ao ponto de meu pai ficar me chamando de Roberta para abusar. Nesse show da Fonte Nova choveu muito e o show atrasou, mas assim que ele entrou no palco, juro, o céu abriu. Vi de bem longe, mas saí de lá satisfeita e feliz, foi um show muito emocionante", conta.
Márcia só iria a outro show do Rei mais de duas décadas depois, nos anos 2000. Sua amiga de longa data e também grande fã de Roberto Carlos, a pedagoga Maria Socorro Macedo Nascimento, ligou para ela numa tarde e pediu que ela se sentasse. "Aí ela disse que o filho havia comprado ingressos para nós duas para o show de Roberto Carlos, na Concha, e eu quase morri de felicidade. Foi o melhor show dele que fui. A gente sentou bem pertinho e ele me deu uma rosa ", recorda Márcia.
Ela e Maria Socorro chegaram cedo ao TCA e com faixas azuis com o nome de Roberto Carlos na cabeça. A pedagoga conta que esse também foi um de seus shows preferidos, principalmente por ter sido em companhia da amiga. "Fiquei muito feliz quando a rosa caiu nas mãos dela, pois foi uma emoção compartilhada. Foi inacreditável tudo o que eu e Márcia vivemos, principalmente por sermos fãs e sempre falarmos do Rei. Eu amo meu Rei. Outro show muito marcante foi o da Bahia Marina, em 2005. Era caro e achei que seria impossível ir, mas meu marido fez essa grande surpresa e fomos juntos. Foi uma emoção que não tenho palavras para descrever. Lembro de quando ele cantou Detalhes e eu me perguntei: será que eu estou aqui mesmo? Gritei, chorei, cantei e voltei para casa realizada", conta Socorro.

As duas amigas ainda mantêm um hábito em comum: assistem todos os especiais de TV de Roberto Carlos completamente sozinhas. "Sempre em minha casa e sem ninguém, nem minha filha eu deixo assistir comigo e olha que ela até começou a ser fã também por causa de mim. Quero dar toda a atenção para o show", conta Márcia. Já Socorro explica que durante os shows na TV, "não quero ninguém falando perto de mim, porque quero ver detalhes, analisar roupa, a forma que ele está cantando e se o cabelo está arrumado".
Beatle latino
Em 1994, RC voltou a Salvador com outro show memorável, dessa vez da turnê Luz, com apresentações por todo o Brasil e América Latina. À essa altura da carreira, o artista havia alcançado números impressionantes. "Roberto Carlos, segundo pesquisa realizada pelo Instituto CERP Marketing Research, está para a América do Sul da mesma maneira que os Beatles estiveram para a Inglaterra e Frank Sinatra e Elvis Presley para os Estados Unidos. A pesquisa mostra ainda que ele é o primeiro e único artista da América Latina a vender mais discos que os Beatles", informa A TARDE, em 5 de março de 1994.
O show em Salvador aconteceu em 21 de abril, mas a turnê também passou por Recife, Aracaju e Petrolina. Um dia antes da apresentação na capital baiana, A TARDE informou que apenas 240 ingressos estavam disponíveis. Ainda segundo a reportagem, o show de 1994 de Roberto Carlos foi a quinta vez em que ele subiu ao palco do TCA em três décadas. A primeira foi em outubro de 1971, depois vieram apresentações em abril de 1972, setembro de 1974, julho de 1980 e a de abril de 1994.

Graças ao status alcançado ao longo da carreira, Roberto Carlos é tema de pesquisas acadêmicas nas áreas de música e cultura; sua trajetória já foi enredo de escolas de samba, com "Roberto Carlos no Reino da Fantasia", da Unidos do Cabuçu, em 1987, e "A Simplicidade de um Rei", da Beija-Flor de Nilópolis, em 2011; e ele segue cativando e inspirando pessoas.
Um dos inspirados é Agatângelo Mendonça, criador do personagem Roberto Carlos da Shopee. Nascido em Campina Grande (PB), Agatângelo cantava em portas de lojas, fazendo publicidade, e sempre manteve RC no repertório. Muita gente o chamava de Roberto, "ao ponto de quase esquecer meu nome".

Um amigo de Campina Grande deu a ideia de criar o personagem que há alguns meses chegou a Salvador, onde vem fazendo apresentações em diversos pontos da cidade. Para Agatângelo, Roberto Carlos é um artista querido no mundo inteiro e esse afeto todo tem razão de ser no carisma do cantor e nas letras que tocam os sentimentos profundos de quem escuta.
"As canções do Roberto atraem multidões de todas as idades, vi isso em um show dele em Salvador e vejo isso nas ruas, pois suas músicas falam e transmitem amor, trazem paz e unem pessoas. E, para mim, é muito gratificante cantar as canções do Rei dentro desse personagem", afirma.
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
