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A Tarde Memória

Por Andreia Santana e Priscila Dórea*

ACERVO DA COLUNA
Publicado sábado, 14 de fevereiro de 2026 às 13:26 h | Autor:

Figura do Rei Momo simboliza liberdade e alegria debochada do Carnaval

Personagem inspirado na mitologia e no bufão medieval foi adotado na festa desde os anos 1930. Em Salvador, cortejo oficial começou em 1961

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Desfile do Rei Momo Ferreirinha no Carnaval de 1985
Desfile do Rei Momo Ferreirinha no Carnaval de 1985 -

"Enfim, em pleno reinado de Momo, no mundo do confete, com meridianos de serpentina e rios de perfume, a alegria tem mesmo de morar na cidade. O palhaço da Rua Chile, com seus braços abertos e seu sorriso franco de um dente só, enorme e bobalhão, está chamando o povo todo para a folia. E todo mundo vai, porquê cantar e dançar é bom e deixa a gente leve e satisfeito". Essa convocação aos dias de liberdade irreverente do Carnaval foi publicada em A TARDE, na edição de 25 de fevereiro de 1952, com o sugestivo título "Brincar, brincar e brincar... eis a palavra do Momo!".

Naquela época, o soberano da galhofa e do deboche, rei bufão que comanda Salvador nos dias “da carne”, já existia como personagem da festa desde a década de 1930, nos clubes e cordões privados. Na cidade, a eleição oficial do primeiro Momo ocorreu em 1959. Dois anos depois, foi a vez do primeiro cortejo em carro aberto mobilizar a capital. O rei era o mesmo, um funcionário público da prefeitura, que manteve cetro e coroa por quase três décadas, conhecido como Ferreirinha.

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Mais do que personagem, o Rei Momo representa o próprio espírito do Carnaval, da liberdade sem regras, da pilhéria e da ironia. Sua figura bebe das fontes da mitologia grega e dos bobos da corte da Idade Média, com um tempero de cultura popular. A inspiração para o nome Momo vem de uma deusa homônima, Momo ou Momus, filha de Nix, a Noite, no panteão grego, e considerada a personificação da zombaria, da sátira, da crítica e do sarcasmo. A deusa chegou a ser expulsa do Olimpo por contar fatos verídicos disfarçados de brincadeira, ao entregar as infidelidades de Zeus.

Inspirados na língua ferina da Momo clássica, os bobos da corte eram os palhaços de estimação dos reis e ganhavam destaque por serem os únicos com permissão de, em meio a piadas, soltarem verdades inconvenientes. O Rei Momo do Carnaval combina esses elementos com a própria tradição da festa que antecede o tempo de contenção da quaresma cristã. No século XVI, essa personagem já representava a sátira no Carnaval de Cádiz, cidade portuária da Espanha. A cultura ibérica, que engloba também Portugal, traz a ideia do Momo para as Américas junto com a colonização e o Entrudo.

Rei Momo desfilou no Jeep da PM em 1979
Rei Momo desfilou no Jeep da PM em 1979 | Foto: Cedoc A TARDE/23.02.1979

No Brasil, um homem negro e artista circense chamado Benjamin de Oliveira foi o primeiro a interpretar um Rei Momo mais parecido com os atuais, no Rio de Janeiro de 1910. A consolidação como símbolo do Carnaval ocorreu um pouco depois, em 1933, com a oficialização da festa carioca. Naquele ano, jornalistas do vespertino "A Noite" decidiram que já era hora de transformar a personagem, por anos representada por bonecos, em alguém de carne e osso.

Momo baiano

Na Salvador dos anos 30, o Rei Momo como conhecemos hoje surgiu primeiro nos clubes e cordões, como Fantoches da Euterpe, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso, que costumavam eleger seus próprios regentes. Na década de 1940 foram criados os concursos para que a população votasse nas rainhas e princesas. O Momo, nessa época, possuía uma aura mística e era associado a uma “entidade” que trazia o tempo da folia para que o Carnaval começasse.

Monitor da Casa do Carnaval, Caio Gilu ressalta que o Carnaval sempre foi um espaço para transgredir a ordem social e que a figura do Rei Momo se encaixa nessa ideia de ultrapassar os limites da norma. "O Momo, quando nós olhamos para o passado, é uma figura transgressora, a figura satirizada de um rei que traduz perfeitamente o que o Carnaval é em sua essência. É essa a ponte entre a figura de Momo e o Carnaval, a essência de uma festa em que os pecados, os prazeres, os excessos, a verdade do ser humano está ali. Você se abre, você pode ser quem você quiser”, define.

Ferreirinha foi eleito Rei Momo a primeira vez em 1959 e ficou no posto quase 30 anos
Ferreirinha foi eleito Rei Momo a primeira vez em 1959 e ficou no posto quase 30 anos | Foto: Cedoc A TARDE

Eleito e vitalício

A primeira eleição de Rei Momo em Salvador partiu de um concurso instituído pelos jornalistas Edmundo Filho e Silva Filho, ambos da Rádio Excelsior. "Em todo o Brasil, as eleições dos reis momos sempre começaram a partir da imprensa. Foram jornalistas e pessoas engajadas nesse meio que trouxeram o Rei Momo para a mídia e depois para os clubes", explica o jornalista, publicitário e pesquisador Nelson Cadena.

O concurso aconteceu em 1959 e o Rei Momo escolhido foi Milton Ferreira da Silva, conhecido como Ferreirinha, motorista da Sutursa, órgão municipal da época. "Ferreirinha era um cara muito simpático. Ele costumava dizer que era o único e vitalício. E quase foi, pois se manteve Rei Momo por 28 ou 29 anos. Ele sempre dizia também que ficava revoltado, pois quando estava vestido de Rei Momo durante o Carnaval, o povo o chamava de Ferreirinha, mas quando estava normal na rua e trabalhando na Sutursa, chamavam ele de Rei Momo. Ele dizia: ‘Eu não me conformo com isso’", acrescenta Cadena.

Ferreirinha teve o reinado mais longevo entre os momos de Salvador. Era ele quem reinava quando o primeiro cortejo oficial aconteceu, em 1961. "A cidade já está sob as ordens ruidosas e alegres de Sua Majestade, Rei Momo, que na folia é o primeiro e único. (...) Os cronistas carnavalescos dizem que pelos preparativos, pelos ensaios e pela disposição dos foliões, o Carnaval de 1961 será um dos melhores", informa A TARDE, na edição de 11 de fevereiro.

Com rainha, princesas e seguido pelo povo, os cortejos do Rei Momo a partir dos anos 1960 anunciavam o início do Carnaval. Ao longo dos anos, se tornaram mais incrementados. Um exemplo é o de 1984, no centenário da festa de Salvador, pois, na cidade, 1884 é considerado o ano em que começam os desfiles e a participação popular intensa na folia.

Em 1984, a Emtursa e a Bahiatursa organizaram um desfile temático com cabeçorras, mandús, zé pereiras, clowns, pierrôs e colombinas. "O Rei Momo chegou pelo mar e aportou no Porto da Barra. A atriz Tânia Alves fez par com o Rei Momo, enquanto Waltinho Queiroz, Edson Conceição e Roque Ferreira compuseram a música tema daquele ano", complementa Nelson Cadena.

Outro cortejo diferente do usual já havia acontecido em 1979, quando o rei, a rainha e as princesas desfilaram em um Jeep da Polícia Militar da Bahia, após o Momo receber a chave da cidade do então prefeito Edvaldo Brito. A edição de A TARDE de 23 de fevereiro daquele ano explicou que o carro da polícia foi usado de improviso porque faltou verba para um carro alegórico.

Cortejo Marítimo para o Rei Momo foi inovação no Carnaval de 81
Cortejo Marítimo para o Rei Momo foi inovação no Carnaval de 81 | Foto: Cedoc A TARDE/27.02.1981

No hotel de luxo

O cortejo do Momo fixava residência em hotéis de luxo nos dias de Carnaval, garantindo, inclusive, momentos memoráveis, como o ocorrido na festa de 1976, quando Ferreirinha chegou de forma inusitada na coletiva de imprensa organizada no antigo Le Meridien. A edição de A TARDE de 25 de fevereiro daquele ano informava que o soberano chegou “vestindo seu traje real completo e desceu de helicóptero, a fim de oferecer aos jornalistas um coquetel para anunciar as atividades durante o curto, mas alegre reinado”.

Já faz alguns anos que essa mordomia real foi cortada do orçamento. E, atualmente, o Momo tem direito a um prêmio de R$10 mil, um traje exclusivo e a coroa para, simbolicamente, receber a chave da cidade das mãos do prefeito, marcando o início do Carnaval. O gesto significa que, durante os dias da festa, é Momo quem “governa” em nome da alegria e da liberdade. A tradição da entrega da chave em Salvador foi interrompida no início dos anos 2000, mas não demorou a voltar e ainda ocorre nos dias de hoje, na Quinta de Momo.

Adeus ao rei

O último cortejo de Ferreirinha como Momo foi em 1988. Depois, ele abdicou do cetro e da coroa por conta da saúde e do avançar da idade. "O Carnaval começou com muita animação, ontem à noite. O Rei Momo recebeu a chave da cidade, entregue pelo prefeito Mário Kertész, depois de sair do Hotel Meridien e percorrer toda a Avenida Sete de Setembro. (...) Ele decretou o início da folia e disse que deseja um Carnaval com muita alegria e sem violência", informa A TARDE na edição de 12 de fevereiro.

No ano seguinte, 1989, o filho de Ferreirinha, Milton Ferreira Filho, assumiu o trono. Em 1990, a eleição para a escolha do Rei Momo, coisa que não acontecia há décadas já que Ferreirinha defendia que reis tinham dinastias e não eram eleitos, voltou a acontecer. A tarefa foi assumida pela Federação das Entidades Carnavalescas e Culturais da Bahia e o primeiro Rei Momo eleito pelo concurso foi o enfermeiro e professor de enfermagem José Eduardo Santana Vita. Ele foi Momo em 1990 e em 1991. "A melhor coisa que alguém pode sentir é a sensação de ser uma espécie de dono do Carnaval", afirmou o soberano ao A TARDE, na época.

Com o concurso, critérios foram estabelecidos para a escolha do Momo. Tradicionalmente, ele seria representado por uma pessoa alegre, brincalhona e bem-humorada, que gosta intensamente do Carnaval. O costume também era escolher um Momo bonachão e gordo, reforçando a imagem de abundância e exagero que a personagem simboliza. O eleito precisaria conhecer o Carnaval, aguentar o pique dos dias de folia e transbordar carisma e animação.

Anualmente, a Federação trazia inovações. No Carnaval de 2008, por exemplo, o agitador cultural Clarindo Silva foi o escolhido, numa mudança da tradição dos reis momos bonachões. "Houve uma reação grande, mas não foi tão grande pelo que Clarindo representava dentro da cultura baiana e do Centro Histórico. E depois vieram Pepeu Gomes, Gerônimo e outros que saíram do padrão do Rei Momo bonachão", cita Nelson Cadena.

Para o pesquisador, atualmente a euforia em torno da figura do Momo já não é a mesma do passado e não por causa do que ele representa. "Os poderes públicos não estimulam muito essa coisa do Rei Momo. Claro que ainda existe a entrega da chave, mas depois ele some, não tem nenhum prestígio; não como antigamente, que fazia parte de toda a estrutura do Carnaval, participava dos eventos. Hoje é um personagem secundário. E tem a verba para os concursos, que é muito pequena, mal dando para pagar os prêmios, que dirá para ter uma estrutura melhor", lamenta.

RODAPÉ

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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